Ratu: Procurando Blunt

Beqa Island, Fiji. Fevereiro de 2016.

Sentado na popa do barco Predator, Ratu Kolinio Biautubukoso fita o nada. Como na manhã anterior, e também em todas as outras dos últimos 8 anos (com folgas às quartas e domingos), ele lidera uma equipe de cinco mergulhadores profissionais e outros dez amadores, entre turistas e pesquisadores, para alimentar os temíveis tubarões-touro em uma arena construída a 30 metros da superfície no litoral da ilha de Beqa (pronuncia-se Benga), no arquipélago de Fiji. Em breve, mais de 40 desses bichos comerão pedaços de atum e mahi-mahi da mão de Ratu, enquanto dois colegas ficam de guarda-costas com lanças de pontas arredondadas — ninguém quer machucar ou irritar os animais, embora o senso comum possa gritar que os vulneráveis, ali, são os mergulhadores. Ratu é alto e esguio, tem a pele bem morena e uma mandíbula pronunciada. Os dentes de baixo fecham-se à frente dos de cima, o que pode lhe dar uma aparência carrancuda. A seriedade se desfaz, porém, a um simples pedido para tirar foto. “As mulheres do Brasil inteiro vão ver meu rosto? Que maravilha!”.

Ratu, ou Tubee, ama sua vida. Desde que se lembra, ainda guri em Rukua, vilarejo pequeno na ilha da Beqa, ele entra do mar todos os dias. “Minha terra não tem carro, nem restaurante, hotel… é perfeita”. Ele acordava e passava na praia antes de ir para a escola, voltava para o almoço e passava a tarde nadando nas águas do Pacífico. De vez em quando, para quebrar a rotina, ia rodar com os amigos pelas trilhas montanhosas que invariavelmente terminavam em rios e cachoeiras. Nessa época, Ratu dizia para quem perguntasse que, quando crescesse, queria ser piloto de avião. A família toda até se mudou para Viti Levu, a principal ilha de Fiji, para que ele e seus irmãos pudessem avançar nos estudos. Mas quando seu pai, Manasa Bulivou, o chamou para ver o fundo do mar (nada muito profundo, alguns metros só para o moleque entender como funciona um octopus) depois de um dia de trabalho como mestre de mergulho, Ratu pirou. “Eu tinha dez anos, e nunca mais quis saber de outra coisa na vida. Perfeição para mim era areia branca e nadar no mar, aprender a mergulhar foi melhorar o que já era perfeito”. E é assim até hoje. “Todo mundo diz que quer trocar de emprego comigo, mas daqui eu não saio por nada. Todo dia é um dia feliz”.

Nesta região do planeta, ser filho de Manasa Bulivou não é pouca coisa. Ao lado de seu primo Rusiate Balenagasau, Bulivou foi pioneiro na prática de alimentar os tubarões em Fiji, uma atividade que atrai hoje 1 em cada 10 estrangeiros que visita o país. Em 2003, um grupo de biólogos suíços convenceu o governo de Fiji a permitir que eles fizessem pesquisas com os tubarões no litoral de Beqa, ao mesmo tempo que explorassem o potencial turístico dos mergulhos de alimentação das feras. Os europeus precisavam de mergulhadores que conhecessem bem a região para ajudar o trabalho científico. Bulivou era perfeito para o papel, pois já mergulhava há décadas naquelas águas, estava acostumado a nadar lado a lado com os tubarões e, para coroar, é porta-voz do grande chefe de uma das vilas da ilha. Ganhou o emprego, e o respeito de uma legião de mergulhadores de Fiji. “Meu pai e o Rusi são lendas por aqui, eu tenho um baita orgulho de ter aprendido diretamente com eles a alimentar os tubarões, como interagir com eles, o que fazer quando eles chegam muito perto… tudo, tudo o que eu sei”. Ratu é quem está carregando a responsabilidade lidar com os monstros marinhos agora. Rusi morreu em dezembro — nada a ver com mordidas de tubarão, ele sucumbiu a complicações da diabetes. E seu pai, Bulivou, que já vinha diminuindo o ritmo dos mergulhos depois de um ataque do coração nos últimos anos, teve que se aposentar em 2015. “Todas as noites eu chego em casa e conto para ele como foi o mergulho naquele dia, quantos tubarões de cada espécie apareceram… é minha maneira de animar o velho, sabe?”.

