Uma história do passado

Era primeiro de julho de 1922 e o inverno chegara com força naquele ano à cidadezinha pequena, sem luz elétrica, do interior do Rio de Janeiro. Naquele pedaço de chão esquecido pelo mundo, nascia uma menina faceira, esperta e guerreira. Era filha de fazendeiro e contava muitos irmãos. A vida não seria fácil para a doce menina morena de olhos azuis. Entre os anseios de crescer em meio ao desleixo da roça, não demorou muito para perder a referência materna. O pai viúvo pouco se importava com os pequenos, que acabaram criados por uma madrasta bruta e sem coração.

A menina morena de olhos azuis e cabelos volumosos cresceu alheia aos acontecimentos do mundo. Não sabia que já acontecera uma guerra, que o Brasil contava poucos anos de sua independência, que os movimentos sociais clamavam pela Semana de Arte Moderna…. Para ela, o que importava era sobreviver em um mundo pequeno e sem expectativas. A roça era sua vida. Produzia milho, café e hortaliças para o comércio local. A família era grande, chamava-se Santos. Todos os conheciam. A fama de durão de seu pai ultrapassa as pequenas cercanias do vilarejo escuro e sem muita diversão, apenas uma praça em frente à igreja.

A pequena cresceu sonhando os sonhos mais comuns. Aprendeu a costurar com dona Clemencia, que mantinha perto da praça uma escola de costura e boas maneiras para meninas. Não estudou. Ir para escola não era coisa para meninas. Foi educada em casa apenas para ler e escrever com decência. Seu pai não queria suas duas filhas longe do trabalho da roça, afinal toda a família precisava trabalhar.

E assim contaram-se os anos. A pequena costureira prendada tornou-se uma jovem que gostava de passear na praça do pequeno vilarejo rural. Foi em um desses passeios, quando tinha 17 anos, que conheceu um ascendente de espanhol que acabara de comprar as terras ao lado de sua família. Eram os Caleja. Um moço de estatura baixa, com gracejo e simpático a chamou atenção. Mais velho e bem apessoado, o rapaz simples e de aparência costumeira, chegou-se para cumprimentá-la. Do aceno com a cabeça para o namoro foi um pulo.

E os dois seguiram o rumo do desconhecido casando na pequena comunidade rural e vendendo suas heranças para seguirem rumo à tão sonhada cidade grande: o Rio de Janeiro. Por lá, chegaram nos idos dos anos 40, quando a segunda guerra já terminara, a era Vargas chegara ao fim e o Rio seguia firme como capital federal e cultural do país.

O Rio dos anos quarenta fora descrito em cartas como uma cidade que assusta pela grandeza e quantidade de pessoas. Mas morar na capital custavam muitos cruzeiros e eles foram para o interior. Um terreno em Duque de Caxias foi tudo o que conseguiram com o dinheiro que juntaram das terras vendidas. A Caxias daquela época era vigiada por um justiceiro conhecido como o homem da capa preta, que impingia respeito a ferro e fogo. E foi num dia quente de verão que a morena recém-casada deparou-se em seu quinta com o tal justiceiro, Tenório Cavalcanti, que a procurou para resolver uma briga com a vizinha de cerca por conta de duas galinhas fujonas.

Ele questionou a morena de olhos azuis e estatura bem imperativa sobre o que estava acontecendo e pediu para ter mais cuidado com as galinhas fujonas porque, senão, teria que confiscá-las da próxima vez. Mal sabia ela que havia se deparado com um dos homens mais perigosos daquela cidade. Ela o respondeu como se fala a qualquer um. E assim a historia se encerra.

O marido conseguiu um trabalho na Companhia Docas, no cais do porto. E, assim, os filhos cresceram. Foram quatro. E a vida seguiu sem muitas alterações. Por causa de uma asma mal curada, a aposentadoria da Docas veio no final da década de 70. Nessa época, já não moravam em Caxias. O terreno que deu origem a toda aventura no Rio de Janeiro foi emprestado para uma irmã da morena que acabara de ficar viúva, sozinha no mundo, com três filhos pequenos.

Aos poucos, a vida melhora e os dois decidem, na dedada de 70, morar em Ramos, subúrbio do Rio de Janeiro. Deixaram para trás Caxias para levar uma vida melhor, mais perto do Centro e da aposentadoria. A morena nunca quisera muito. Vivera uma vida simples sem muito acesso e nunca teve muito tempo para desejar. Viu os filhos crescer, casarem e tudo seguiu o rumo da tranquilidade.

Até que chegou a hora de voltar ao interior e descansar. O Brasil deixava uma ditadura militar e começava a respirar o ar mais leve com a anistia. Envolvidos nesse cenário de volta da democracia, resolveram voltar a Araruama para conviver com pedaços de suas existências. O crescimento urbano já tomara conta do pequeno vilarejo onde se conheceram. As terras de família não eram mais tão vastas. Mas o nome familiar ainda continuava imperativo. Tudo crescera. Até os netos estavam crescendo. E nada como reuni-los sempre para os almoços em família.

A felicidade perdurou por alguns anos em Araruama. O descanso da aposentadoria merecida era entrecortado com avisos de corte de zeros na moeda e inflação que corroía o salário. Mas a vida era boa. O marido dedicou-se a educar a neta mais nova e a corrompia com ensinamentos de baralhos. O jogo do bicho era outra diversão que, às vezes, rendia ajuda para as balas e mesadas da loirinha mimada.

A vida transcorreu. Os anos passaram e a felicidade de uma vida possível fora alcançada. Até que um dia a viuvez bateu em sua porta e uma outra vida começou. Desse dia, descobriu-se uma viúva amadurecida e pronta para seguir uma longa caminhada sozinha. Ela passou a viver uma vida de descobertas. E viveu muito além daquele dia de perda. Foram quase trinta anos sozinha. Viu netos crescerem, formarem-se, casarem, os bisnetos virem ao mundo e realizou-se. Em seu fim, deitada em uma cama de hospital, após realizar mais do que almejara em sua vida, agradeceu a Deus e chamou por seu parceiro da vida. A senhorinha de pouco mais de 90 anos, de olhos azuis desbotados pelos anos, estava certa de que conquistara uma vida de paz e felicidade. E, assim, deixou-se levar pela mão do destino.