Memórias e vivências — Dona Betinha

"A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para 'ninar os da casa grande' e sim para incomodá-los em seus sonos injustos" — Conceição Evaristo

Dona Betinha Foto: Marcus Vinicius Pereira

Por Dona Betinha, em depoimento a Marcus Vinicius Pereira

Nasci em Salvador, Rio Vermelho. Me lembro que minha mãe morava ali, e minha vó. Depois nós mudamos para lá perto das Sete Portas. Aí que nós viemos para o Segundo Arco. Primeiro morava perto da Federação. E daí eu vim para Jequié. A minha mãe arrumou emprego em Jequié e eu fui morar lá. Morei oito anos em Jequié. Fica entre Vitória da Conquista e Feira de Santana, por aqueles cantos. Você passa em Vitória da Conquista, conforme o ônibus já passa em Jequié, se ele for para Salvador. No meu tempo era assim. Lá eu me casei. Conheci meu esposo, a família dele. Minha mãe trabalhava no hospital. Aí eu casei, fiquei lá. Tive meu primeiro filho, ele faleceu lá. Meu marido veio para São Paulo e me trouxe. Aqui em São Paulo eu vim em 1957. Eu sou de 7 de julho de 1936. Tenho 80 anos.

Eu lembro de algumas coisas. Ia para escola, voltava e minha mãe tinha uma quitandinha. Uma casa coberta, pau a pique, que uma vizinha alugou. Atrás nós dormíamos. Dividia assim, com um balcão, uma parede. Nós dormíamos, era só um cômodo. A gente dormia num outro cômodo. Colchão de capim, fogão à lenha e carvão e uma quitanda na frente. Ela vendia as coisinhas dela. Cocada, pinga. Aquelas pingas de conserva, aquelas coisas. Assim que ela criava a gente. Que meu tio que arrumou para ela esse lugar para criar eu e minha irmã. Só que nós éramos irmãs por parte de mãe. Então vivemos ali vários anos.

Até que eu vim para o Segundo Arco. A minha mãe encontrou uma amiga de infância, que ela trabalhou nessa casa. Ela estava trabalhando em Jequié e a minha mãe arrumou emprego. Ela era como irmã. Gostava da minha mãe como irmã. Para não confundir com a minha mãe ela chamava de Cubibinha, porque o nome das duas era Francisca. Então, para não fazer confusão, ela falava “oh! Cubibinha”. Cubibinha para lá, Cubibinha para cá. E a minha mãe aprendeu a costurar com a madame que era madrinha dessa amiga. No fim essa moça casou, se formou. Veio para Jequié e arrumou esse emprego no hospital. Quando ela voltou, viu que minha mãe estava desempregada e trouxe minha mãe. Eu fiquei lá com a minha madrasta e meu pai, que a essa altura ele e minha mãe já tinham se separado. Fiquei uns dois anos, até ela arrumar um canto, tudo, para trazer nós. Minha irmã ficou com a madrasta dela. Quando ela arrumou tudo, ela trouxe nós para Jequié.

Em Jequié foi que eu conheci a família do meu marido. Conheci ele, depois de muitos anos já conheci a família toda. Conheci ele, que apareceu lá separado de uma companheira que ele tinha. Acabou me conhecendo e nós começamos a namorar por brincadeira. Brincadeira essa que eu acabei casando. Viemos para São Paulo e vivemos 52 anos casados. Ele faleceu e eu tive dez filhos com ele. Um morreu lá e nove eu tive aqui. Criei um também, adotivo.

Eu fui depois lá e achei muito diferente. Eu saía da cidade, da rua Santo Agostinho, antigo Bigode, e vinha para Sete Portas. Pegava o bonde, naquela época era bonde. Saltava na Baixa dos Sapateiros e subia. Eu estudei num colégio de freira. Fiz três anos, eu e minha irmã. Depois que eu saí da escola de freira, nós fomos para um colégio que tinha mais para cima. Mas nós continuamos indo por aquele caminho. Até que mudamos para o Segundo Arco, aí já nós íamos pela Federação.

Meu pai eu tive contato com ele só quando minha mãe veio para Jequié. Quem me criou foi minha mãe, a mim e a minha irmã. Muito simples, sempre boquinha humilde. Mas eu era feliz, eu me sentia feliz. Brincava, corria. Não é essa época de agora que as crianças não respeitam ninguém. A gente ia para a rua, brincava, pulava corda, corria de brincar de chicotinho queimado. Ia para a avenida à noite de lua, fazia roda. Até a mãe das meninas entravam. Brincava de fazer comidinha, de batizado de boneca. E os irmãos das minhas colegas tudo entrava, ninguém faltava com respeito. Porque naquela época tudo era certinho. Não é como agora, que as crianças não pensam a não ser computador, celular e namoradinhos, beijos. Não existia essas coisas. E ai de um que faltasse com respeito, porque tomava uma surra daquelas. Então todo mundo respeitava todo mundo.

