As lições de um ex-navegador

O fim do Internet Explorer, um dos mais importantes programas da história da web, e os ensinamentos que ele nos deixou.


O Internet Explorer não é mais. Ele deixou de ser. Expirou e foi ao encontro de seu criador. Está duro e frio, abandonado de vida, descansa em paz.

O Internet Explorer é um ex-navegador.

Ele foi e nos deixou com várias sensações— a maioria das pessoas vai concordar que ‘saudades’ não é uma delas. Porém, os quase vinte anos de vida do navegador nos premiaram com lições valiosas sobre internet, publicidade, marketing, a vida, o universo e tudo mais. Eu reuni os cinco principais na minha opinião pessoal e parcial.

1.

Não siga flautistas.

Dentre os entusiastas de tecnologia, é uma opinião comum que o IE nunca foi o melhor navegador do mercado. Ele foi, no entanto, o navegador de maior sucesso da história em um certo período, chegando a representar mais de 90% dos acessos à rede. Como se faz pra virar líder de mercado com um produto inferior aos concorrentes?

Mudando o modelo de negócio.

Pra começar, o IE era o único grande navegador que podia ser obtido “de graça”. Esse suposto gratuito na verdade era incluso no pacote do Windows 95, então eu suponho que o preço estava incluso também — uma das técnicas mais antigas do livro de técnicas pra enganar as pessoas. Questionamentos éticos à parte, o plano funcionou. Mais do que funcionou, mudou o jogo, os navegadores concorrentes logo adotaram o modelo gratuito como padrão pois era a única maneira de concorrer, e ninguém mais teve que comprar um programa pra navegar na internet. Ganhou o público, mas ganhou mais ainda a Microsoft.

2.

Não sossegue

O IE foi ultrapassado em qualidade por pelo menos uns três navegadores até receber aquele golpe final chamado Google Chrome. A estratégia competitiva do programa foi compreendida pelos concorrentes e, ao perder a vantagem do modelo de negócio, a diferença de qualidade começou a falar mais alto. O software foi consistentemente mal administrado, as necessidades do usuário e a própria segurança do navegador foram colocadas de lado e versões como o IE6 e o IE8 eram tão visivelmente deficientes que causaram um dano permanente à imagem do produto. A certeza da liderança nublou as decisões dos responsáveis pelo software.

Como diria o grande filósofo e inimigo do Batman, Bane: A paz custou sua força, a vitória o derrotou. Chegar à liderança é difícil e se manter lá é um outro trabalho, não perder a perspectiva pode ser mais desafiador do que encontrá-la em primeiro lugar.

3.

As vezes, boa publicidade é só publicidade.

Uma das melhores campanhas já feitas para um produto digital foi no lançamento do IE10. A agência que criou essa campanha teve uma oportunidade muito rara, um cliente que ouviu tudo que existia de negativo sobre o seu produto, aceitou e aprovou uma campanha baseada justamente nisso, em explorar a força da comunicação através das fraquezas do produto.

Se compararmos com esse anúncio do chrome feito na mesma época, analisando de um ponto de vista publicitário, técnico, criativo, o IE teve uma superioridade muito grande em sua comunicação.

Por que, então, essa superioridade não se converteu em downloads? Por que o IE não reagiu?

No final das contas, o navegador continuava inferior aos concorrentes, o modelo de negócios seguia o mesmo e já havia outros líderes no mercado. Em situações assim, não importa o quão boa é a sua publicidade, ela só vai te levar até um certo ponto.

Há produtos que não podem ser salvos anunciando.

4.

There’s always a bigger fish.

Boa parte da estratégia da Microsoft se baseou no fato de que, bom, eles são a Microsoft. São muitos produtos de sucesso: Windows, XBox, Office e, claro, Comic Sans. Uma das grandes polêmicas envolvendo o IE era a venda casada com o Windows, então teoricamente se as pessoas continuassem usando o sistema operacional, continuariam usando o navegador que vem com ele. Os anos passaram, o Windows segue forte, mas o IE não sustentou sua posição de domínio no segmento. Já falamos sobre alguns dos motivos pra isso, mas outro fato importante a lembrar é que é fácil perder a noção de mercado quando o seu produto e a sua empresa tem uma posição tão forte entre os competidores. A questão é que, quando finalmente surgiu uma empresa maior, capaz de um monopólio ainda mais absoluto dentro de seu segmento original, a última arma do IE se desfacelou. A lição que ficou foi nunca deixar que seu sucesso dependa do sucesso de outros.

5.

Se você não tem uma marca, você não tem nada.

A morte do IE também é um pouco subjetiva. A marca está sendo terminada, mas o navegador seguirá disponível em versões mais recentes do Windows e, mais importante, a Microsoft está trabalhando em um novo navegador, por enquanto chamado de Project Spartan. Vai haver um browser inédito que, para todos os efeitos práticos, poderia muito bem ser uma nova versão do nosso velho desafeto. Mas sejamos francos, se o novo IE fosse de fato o melhor navegador do mercado, você acreditaria? Nem eu. As gerações de mediocridade criaram uma marca que está para sempre vinculada à ignorância digital, lentidão, inúmeras barras de navegação e a buscas no Bing. E convenhamos que o trauma de ser obrigado a usar o Bing como buscador não é algo que passa rápido.

Os patrimônios mais importantes de uma empresa são suas marcas. A marca do Internet Explorer está sendo descontinuada em um ponto no qual ela já era negativa para a empresa, fica claro que esse movimento tardou a acontecer. Um programa chamado de Internet Explorer 12 é, por isso, completamente diferente do mesmo programa com outro nome.

Porque a marca é tudo.



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