Como Aquele Textão “Ativista” Está Acabando Com o Seu Psicológico

Olá, tudo bem com você?

Acho que depois de um título desses você merece um começo mais suave, certo? Eu nem me apresentei ainda. Se você caiu aqui de paraquedas, por acaso, viu na amiga da amiga, muito prazer. Meu nome é Bianca, eu tenho 22 anos e peso 135 kg. Por que meu peso importa aqui? Bom, porque eu sou uma ativista gorda.

  • Insira aqui os sons de onomatopéia de “Oooooooh!”. Por que? Porque o texto é meu e eu quero que tenha onomatopéias.

O que significa ser uma ativista? Bom, me deixa pegar a definição do dicionário aqui:

Significado de Ativista

adj.Que se pode referir ao ativismo.Diz-se da pessoa que é partidária do ativismo; que exerce a militância por uma causa, partido político etc.s.m. e s.f.Pessoa que trabalha de modo ativo por uma causa; quem atua e trabalha por uma ideologia política e/ou social; militante.

A gente pode excluir essa parte do “partido político” e vamos colocar a minha causa: pessoas gordas. Se você nunca ouviu falar sobre ativismo gordo, sugiro a você procurar a página “Gordativismo” no facebook ou aqui no medium, e boa sorte.

Caso você saiba, vamos em frente.

Sou ativista gorda e milito na CAUSA gorda. Pra mim ser gorda é uma realidade e particularmente uma qualidade que gosto muito em mim. A partir do momento que eu assumi meu corpo, quem eu sou e o que eu sinto sobre ele, minha vida melhorou 100%. Quando eu me permiti admitir que eu amo meu corpo e que ele é PERFEITO, sim, perfeito, eu pude entender que o problema maior que eu encarava era social. Percebi que o corpo gordo é oprimido socialmente baseado em uma, e apenas uma coisa: A patologização.

Eu deveria fazer um texto explicando o porquê de eu acreditar (com argumentos, muitos argumentos) que a patologização é o único pilar da opressão gorda, mas isso vai ficar para outro texto. Hoje eu gostaria de falar apenas sobre uma coisa: O campo pessoal.

Antes disso, preciso contextualizar: No Brasil, o ativismo gordo ainda é EXTREMAMENTE iniciante. A discussão é recente, o aprofundamento mais recente ainda, então é compreensível que ainda não se discutam diretamente diversos tópicos e tudo seja uma coisa meio “confusa”.

Basicamente, o que aconteceu foi: várias pessoas gordas se juntaram em grupos, supostamente para discutir gordofobia. Mas, talvez pelo conforto e o prazer de estar muitas vezes pela primeira vez entre seus “iguais”, pessoas que muito provavelmente tiveram vivências muito parecidas com as suas próprias, a coisa toda virou um lugar de desabafos. E tantos desabafos, muitos deles extremamente desiludidos — e uma quantidade BEM grande de pessoas com problemas na autoestima causados pelos tratamentos ruins que tiveram durante suas vidas, surtiram um efeito, que eu considero extremamente negativo para o ativismo e aqui vou chamar de a personalização da causa.

[Antes de prosseguir, deixe-me tirar o manto do julgamento: Desabafar é normal, é ótimo e acredito DE VERDADE que grupos de desabafos devem existir. Ok? Não tem problema em se encontrar entre pessoas que podem ter passado coisas parecidas. Isso é ótimo! Mas vou ter que prosseguir agora].

Personalização da causa nada mais é do que você considerar VIVÊNCIAS PESSOAIS uma pauta ativista.

Me deixa ser mais explícita sobre meu ponto de vista: Gordofobia (a gordofobia em si, baseada na patologização) é PAUTA POLÍTICA. Porque envolve o aparato público, porque envolve problemas de acesso em lugares que deveriam ser para todos; e principalmente porque a base da opressão é algo que TODAS as pessoas gordas sofrem. Isso mesmo, TODAS.

Devem ser feitos os devidos recortes? Sem dúvidas. Mas o fato é que TODA pessoa gorda, homem ou mulher, branca ou negra, rica ou pobre, vai ser patologizada. Nem todo o dinheiro e poder do mundo vai tirar o fato de que se você for gordo, você está CATEGORIZADO COMO DOENTE pela OMS. E não interessa se você tem ou não alguma doença, você será considerado doente.

Veja bem, não estou dizendo que um homem branco gordo vai passar pela mesma coisa do que uma mulher negra e gorda. Jamais. A mulher negra sofrerá, além da gordofobia, racismo, pressão estética, misoginia etc., etc. Mas quando se fala de OPRESSÃO GORDA, o problema é igual para todos nós.

Bianca, por que você está me dizendo isso?

Por que existe uma GRANDE confusão num geral quando se coloca a pauta “quem sofre gordofobia?” E vou citar alguns exemplos para você ver que não tem como colocar como político algo que não é para todos:

Sofre gordofobia por ser rejeitado por uma característica física? Não, muitas outras características físicas também podem ser rejeitadas E não é uma regra que o gordo deve ser o rejeitado.

