Non Ducor, Duco

“NÃO SOU CONDUZIDO, CONDUZO”

Estava escrito à caneta no antebraço da mendiga. Louca, quando alguém se dirigia à ela, conversava apenas com a imagem refletida da pessoa num espelhinho quebrado que levava sempre à mão.

O paulistano pensava no porque daquilo enquanto descia a escada. Estação Brigadeiro do metrô. 18 horas num dia qualquer da semana. Calor humano era apelido, o lugar estava abarrotado! Vinte mil pessoas por hora nos momentos de pico. Era onde desembocava a massa de trabalhadores da Avenida Paulista, ponto caótico onde todos são forçados a se encontrar, esbarrando uns nos outros com suas pastas, mochilas e pressas; com seus problemas, maus-humores, dilemas, dúvidas e certezas.

Esse paulistano tinha o poder de se desligar do mundo, bastando aumentar o volume do seu tocador de mp3. Assim, deixava de pensar em questões que o incomodavam e também se distraía do estresse da viagem. Tinha uma mania, fruto de sua rotina diária: sempre entrava no vagão pela mesma porta. Fazia o mesmo para a saída, como se só conhecesse essas portas em toda a extensão das linhas de metrô.

Assim que o trem parou na plataforma e se abriu, ele se adiantou e pulou para dentro, como só um paulistano às 18 horas de um dia estressante consegue fazer. As portas se fecharam de imediato, e ele percebeu que o vagão estava vazio, exceto por um único homem sentado. O s outros passageiros permaneceram imóveis lá fora enquanto o trem se movia e ganhava velocidade. Por que ninguém entrou junto com ele?

Ignorou quando o solitário se levantou, até que o ouviu, mesmo estando com o volume alto:

- Enfim nos encontramos, caro paulistano.

Sua voz era estranha, suave como som ambiente de elevador, e a entonação lembrava vagamente uma URA, uma daquelas gravações irritantes digitalizadas de serviços telefônicos.

Futuro e passado distantes brigaram na percepção do paulistano quando olhou para ele. Os pelos de sua barba pareciam ter sido removidos cirurgicamente, tão perfeito era o aspecto. A pele lisa da região remetia à ficção científica e suas modificações corporais. Mas ao mesmo tempo seu semblante era clássico, antigo. Inexplicável.

Usava um terno escuro, sóbrio e justo que emoldurava seu corpo atlético, dando uma ideia irresistível de poder. A distinta gravata Kenzo guarnecia uma camisa branca de algodão de fibra impecavelmente passada. Os sapatos italianos complementavam aquele extraordinário homem.

- Quem é você?

- Sou o dono, o zelador, a essência de tudo isso.

- Do metrô? — disparou o paulistano, sem acreditar que tinha perguntado aquilo.

- Do metrô que corta e alimenta esta cidade, como uma artéria num organismo evoluído. De tudo que te cerca, paulistano. Genii loci, sou o espírito deste lugar.

- Tá, e você tem nome? — esqueceu o mp3.

- Vários. Existo desde quando os gregos receberam a civilidade das mãos das Três Graças. Desde quando o primeiro romano deu vida ao símbolo que limitava sua terra, chamou-o de Términus e o adorou como deus. Minha raça teve diversos nomes — de Penates, Lares até a feminina Vesta — e descende dos espíritos das florestas adorados no Período Neolítico da História.

- Que louco. Pára, meu, você fala demais!

- Um nome você quer, eu que já tive tantos pelo mundo; Brownie, Domovoi… Escolha o que mais te agradar! Mas é o que represento que importa neste momento, e não o que sou de fato.

- Um vendedor? Só me faltava essa. Vai, minha estação tá chegando. O que você quer?

- Sua estação chegará quando eu quiser que ela chegue. O que eu quero? O que todo deus cobra de seus protegidos? Tributo. Mas não se assuste. Términus nunca recebeu sangue como sacrifício, nem eu vou querer.

- Que papo mais esquisito, amigo!

- Você é o esquisito aqui, amigo. Você que já aperta a descarga antes mesmo de terminar de mijar, como se economizasse tempo com isso. Que reclama da falta de tempo, quando na verdade não organiza direito o seu.

