A lição dos gatos que se matam

Há uma expressão que só adultos têm. Meninos e meninas são incapazes de reproduzi-la. Não se sabe quando esta expressão nasce, se aos 25, aos 30, aos 45. É bem provável que ela venha sendo esculpida, meticulosamente, pela talhadeira do tempo e pelo cinzel das vivências. Por isso, só a percebemos quando está devidamente sulcada e pronta. Exposta na galeria das realidades evidentes. É uma expressão de certezas e desesperanças. De sonhos quebrados, ou que ficaram distantes demais. Não sei bem se é na rugosidade da testa, ou na marca dos músculos da mandíbula tensionados que reside a evidência mais óbvia. Um olhar predador substituiu o arregalado curioso da criança. E a boca? A boca não quer mais perguntar, nem sorrir. Quer ferir. E não é porque os dentes estão formados e fortes. É porque a palavra ficou afiada. Há nos adultos uma falta de meninice, que os poetas mantêm. Poetas não pararam de brincar, apesar do tamanho e do curvar dos corpos, então ficam com caras de meninos e meninas com rugas.

Na falta de bolas, cataventos, carrinhos e pipas, poetas brincam com as palavras. A palavra é a matéria prima que os adultos têm sempre à mão. Poetas a usam para brincar, adultos a usam para ferir. Como uma faca, a palavra pode ser ferramenta ou arma, a intenção dá a função. Acho que é a sobrancelha! aquele amontoado de pelos, dependendo de como se curva e inclina, vai do triste ao curioso, do questionador ao raivoso. As sobrancelhas emolduram emoções. Mas não é só isso! Conheço rostos parados, de sobrancelhas adestradas. Uns são rostos poetas, outros não. Para entender esta expressão, não posso usar a lente do adulto, investigando rugas, pelos, olhares, e ficar dando-lhes notas em uma planilha. Esta expressão vem sendo talhada de dentro pra fora, e só o olhar do poeta tem o raio x necessário para ver sua gênese. Adultos não se reconhecem nas obras expostas. Tenho uma desconfiança confiante (ela acha que é uma certeza), de que esta expressão nasce quando enfrentamos uma das primeiras mortes. Quando nos matam a curiosidade.

Sem a curiosidade, restam-nos as certezas. Nada mais precisa ser descoberto, apenas vivido. Fecham-se as fronteiras e delimita-se o mundo que nos cabe. No dia do enterro da curiosidade, nosso mármore sofre o primeiro golpe. O mais triste, é que é muito comum encontrar os assassinos de curiosidades entre as pessoas que mais confiamos, na família e na escola. Nos acostumamos a ver sendo ostentadas com orgulho, lustrosas armaduras de certezas enquanto as dúvidas amargam nos calabouços. Curiosidades se alimentam de dúvidas. Temos as matado de fome.

Quando menino, ouvi o alerta: “Cuidado guri. A curiosidade matou o gato.” Passei a admirar ainda mais estes felinos, que sabem dar valor às descobertas, a ponto de pagá-las com a própria vida.

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