Sofre gordofobia por levar foras? Por favor, NÃO.

Sofre gordofobia só quando é humilhado e chamado de “gordo”? Não, (pasmem!) até isso não é exclusividade gorda. Um exemplo: muitas modelos (sim, modelos tamanho 36, 38) são chamadas de “gorda” e perdem empregos por causa disso via agências e bookers.

Tá, então o que dá pra dizer que é gordofobia?

TCHARAM! A patologização. Toda pessoa gorda será patologizada.

E a patologização serve de base para diversas coisas: Falta de representatividade (a grande mídia não quer se afiliar com uma “doença”, certo? Somente para curá-la, obesidade o mal do século etc.), negligência médica (“sim, seus doentes, emagreçam ou morram!”), falta de acessibilidade (o gordo que está errado e deve se curar, não a gente fazer bancos para ele sentar). Tudo isso é aliado à patologização.

Se a patologização não for combatida, nada disso mudará. Parece radical falar OBESIDADE É O NOME DE UMA DOENÇA CUJO ÚNICO SINTOMA É SER GORDO, mas é o que acontece, de verdade.

Ok, Bianca, e o que isso tem a ver com o seu tema, textos ativistas?

Seguinte: Existe essa grande confusão sobre o que é a gordofobia. O ativismo surgiu dentro de muitos grupos onde a VIVÊNCIA era o que importava para se discutir algo POLÍTICO.

E então surgem textos em todo o lugar. No facebook, no tumblr, vídeos no youtube, imagens — e a maioria esmagadora delas coloca a “vivência gorda” como algo mais ou menos assim: “você é rejeitado a vida inteira, preterido, humilhado. VIVER É UM ATO DE RESISTÊNCIA TODOS OS DIAS.”

E vocês vão me desculpar, mas eu sou obrigada a discordar de tudo isso.

Antes de argumentar, deixe-me colocar: Sim, acho super importante as vivências serem discutidas e desabafadas. Acho importante o desabafo, essa empatia. Bullying e maus tratos familiares DEVEM ser discutidos, com certeza — e os traumas disso tratados nos devidos profissionais.

Mas quando você coloca isso como um ATO POLÍTICO, generalizando todas as vivências gordas em uma “vida de resistência”, você está impedindo (ou talvez nem você esteja vendo) que alguém veja O OUTRO LADO.

O que é o outro lado, Bianca? Eu já estou cansada de ler esse texto!

Negócio é seguinte: Mesmo o mundo tendo muita gente horrível que odeia gordo, o mundo é um lugar MUITO grande. Existe a possibilidade de se viver gorda, feliz, bem amada (por você mesma e pelos outros, se você quiser que outros te amem), bem sucedida, enfim, FELIZ. E quando você percebe que pode ser feliz, a RESISTÊNCIA acaba — você não está todo dia resistindo consigo mesma, você não está todo dia com altos e baixos sobre sua autoestima.

“Bianca, você está pegando sua própria vivência e falando como se fosse fácil”

Não. NÃO é fácil, não é um processo fácil porque ele envolve encarar, acima de tudo, você mesma. Não é um processo fácil porque envolve muita busca, alguns rompimentos, e cara, pensando sinceramente, nem só pessoas gordas poderiam usar isso. Todo mundo poderia. Eu pretendo inclusive passar esses macetes para as pessoas — mas sei que muita gente simplesmente os rejeita, porque se coloca na posição de “a minha vida é assim e fim.”

Não pense que eu vivi uma vida completa e plena desde sempre, sem círculos tóxicos, não pense que foi fácil pra mim. Lembre-se que você NÃO conhece a minha vivência e nem vai conhecer — porque pra mim vivência não é pauta política e eu particularmente defino meu ativismo como política E positividade. Quero lutar politicamente pelo fim da patologização e quero mostrar que é possível sair do mundo tóxico para habitar um bem melhor.

E sinceramente, quando eu vejo textos supostamente ATIVISTAS, se dizendo ATIVISTAS e falando pura e simplesmente de sofrimento, eu não consigo acreditar que isso seja ATIVAMENTE útil para alguém. Ok, alguém vai se identificar com o desabafo sofrido — mas e aí? Essa pessoa vai pensar que a vida do gordo só pode ser ruim? Só pode ser negativa? Que viver em resistência é uma sina?

RESISTIR é político — e para o ativismo gordo pode ser considerado como “lutar contra a patologização”. Resistir no campo pessoal é um processo muito sofrido. Tanto que vemos muitas vezes pessoas nesse “processo de resistência pessoal” sucumbirem a métodos muitas vezes agressivos para emagrecerem. Não vamos deturpar o sentido de resistir e estimular o sofrimento alheio.

Vamos lutar contra a patologização!

Vamos compartilhar dicas para a qualidade de vida melhorar, para a autoestima se construir, para fortalecermos nosso grupo!

E vamos deixar um desabafo ser um desabafo, não ativismo.