Meu Natal nunca teve nada, porque minha mãe sempre dizia que, para o Papai Noel me dar presente, eu tinha de por o sapato na janela. A rua era uma avenida que passava carro e a janelinha assim, passava todo mundo. Se eu botasse o sapato na janela, no outro dia eu estava sem. Já não tinha e ainda botava um que Papai Noel não dava? Aí eu ficava sem presente. Vim conhecer essas coisas depois de grande. Algumas casas daquelas pessoas mais grã-finas e ricas chamavam a gente para ver a árvore de Natal. Tinha aqueles brinquedinhos que elas pinduravam. Carrinho, boneca. Me lembro que eu ganhei uma bonequinha de plástico. Muito bonitinha, que eu ganhei lá na casa. Mas isso era muito no fim, quando terminava o Natal e o Ano Novo que eles iam desmanchar a árvore, aí chamava a gente. Porque conhecia minha mãe e eu brincava por ali. Mas nós sempre fomos pobrezinhas. Hoje em dia o que eu tenho, eu me sinto rica, milionária.

Ia na praia da Ondina. Ia na praia do Rio Vermelho, que minha mãe me levava para nadar e eu nunca gostei muito. Até hoje eu não sou muito chegada a praia não. Não sei se foi porque minha mãe forçava a gente. Não sou muito chegada, mas conheço. Praia da Amaralina, ela levou nós na casa de um amigo que ela conheceu. Nós fomos, almoçamos lá e ela levou na praia. Conheci a praia de Amaralina. Mas mais a gente ia na Ondina, ali pelo Segundo Arco ia a pé.

Bonfim, nós íamos na Festa do Bonfim. Na Ribeira fui com meu tio. Na Lavagem do Bonfim eu fui, eu conheço. Mas naquele tempo, criança não dava muita bola. Depois que eu cresci mesmo e entendi, acho que fui só uma vez, com minha irmã, na Lavagem do Bonfim. Passei seis anos aqui em São Paulo, depois foi que eu comecei a ir lá de dois em dois anos. Mas nós íamos para Jequié. De Jequié ia um pouquinho para Feira de Santana. De Feira de Santana ia a Salvador, no Mercado Modelo. Na Liberdade, na casa do meu tio. Na minha irmã, esqueci onde ela morava. Eu ficava por ali, saía com ela ou com meu marido. Mas achei muito diferente Salvador para o que eu deixei quando saí de lá.

Pelourinho fomos lá e tiramos foto com minha neta, que ela está com 28 ou 29 anos. Eu não ia no Pelourinho direto, porque sozinho a gente não ia, a minha mãe pouco saia. Eu ia na Festa da Cabocla, no Dois de Julho. Quando era o Carnaval, ela levava a gente, fantasiava. Levava para frente do quartel dos bombeiros. Ficava naquela esquina vendo os blocos passar. Eu conheci o Bloco dos Marinheiros. Os Filhos de Gandhi eu conheci logo desde pequena. E o grupo dos bombeiros, que era Filho do Fogo e Filho do Mar. Os cordões que tinham eram esses. E aqueles carnavais que tinham os carros alegóricos, que passava aquela gente importante pelo Campo Grande. O pessoal botava as cadeiras e sentava, não tinha a bagunça que tem agora. Agora a bagunça é completamente diferente. Cheguei a conhecer o primeiro trio elétrico. Depois foi aparecendo mais. Caí em Jequié, pouco via, ouvia falar.

Cheguei em São Paulo, conheci televisão. Morei na Moóca, morei três anos. Foi quando meu marido comprou um terreno. A dona da casa pediu a casa. Nós procuramos casa para alugar, mas com criança ninguém queria. Nessa época eu já tinha dois filhos, um casal, e esse que eu criava. Fui para Barueri, onde morava meu cunhado, passei um mês lá ou dois meses. Aí meu marido construiu um barraco de madeira e eu vim morar na minha casa, que é justo onde estou até hoje. Não é grande coisa, mas… Ele fez o barraquinho, depois foi suspendendo uma parede hoje, outra amanhã. O menino que eu criava a minha mãe trouxe para morar comigo já quando eu ainda morava na Moóca. Ele estava comigo e morreu com dez anos, de leucemia.

Estou vivendo aí desde 1960, perto da padaria Monte Azul. Não tinha nada, era mato. Onde eu morava mesmo tinha poucas casas. Tinha chácara, não tinha o terminal, não tinha o hospital Campo Limpo. Escola só tinha do Luiz Gonzaga, lá embaixo, uma que esqueci o nome e o Zulmira. Colégio Zulmira também que era um barraco e agora é um colégio. Depois fizeram o Alberto Braga, aí foram fazendo mais colégios, mais casas.