Na reserva marinha onde ocorrem os mergulhos, podem ser vistos o tubarão cinzento dos recifes, tubarão de pontas negras do recife, tubarão galha branca de recife, gralha prateada, tubarão limão, tubarão de leite tostado, ocasionalmente um tubarão-tigre. Mas a grande estrela, o que todos querem ver de perto, é o tubarão touro. Também conhecido como tubarão da cabeça chata, é o mais mortal entre os seus. É o animal com mais testosterona do planeta, e responsável pela maior parte dos 61 ataques a humanos em Recife, no nordeste brasileiro, desde 1992. É na boca destes animais que Ratu dá até 200 kgs de pescado por dia. Estima-se que a atividade gire cerca de 50 milhões de dólares por ano em Fiji, o que fez com que o acordo dos suíços com o governo federal se encorpasse ao longo do tempo. Em uma iniciativa inédita no mundo, o Ministério da Pesca em Suva, capital do país, entregou nas mãos da Beqa Adventures, uma empresa privada com fins lucrativos, a administração de uma Reserva Marinha criada especificamente para proteger os animais explorados comercialmente. Todos os empregados foram treinados pelo Estado, e hoje são oficialmente Guardas Marinhos: fazem a ronda na Reserva, e têm o poder de apreender os barcos e a carga de quem for pego pescando por ali, além de conduzir seus tripulantes até a delegacia. “Prender um, dois ou três infratores faz com que todos os pescadores entendam que aqui é proibido pescar. Fico muito feliz de ver que o trabalho dá resultado e hoje vemos muito mais tubarões, peixes, moreias… muito mais vida marinha do que encontrava anos atrás”.

O porte atlético, a autoridade de Guarda Marinho e o enfrentamento diário de dezenas de bestas subaquáticas, as mulheres sabem, dão a Ratu um certo… mojo. Aos 27 anos, ele é dos poucos homens de sua geração que ainda não casou. Diz que tem uma namorada que mora na Austrália, mas não esconde que vive recebendo, e aceitando, convites de turistas para encontros depois dos mergulhos. “Eu digo para os meus pais que está tudo muito bem do jeito que está, e que ainda vou aproveitar um pouco a vida antes de casar. Porque uma vez que você casa, aí acabou”. Saiu uma única vez do país, mas não para ver a parceira. Foi ao casamento de um primo em Brisbane, na Austrália, e adorou as férias, mas achou o ritmo de vida muito acelerado por lá. Sempre que se pergunta qual o horário do ônibus, ou a que horas você pode marcar um encontro, enfim, qualquer pergunta que envolva uma noção de tempo, a resposta é Fiji Time (algo como “no tempo de Fiji”). Não espere pontualidade. “Aqui é bem relaxado, todo mundo diz bula (“oi”) para todo mundo, tem a praia, o mar, os tubarões… Eu quero ficar aqui para sempre”. O símbolo maior do Fiji Time é o kava, uma bebida preparada à base de raízes secas maceradas que tradicionalmente era exclusividade dos grandes chefes, mas hoje é um relaxante e lubrificante social vastamente consumido por toda a população. “Você toma e se sente relaxado, sonolento. Às vezes eu e meus amigos bebemos kava a noite inteira, das 6 da tarde às 6 da manhã, e falamos ‘Cara, sem kava amanhã para a gente’. Mas aí o amanhã chega, não tem nada para fazer depois do trabalho, e então… ‘Ok, vamos beber kava!’ E lá vamos nós para uma noite de falar bobagem, falar de mulher, e tal”.

É fácil entender porque o cara é feliz: mora num lugar paradisíaco, trabalha na natureza, é jovem, tem certa facilidade com mulheres… mas será que o sujeito não tem medo de se ver diariamente no meio de dezenas de tubarões com fome? “Mesmo criança, antes de meu pai me ensinar a mergulhar com cilindro de ar comprimido, eu já via tubarões nadando por aí, e sabia que eles não querem nos morder”, explica. Ele nunca teve nenhum acidente com as feras, mas conta que seus dois mestres, o primo Rusi e seu pai, já foram mordidos. “Quando um tubarão touro mordeu a mão do Rusi, ele saiu para comemorar! Foram só umas cicatrizes pequenas, ficou de medalhão”, conta Ratu com admiração. Seu sonho, inclusive, é ir à África do Sul fazer o mergulho com o tubarão branco, tão perigoso que é feito dentro de uma jaula.

Tanta coragem não é puramente racional — é sabido que os tubarões não gostam de carne humana, e a quase totalidade dos ataques a humanos se resume à chamada “mordida de reconhecimento”: o bicho dá uma dentada, sente o gosto ruim e desiste da presa. Os ancestrais de Ratu, no vilarejo de Rukka, reverenciavam Dakuwaqa (pronuncia-se “Dakuanga”), o deus-tubarão. A lenda diz que Dakuwaqa habita o litoral de Beqa, e que protege os moradores da ilha dos outros monstros marinhos. Hoje os tempos são outros, e o cristianismo suprimiu muitas destas crenças ancestrais nas ilhas do Pacífico. Na vida de Ratu, no entanto, a devoção se mantém de certa forma na figura de Blunt, uma tubarão-touro fêmea dominante com quem ele desenvolveu uma delicada relação. Em todo mergulho, Ratu desce às profundezas procurando por Blunt. A recíproca é a mesma, e Blunt não aceita comida da mão de nenhum outro mergulhador. Na expedição que acompanhamos, Blunt não estava lá. De qualquer forma, amanhã Ratu vai estar debaixo d'água mais uma vez. E de novo depois de amanhã. Sempre à procura de Blunt.