- Você é um demônio! Como sabe que eu aperto…?

- Não, não sou demônio. Essas criaturas dizem exatamente o que você quer ouvir. Eu digo o que não quer reconhecer.

- E o que é?

- Que você estagnou. Que não vive, apenas sobrevive. Pare de crescer um só instante em São Paulo e você some, desaparece sem deixar vestígios. Nunca fique estagnado, é o preço que a cidade te cobra. Já percebeu que as pessoas cada vez menos notam você, que às vezes se move entre elas sem chamar a atenção? É o descaso inconsciente delas. Sinal de que aos poucos está deixando de ser alguém, e é uma questão mais de capitalismo do que de cidadania. Você — PUF — desaparece!

- Então você é…

- Sou quem mantém a locomotiva nos trilhos, e as pessoas me seguem sem saber. Só os muito velhos, os mendigos e os loucos me enxergam. Hoje você olhou para uma mendiga antes de entrar no metrô. O que pensa que te separa dela?

- Eu não sei, cara!

- Eles estão fora do mercado de trabalho, mesmo do informal. Vou contar o segredo da locomotiva chamada São Paulo, a terceira maior cidade do mundo: no século retrasado, quando apareceu o café, aqui não se praticava mais a escravidão. Aqui os trabalhadores eram pagos e isso gerou o comércio, que juntou-se com as lavouras e gerou mais riqueza, atraindo indústrias. Hoje em dia são feitas dez compras por segundo via cartão de crédito nesta cidade. Já deve ter visto as folhas de café em nosso brasão. Não estão lá à toa, te asseguro.

- O que você quer de mim?

- Queria que fizesse parte. Que comprasse mais e sempre, e com isso trabalhasse mais e sempre para poder pagar. Ou seja, que ajudasse no crescimento da cidade. “Fazer parte” tem suas recompensas, é ter uma amante, uma secretária loura e peituda para transar, é natural. Jogue meu jogo e te dou uma torre de vidro. Mas você parece não gostar disso, não é?

- Eu, eu…

- Já sabe o que sou. Eu te dei oportunidades, pão e circo: São Paulo é a capital mundial da gastronomia, e existem aqui também três times poderosos do país do futebol, nossa versão moderna dos espetáculos do Coliseu. Eu te dei o mundo de fumaça e poluição que te cerca em troca de uma vida confortável. Eu te dei a luz não-natural.

Os trilhos agora rangiam perigosamente lá fora, o túnel escuro do metrô clareava conforme as faíscas do atrito saltavam nas janelas. Janelas que refletiam aquele com que o paulistano esteve conversando: uma espécie de gárgula rústica. Corpo esculpido em rocha lisa com a frase “Non Ducor, Duco” entalhada no antebraço.

Nesse tipo de situação, para evitar a loucura, a mente humana reage com medo ou com negação:

- Cara, você não existe! É delírio meu!

- Existo. Sou um espírito, uma entidade? Ou uma simbologia, um conceito, talvez? Mas e você, existirá a partir de hoje? Como eu disse, você não vivia, sobrevivia… qual é o próximo nível?

O paulistano lembrou do que ele tinha dito sobre os mendigos, os muito velhos e os loucos.

- Eu não acredito em você!

- Ah, não? É assim que as coisas acabam, sabia? Quando deixam de acreditar nelas. Por que acha que o Deus cristão ainda está por aí até hoje? Já parou pra pensar no que acontece se deixarem de acreditar em você?

O paulistano gritou, mas os rangidos de metal lá fora apenas aumentaram…


Ninguém viu de onde o maltrapilho apareceu, nem quando exatamente. Ele apenas observava a estação do metrô, incapaz de fixar o olhar em qualquer pessoa.

- Quem é ele? Às vezes fala duas, três palavras em latim…

- Sei não, senhor. Fica aí o dia todo, resmungando que a estação dele nunca chega. De vez em quando fica sério e fala umas coisas interessantes, até chegar na parte da gárgula.

- Gárgula?

- É. Coisa de maluco.

- Essa cidade enlouquece a gente, né?

- Verdade…


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