Eu era dona de casa e costurava, mas não profissional. Costurava por minha conta, porque eu aprendi lá. Trouxe o diploma, mas não valia nada aqui. Tinha uma escola, minha mãe pôs. Então eu aprendi a cortar e costurar. Chegando aqui eu quis me aperfeiçoar. Aí eu levava, diziam “filha, isso aqui não tem valor, se a senhora sabe costurar então tudo bem”. Mas o diploma não valia nada. Joguei para lá, nem sei mais onde anda. Depois eu conheci, aqui no Renato Braga, uma professora que estava dando curso de graça. Tive vontade de conhecer um corte diferente. Fui, aprendi, comprei a pasta e hoje em dia eu corto e costuro, mas não quero mais saber de costura não. Abandonei. Mas se precisar um conserto, uma costura para reformar, eu reformo de graça para os colegas.

Eu costurava para fora e pegava de firma. Naquela época tinha roupa cortada. A gente trazia, fazia para levar. Pegava na segunda e levava na sexta feira. Tudo pronto já, costurado, para receber no fim do mês uma mixaria que ajudava meu marido. Ele não queria que eu trabalhasse fora. Não tinha creche para por criança como tem agora. CEU, Casa Branca, creche. A única creche que tinha era lá em Santo Amaro. Cuidava dos meus filhos eu mesma. Costurava e cuidava deles. Fazia tudo, puxava água do poço, porque não tinha água encanada. Puxava do vizinho, depois eu cavei meu poço. A primeira casa que nós levantamos, no fundo era água de poço. Só que meu marido fez que nem lá na Bahia, que a casa é feita de barro. Começou a entortar e também estava na divisa. No que ele fez, pegou um pedacinho do terreno do vizinho. Quando veio medir, deu pouquinha coisa. Como a casa já estava torta, fomos derrubando.

Meu cunhado veio com minha irmã, eram dois irmãos casados com duas irmãs. Chegou aí, ele construiu na frente. Quando ele foi embora, nós começamos a puxar na frente, porque já estava o dele na divisa. Fomos construindo e derrubando, pegando alguns tijolos que dava para aproveitar. Fizemos a casa. Devagar, fomos aumentando. Começamos com dois cômodos. Depois fizemos cozinha, banheiro, a sala. Agora já puxamos um quarto para mim, um quarto do filho, e um cômodo do fundo, que foi o primeiro que nós fizemos para morar. Ainda está lá até hoje: quarto, cozinha e banheiro.

Meu marido saía com as crianças para passear. Eu ia mais para a casa do meu cunhado. Ele mudou para Carapicuíba. Eu ia com as crianças quando tinha feriado prolongado. Catava eles, meu marido me levava até a estação da Luz, me punha no trem ou, se não, me levava até a estação de Carapicuíba. Lá eu ia a pé com as crianças até a casa deles. Às vezes ele levava a gente para ver a decoração da rua Direita, comprar presente para as crianças. Foi melhorando devagar.

Cinema acho que fui só uma vez ou duas. Aí ele comprou uma TV. Me lembro que era sei-que-lá Toshiba. Mas era branco e preta. Não tinha aquele jornal Primeira Hora, que tinha anúncio? Ele comprou assim. Aí levou, nossa casa enchia de gente para assistir. A primeira TV ali naquele pedaço. Os filhos dos amigos dele enchiam a casa de tarde para ver Ted Boy Marino, ver Jovem Guarda quando começou. Enchia a casa e ficava lá a tarde toda aquelas crianças. Uns já morreram. Os pais já morreram. Outros ainda têm vivo. Ele comprou aquela tela que tinha aquelas tiras. Colocou depois um transformador para pegar melhor. Foi indo até que foi mudando. A TV a cores…

Teve o Irmãos Coragem, mas eu não assisti todo. O que eu assisti mesmo foi a Escrava Isaura. Aquele filme Kunta Kinte também marcou muito. Não lembro muito agora, mas eu não pegava muito novela. Eu pegava mais aquele Balança Mas Não Cai, programa humorístico. Luta livre, que eu gostava porque o pessoal acompanhava, e a Jovem Guarda. Novela era muito difícil pegar assim porque eles não gostavam. As crianças queriam ver coisa de humor. A Praça é Nossa, que era ainda do tempo do Manuel de Nóbrega, depois eles iam dormir. Eu também deitava porque tinha aquele horário xis de desligar a televisão para eles dormirem, no outro dia tinha escola.

