Poda Preventiva

Um dia a Terra me disse:

“Vem, filha, pode pisar”

E braços alarmados balançaram, me erguendo, e me enfiaram em sapatos apertados, calças restritivas, casacos maiores que eu. Meus pés limpos e imaculados clamavam por serem tocados por pedras e cascalhos.

Um dia o Oceano me disse:

“Vem, filha, pode mergulhar”

E jogaram boias, cordas e arpões que cortaram minhas nadadeiras recém-nascidas. As guelras fecharam antes do primeiro fôlego e eu fui me contentando com poças, com goles d’água, com conta-gotas. E todo mês eu vazava um saudade doída do mar.

Um dia a Lua me disse:

“Vem, filha, pode dançar”

E acenderam tochas, fogueiras e barreiras na tentativa de me bloquear. Jogaram-me suas roupas, seus traumas, seus pudores e suas páginas amareladas para me podar, como os arbustos selvagens que trepavam pelas paredes. As folhas caiam mas as raízes bebiam o luar.

Um dia o vento me disse:

“Vem, filha, pode cantar”

E taparam-me a boca antes que meu canto pudesse ressonar. Colaram meus lábios com um silêncio respeitoso, meu grito de guerra nem um mero cantarolar. Abri meus pulmões de ave, cada palavra uma profanidade pelo simples ato de falar.

Um dia o fogo me disse:

“Vem, filha, pode queimar”

E renunciaram minhas brasas, tacaram-me água para evaporar. Acusaram-me de ebulição, de andar por aí com o quadril marcado como gado que deseja um pouco de atenção. Condenaram minhas vontades, perigos eminentes à humanidade e apresentaram-me o cabresto e a castidade.

Um dia a terra me disse:

“Vem, filha, pode deitar”

E eu pari sobre ela minhas sementes e tudo que eu poderia ser. Repousei sobre o solo ungido pela minha totalidade, penetrei os dedos nos refúgios da humanidade e virei raiz. Virei estirpe para mim, para as próximas, para as anteriores. Nasci de mim e gerei-me, continuamente, sem fim. Devorei-me numa antropofagia sagrada. Ouroborizada.

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