A cidade é algo complexo.

Complexidade e Causalidade na gestão


Management 1.0 — Hierarquias

Esse é o tipo tradicional de gerenciamento, onde o poder está nas mãos de poucos, onde a palavra de ordem é comandar e controlar. Algumas pessoas chamam isso de “scientific management”, cuja a ideia é que a empresa é organizada e gerenciada de cima para baixo. Onde os cargos no topo da hierarquia tem os salários mais altos, grandes bônus para “compensar os riscos” de terem esses cargos e cadeiras melhores… enquanto os cargos de baixo não tem muito dinheiro, pouca responsabilidades (ou responsabilidades sem qualidade) e pouca ou nenhuma motivação para executar um bom trabalho.

Empresas com esse tipo de gestão são dirigidas pela inércia por conta do poder estar apenas disponível para poucas pessoas (as que estão na parte de cima da pirâmide). São empresas com estruturas muito monolíticas, muito baseadas em budgets e metas a curto prazo. Além de experimentarem bem pouco novas estratégias ou novas ideias de organização.

Management 2.0 — Modismo

Essa versão é basicamente a mesma que a primeira, com a diferença que como o Management 1.0 não funciona bem, logo começaram a surgir alguns métodos complementares para tapar os buracos da primeira versão. Esses métodos servem pra que os camaradas que comandam a empresa lá de cima, mudem como a empresa é organizada e desenhada de forma que o gerenciamento se torne mais escalável e duradouro. Alguns desses métodos são: Six Sigma, Teoria das Restrições, Total Quality Management e outros.

Mesmo com esses métodos, a estrutura da organização continua sendo a mesma do Management 1.0. Enquanto a primeira versão é fundamentalmente sobre controle, o Management 2.0 é sobre conseguir algum tipo de engajamento das pessoas dos cargos inferiores.

Management 3.0 — Complexidade

A versão 3 decide mudar tudo. Ela leva como base a teoria da complexidade, primeiramente aplicada na matemática e biologia, economia e sociologia. O principal ponto é enxergar as organizações como redes. Não adianta organizar a empresa baseada em hierarquias e não entender que as pessoas nessas hierarquias formam uma rede. Outra coisa é que “complexidade social” é tudo sobre pessoas e seus relacionamentos e não sobre departamentos e lucros.

Entender que pessoas vem em primeiro lugar, e que seus relacionamentos é o que realmente traz resultados para o grupo e consequentemente para a organização é o principal objetivo.

Causalidade

Como seres humanos, nós acreditamos que as coisas sairão como planejamos por que entendemos que podemos prever o que irá acontecer no futuro se baseando em eventos que aconteceram no presente e no passado. E isso realmente faz sentido. Na ciência isso é uma das regras básicas e por isso eles conseguem prever quais serão os próximos eventos e fenômenos se baseando em eventos e comportamentos passados da natureza. É assim que preveem tão corretamente quando o cometa Halley irá passar para dar um “Olá” ou qual será o próximo eclipse.

Em desenvolvimento de software isso também pode ser real. As equipes escrevem e mudam seus códigos, porque entendem bem o ambiente em que o software irá rodar, quais os processos e mecanismos que seu código irá ser submetido. Causalidade nos diz claramente o que poderá acontecer futuramente baseado em coisas que aconteceram antes. Sabe aquele esquema de “aprenda com os erros do passado?” é quase isso aí. Você sabe que algo pode dar certo ou errado porque você já experimentou ou porque aprendeu com a experiência de outra pessoa.

Nossas raízes se baseiam nessa regra da “causalidade”: o que você fez no passado e o que você está fazendo hoje, irão determinar o que acontecerá no futuro… para o bem ou para o mal. Isso faz com que você consiga ter uma certa previsibilidade do que poderá acontecer com o seu time, seu produto e sua empresa.

Mas é incrível como a causalidade pode ser imprecisa. Por exemplo: não conseguimos saber qual será a previsão do tempo nos próximos meses. Ou se você tem um produto, você não consegue prever quando os clientes virão a partir do momento que você coloca seu sistema em produção. Engraçado como mesmo tendo métricas e experiências de outras empresas e times de software, não conseguimos ter a exatidão do que poderá vir a acontecer. E é aí que entendemos que a coisa é mais complexa do que imaginávamos.

Complexidade

Enquanto a causalidade nos permite ter um pouco de previsibilidade nas tarefas normais de um ser humano, permitindo que consigamos sair para trabalhar, praticar esportes e seguir com as nossas vidas de forma normal, a complexidade pode tornar facilmente essas mesmas tarefas em algo imprevisível e não gerenciável.

O pessoal do Management 3.0 explica muito bem o que seria algo simples, complicado, complexo e caótico:

Simples = fácil de entender.
Complicado = não é simples, mas ainda assim é fácil de entender.
Complexo = não é entendido inteiramente, mas relativamente previsivel.
Caótico = não é entendido, nem previsível

Você saí para trabalhar, desce até o estacionamento, liga o carro e dirige para fora do estacionamento. Você sabe que seu carro é novo e fez todas as revisões necessárias. Você está com o tanque cheio porque passou no posto de gasolina no dia anterior. Logo, você está tranquilo, já que a causa desses cuidados é ter um carro em perfeito funcionamento. Mas o que torna sua viagem ao trabalho complexa e imprevisível é o ambiente não controlado que você se encontra agora: a rua. Desde seu relacionamento com os outros motoristas, guardas de transito, pedestres, sinais, placas e etc, torna a tarefa de ir ao trabalho algo muito complexo e imprevisível.

Sistemas complexos não são construídos, eles simplesmente crescem, organicamente. Embora você entenda parte dele e conheça alguns dos seus efeitos, você não consegue prever.

O desenvolvimento de produtos ou a construção de um site é algo bastante complexo, por que embora você saiba quais ferramentas, a linguagem de programação, o ambiente você vai utilizar, você não sabe se o cliente vai mudar de ideia, se o cliente do seu cliente vai mudar de ideia, ou se o concorrente mudou de estratégia, ou se no meio do caminho sua equipe resolveu queimar os colchões e fazer uma rebelião. Existem pontos imprevisíveis, mesmo havendo certo nível de entendimento do ambiente, projeto, tecnologias, cliente etc.

É importante entender que nossas mentes preferem muito mais causalidade do que a complexidade. Isso é óbvio: causalidade nos dá mais segurança. Saber que eventos futuros podem não ser totalmente desconhecidos e que podemos exercer pelo menos um pouco de controle sobre eles, é bem mais tranquilizador do que os efeitos imprevisíveis e não gerenciáveis que a complexidade nos proporciona.

Analisando acontecimentos passados, conseguimos prever problemas futuros para que eles não aconteçam novamente, mas isso não consegue nos dizer o que acontecerá de errado no futuro. Pegue o exemplo do carro: você já teve um problema com o seu amortecedor por causa dos buracos na rua, logo, você desvia dos buracos hoje para evitar um novo problema nos amortecedores. Mas você não consegue saber que daqui a 5 minutos seu pneu será furado por um prego na rua.


Originally published at diegoeis.com on November 20, 2015.

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