Meu marido chegava do serviço e brigava, eles só ficavam na rua até tarde de final de semana. Fim de semana eles zoavam. Mas durante a semana ele chegava, jantava e ia dormir. Conheci a família toda, menos ele. Ele morava em Salvador, depois Rio de Janeiro. Quando ele se separou dessa companheira dele, que ela mandou ele embora, ele foi parar lá na casa da mãe dele. Eu ajudava, porque ela era professora leiga. Já ouviu falar em professora leiga? Aquelas que sabem ensinar, mas não têm diploma. Aquelas crianças que não tinham lugar para a mãe deixar e precisavam de reforço, a tarde vinham para ela. Antigamente as crianças começavam descobrindo as letras. Eu ajudava ela a fazer isso. Toda tarde eu subia para ajudar ela. Eu já conhecia a família dele toda e fui apresentada a ele, mas por acaso. Chegou do Rio, filho dela, e aí começou a querer namorar comigo. Eu era nova, tinha acho que 17 anos. Ele era oito anos mais velho do que eu. Cinco anos faz dia 26 de agosto [que o marido faleceu].

Moro com meus filhos. Morava com a minha filha, ela mudou agora. Teve nenê e mudou para o apartamento dela. Eu estou com dois filhos, o mais velho e um do meio, e um cachorro, Charlie. Ele é labrador. É misturado, mas é manso. Labrador com outra raça, pretão bonito, meu bebê. Venho a semana toda, só que agora eu estou indo quarta-feira lá para a Fundação Julita. Então eu venho segunda e terça, quarta eu vou no Julita, quinta e sexta eu venho para aqui. Sábado eu trabalho em uma mesa espírita, trabalho na cantina. Domingo eu vou para o bingo da irmã Natalina, lá no Jardim Ibirapuera. Eu fiz o curso de evangelização. Trabalho nessa seara de luz na segunda. Estou fazendo reciclagem na quarta, curso de médium. É a terceira vez que eu faço. Na quinta-feira tem uma oração que nós fazemos para os encarnados e desencarnados. As pessoas que estão doentes. Nós fazemos das sete às sete e quarenta, dez para as oito.

Eu ia, ainda vou na Católica. Batizei meus filhos todos. Aquelas igrejas quase todas eu conheci. Só que não entrava. A primeira comunhão nós fizemos por ali. Mas não frequentava porque nós tínhamos que ir de condução, de bonde. Era difícil para a gente. Mas via aquelas igrejas todas. Mas não tenho recordação grande porque não era de ficar muito. Naquele tempo se exigia muito na igreja. Meia, véu na cabeça. Não podia ter não-sei-que-lá. Tanta burocracia que eu me afastei. Para confessar tinha que comungar. Por que eu tinha de comungar para o padre? Eu ia na missa, mas meio reservada. Quando eu cheguei aqui em São Paulo foi que eu passei mesmo a frequentar. Frequentei muito o Padre Edmundo. Ia na missa todo domingo. Aquela igreja era bem pobrinha, simples, pequena. Todo domingo eu ia lá. Seis horas, seis e meia.

Pagode, samba e algumas músicas sertanejas. Música é minha alegria. Já amanheço o dia, rádio ligado. Só que agora eu só pego a Rádio Tropical, por causa do Fábio Teruel. Assisto a oração e depois fico escutando as músicas. Não mudo para não perder o lugar. Nossa, sou apaixonada pelo samba, pela dança. Agora dançar eu aprendi aqui no grupo. Vinha uma professora e ensinava nós a dançar. Eu não sabia ainda dançar a dois. Me atrapalhava porque eu ficava olhando para o pé. Ela ensinou a gente, eu aprendi um pouquinho. Agora já danço. Arrasto forró, arrasto samba, sambo sozinha no pé. Essas coisas eu faço. Nós tivemos uma escola de samba aqui do nosso grupo. Saíram os idosos. Nós saímos por uns quatro ou cinco anos. Esse ano que nós não saímos. Não foi falta de dinheiro. Morreu uma delas, aí desistimos. Como é o nome? Império do Morro. Fomos lá para a estação da Luz, tudo vestida de baiana, para representar.

Olha, um pouquinho de tudo. Uma feijoada, um arroz e feijão, essas coisas simples. Mas na Semana Santa eu faço caruru, faço vatapá, faço moqueca de peixe, peixe assado. Tudo o que minha mãe fazia. Na Semana Santa meus filhos vão para lá e comem. Eles gostam. Tive dez, morreram três. Morreu um lá em Salvador, meu primeiro. Aí eu vim para cá. Morreu o que eu criava, com dez anos. E morreu um com 17 anos, afogado, lá na Jureia. Aí os outros estão tudo aí. Têm três homens e cinco mulheres. Uma tá morando no interior, me foge o nome do lugar. Os outros estão tudo aqui, graças a Deus. Tenho cinco netas, um neto e um bisneto. Nunca a gente tem a felicidade completa, mas eu me sinto uma mulher realizada. Me sinto feliz, estou contente. Problemas todo o mundo tem. Mas eu, com meus 80 anos, estou feliz.