Carta ao filho

Fred Di Giacomo
Jan 21, 2016 · 4 min read

Filho,

Ensimesmado na barriga da sua mãe, você já passou das 40 semanas e não nos deu o prazer de sua graça. Há nove meses acompanhamos você crescendo devagar em ultrassons 3D e consultas de pré-natal. Há nove meses fantasiamos como será a cor do seu cabelo, o timbre do seu choro e suas manias e gostos pessoais. Deu um trabalhão colocar a vida e a casa em ordem para te receber melhor — sua mãe até parou de beber cerveja e tomar café pensando na sua saúde.

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(Você ainda é muito novo para saber, mas café e cerveja são coisas boas. Digo, são coisas boas para adultos. Digo, são DROGAS, esqueça o que seu pai escreveu, tome o leite da sua mãe e não se preocupe com essas coisas.)

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Aqui fora me perguntaram se eu ia escrever alguma coisa sobre a iminência de ser pai. Eu disse que era uma experiência muito pessoal e que não sabia se conseguiria organizar isso em um texto, mas sua ˜demora˜ em chegar me deixa ansioso e escrever me faz um pouco mais tranquilo. Aliás, esse é um truque bom para os momentos em que você se sentir angustiado, triste ou entediado: escreva. Não engula seus sentimentos. Coloque-os para fora em uma boa conversa com amigos ou em palavras no papel. Além de te escrever, resolvi não fazer uma festa de aniversário para mim, já que você pode chegar a qualquer hora. Então mato o tempo pensando o que seria importante colocar numa carta para você ler quando for adulto.

Pensei em começar com um trechinho de canção que fiz em sua homenagem:

“O meu filho escute bem, o meu filho que ainda não brotou, brote bela flor, venha com amor. O meu filho escute bem, quando seu pai se for, não não for mais eu, souber que já morreu. Lembre-se das coisas importantes da vida:”

Dinheiro não é (muito) importante, o que importa são as pessoas, a arte e os pequenos prazeres: um café, uma cerveja, fazer amor, olhar o céu azul, dormir abraçado com quem se ama, ouvir uma canção que nos faça chorar, ajudar sem esperar nada em troca. (Isso vai te parecer óbvio, mas não é. A gente sempre espera alguma coisa dos outros. Se despreender disso é praticamente impossível, mas é libertador.) É importante, também, aprender alguma coisa nova a cada dia, não aceitar a miséria, não desrespeitar o próximo, não abaixar a cabeça. Amar o outro, mas amar a si mesmo. E entregar o mundo um pouco melhor do que se recebeu.

Meus principais professores foram meus pais, os livros e as canções. Os livros foram meus grandes amigos, me fizeram companhia na solidão da adolescência, me levaram para viajar de graça por países distantes e me prepararam para momentos difíceis da vida. Abrace seus livros como bons amigos, mas não deixe de ter amigos de carne e osso também. Bons amigos são raros, mas são o sal necessário para temperar a existência dura e solitária que nos espera. Não se assuste: o universo é um lugar lindo, basta calibrar seu olhar para o inusitado e evitar a cegueira da ignorância.

Meu filho, você ainda nem nasceu e eu já te coloco o peso insuportável dos conselhos nas costas. Conselhos que eu nunca consegui seguir a risca, pequenas utopias que me enchem de esperança no futuro — mas alguém disse que a a utopia é uma meta inalcançável que nos faz seguir em frente, gosto disso. Seus avós me ensinaram essas coisas e eu espero ter dado um passo a mais do que o passo a mais que eles deram guiados por seus próprios pais. E espero que você possa dar seus passos em frente para um lugar melhor do que o que estou hoje. Gosto de uma música que diz que nossos filhos vão aprender muito mais do que sabemos. Isso me dá esperança. Espero que você possa ser mais feliz do que eu, menos pior e mais bem resolvido. E que você possa passar esses valores (ou valores ainda melhores) para os meus netos. Espero, sinceramente, que o mundo seja um lugar melhor e mais seguro nos próximos anos. Isso vai depender de mim, de você e dos nossos descendentes.

Se tudo que eu te conto nesse encontro virtual não fizer mais sentido, quando você puder lê-lo, ouça o clichê mais sábio do mundo: ouça seu coração. É só o que temos ouvido de você até agora e é lindo.

E venha logo que estamos ansiosos para te conhecer!
***
Está é uma carta pro meu filho que ainda não nasceu, mas é um pequeno sonho meu. Meu filho, o que importa é o amor que me deram e hoje te dou.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia com 10 anos de experiência em gestão de projetos digitais na Editora Abril; foi criador do Glück Project — uma investigação sobre a felicidade e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”.

Glück Project

Um investigação sobre a felicidade

Fred Di Giacomo

Written by

Escritor. Jornalista multimídia. Autor do romance “Desamparo”. Co-criei os jogos Filosofighters e Science Kombat pra Super. 7livros e 1 filho.

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