Gordos na Mídia: Por Que Ainda Está Tudo Errado?

Olá. Talvez você me conheça, talvez não. Talvez você já esteja de saco cheio das apresentações, mas eu prefiro assumir que é uma pessoa que nunca leu nada meu do que simplesmente pular essa parte. Eu sou a Bianca, tenho 22 anos, 135 kg e sou uma ativista gorda.

Recentemente eu fiz alguns trabalhos publicitários para uma grande empresa de cosméticos — a Avon. Eu fui chamada para fazer 2 campanhas diferentes, uma que saiu em várias redes sociais, de Black Friday, e outra que eu não posso falar sobre porque ainda não saiu.

E com essa certa “exposição” na GRANDE mídia, juntamente com outras campanhas que tem acontecido recentemente (em marcas como a TNT, de energéticos, na Playboy e até mesmo na SPFW), eu observo essa tendência de comemoração e glorificação e até mesmo comentários sobre “o fim da gordofobia”; Isso me preocupava, mas eu não sabia direito o porquê.

Até que eu li esse texto GENIAL do Marco (obrigada Universo pelos bons amigos inteligentes que tenho) e tudo ficou mais concreto na minha mente.

[Devo avisar que para entender o resto do que eu vou dizer você DEVE ler o texto do Marco. Clica no link aqui se já não tiver clicado ali em cima. Por favor. Leia. Vai fazer bem pra você, juro.]

E aí eu entendi que o que me incomodava era exatamente isso, e mais alguns outros desdobramentos que acontecem quando você é gorda e participa de uma campanha dessas. Vou fazer uma listinha:

1. O efeito que surte é diferente do esperado

Quando o assunto é representatividade, a ideia toda é NORMALIZAR a figura da pessoa gorda na mídia. A ideia é mostrar que pessoas gordas também fazem os seus trabalhos e são reconhecidas por tal — e que também podem fazer parte de campanhas publicitárias.

Mas o que acontece é exatamente o contrário. Como o Marco colocou (e eu posso falar como é no campo PESSOAL, porque eu estava lá e passei por isso), as pessoas te encaram com A exceção. A salvadora da pátria. A gorda que é capaz, A vencedora.

Eu culpo em parte as campanhas por isso. Porque todas as campanhas da grande mídia, como são introdutórias e estão chamando pessoas gordas pela primeira vez, fazem todo um escarcéu em cima do fato da pessoa ser gorda. Vamos lembrar aqui que representatividade vende hoje em dia, e o que era pra ser obrigação vira objeto de lucro.

Não estou criticando as empresas em si (não vou mentir, eu ADOREI o trabalho que fiz pra Avon, toda a ideia da campanha é muito legal, de verdade — lembrando que a Avon e todas as outras empresas já lucravam milhões antes da representatividade toda, então EM PARTES também tá rolando uma pequena mudança), mas acho que não pode e NÃO deve parar por aí.

Foto pra campanha da Avon #DonaDessaBeleza e talz

As pessoas gordas vão continuar existindo depois dessas campanhas acabarem, e para realmente rolar a tal representatividade, deve ser normal ter pessoas gordas na mídia, tanto quanto as magras. E sem esse frenesi todo de primeira campanha, porque isso ajuda ainda mais a tornar quem fez essas campanhas “heroínas”.

E se você acha que ser “heroína” é legal, espere até o ponto 2, que é

2. Nosso trabalho acaba sendo desvalorizado

Agora vai parecer loucura né?

“COMO ASSIM DESVALORIZADO, BIANCA?? VOCÊ TÁ NA GRANDE MÍDIA! VOCÊ ATINGIU O OLIMPO! VOCÊ FOI ESCOLHIDA!!!!!”

É exatamente por causa dessa ideia de “heroína escolhida” que nosso trampo é desvalorizado.

Muita gente veio me perguntar como eu consegui. Como elas fariam pra ser indicadas também, e cara, eu não culpo essas pessoas. Porque essa ideia de “ser escolhida” também remete a “sorte”. Todo o trabalho que eu fiz, todo o trampo que eu tive escrevendo, falando, tretando na internet, errando e acertando (ou vocês acham que eu só acertei nessa minha vida?), por quase 2 anos vira NADA.

Vou agora contar um #segredinhobastidores para vocês: Eu fui chamada para essa campanha por EXPOR AS MINHAS IDEIAS. Por falar, por trabalhar, por tentar fazer a minha parte pra ter um mundo um pouco mais digno para as pessoas gordas. Você também pode? SIM! Mas não vai bater na sua porta se você não trabalhar por isso.

Isso pode ser problematizado? Sim, mas é exatamente igual para as pessoas magras. Nem toda pessoa magra vai fazer campanha publicitária, ué.

Muitas vezes a pessoa nem mesmo REALMENTE QUER fazer uma campanha. Só acha legal aparecer numa página famosa, nem pensa que é um dia super estafante de trabalho, de filmagem, fotografia e tal. Só acha bonito.

Se é o seu sonho ser modelo/garota propaganda/qualquer outra coisa, EU SUPER TE APOIO A SEGUIR ISSO. Mas faça os passos profissionais, de verdade, procure um curso confiável, tire sua DRT, você é capaz de passar por todas essas barreiras, tem o meu apoio. Mas isso exige toda a coragem pra encarar esse meio gordofóbico e lutar contra e SIM, infelizmente tem muita coisa ruim envolvida nisso.

Mas se você não quer isso pra você, só acha que é uma “facilidade dos escolhidos” e pior ainda, se sente mal por não ter sido escolhida, REPENSE no trabalho que essas pessoas que estão na mídia tiveram, para além da campanha que fizeram, em tudo o que organizaram. Valorize o trabalho dessa pessoa.

“Nossa, Bianca, como você tem sorte!”

Então a dica que fica é: POR FAVOR, uma gorda na mídia não é heroico, não é “benção”, é APENAS uma coisa que já deveria estar acontecendo há tempos e agora finalmente tá COMEÇANDO a rolar.

Valorize, problematize, só não esqueça em nenhuma das duas hipóteses que são seres humanos numa sociedade capitalista ganhando dinheiro para sobreviver, assim como todo mundo.