Michele, mulher negra
Por Juliana Serzedello Crespim Lopes
Antes da grande final do Masterchef 2017, exibida ontem, 22, na TV aberta, vários competidores declararam sua torcida pela finalista que seria derrotada, Deborah Werneck. Loira, assessora de investimentos, vinha conquistando, junto com o catarinense Valter Herzmann, o maior número de vitórias nas provas do programa. Contudo, a grande vencedora foi Michele Crispim – descrita como passista de escola de samba nos primeiros episódios da temporada – para espanto dos adversários eliminados, presentes no programa final.

Deb, como era carinhosamente chamada por seus colegas de competição, tinha uma postura bem semelhante àquela adotada por quem trabalha no mercado financeiro. Focada e determinada em vencer cada etapa, demonstrava suas habilidades com clareza e desenvoltura, sem muita solidariedade com os demais participantes, mesmo nas provas em grupo.
Michele desconhecia alguns pratos e surpreendeu seus adversários quando pediu ajuda para passar um café. Argumentou que não tomava café por motivos religiosos e foi ridicularizada nas redes sociais pela competidora eliminada naquela prova. Para a derrotada, era absurdo perder para uma pessoa que não sabe nem fazer um café.
Por várias vezes flagrada pelas câmeras rindo ou debochando das dificuldades e erros dos colegas, Deborah tinha um vasto repertório gastronômico, adquirido em viagens pelo mundo afora. Nomes complicados em francês não a assustavam, nem ingredientes pouco comuns nas cozinhas brasileiras. Tudo já vira, já experimentara, já era. Só podia ser a vencedora.
Observando atenta e silenciosamente, Michele não fazia alarde de sua presença e venceu menos provas individuais que a imbatível concorrente. Ao iniciar e concluir as provas, orava discretamente de olhos fechados. Chegou à final derrotando o macho fortão que dava soco na mesa. Ao ser eliminado, Valter disse que não acreditava na vitória de Michele, subestimando as qualidades de quem acabara de lhe tirar do jogo.
A única vez em que Deborah pareceu se desequilibrar foi quando teve de cozinhar em uma cozinha profissional, sob o comando de um chef de verdade. Nesse dia, demonstrou que nasceu e foi treinada para ocupar postos de comando, e não para obedecer.
O subtexto, o jamais dito, o proibidão, era mais claro que os loiros cabelos de Deborah: todo mundo achava que Michele era uma sortuda, que chegara à final por azar dos demais e não pela própria habilidade e competência.
Michele era só uma passista de escola de samba que nem sabia fazer café.
Michele nunca tinha visto os pratos chiques que tinha que cozinhar.
Michele chegou na final porque os demais estavam tendo dias ruins.
Michele foi elogiada pelos chefs no dia em que foram cozinhar em uma cozinha profissional, por manter a concentração e executar o que foi pedido.
Assim como Deb foi nascida e criada para mandar, Michele parece que nunca fez outra coisa senão obedecer.
Chegando à final, Michele já tinha ido longe demais. Restava a ela a honra do segundo lugar e seguir em frente, quem sabe num food truck.
Assim foi até o anúncio da grande campeã.
Michele, catarinense, 28 anos. Campeã, para surpresa geral dos concorrentes. O horror estampado nos olhos de quem nasceu e se criou para vencer.
Michele, mulher negra. Mostrando que o seu lugar é onde ela quiser.

