Negra gorda — uma outra margem da sociedade
Falar sobre o recorte de ser negra e gorda é algo tão desafiador que constantemente me peguei pensando se realmente deveria escrever sobre isso.

Somos tão silenciadas por sermos negras gordas, que eu mesma me compeli ao silencio e pensei “Besteira falar disso, não faz diferença”.
Desde o início de tudo, o papel social do gênero mulher é ser um bibelô da sociedade. Ser o enfeite, a coisinha mais lindinha que você pode ter na sua sala, casa, escritório, seu álbum de fotos, desde que você se encaixe nos padrões.
Ok, eu entendi, ser bonita não é pra mim, sou negra gorda. Este não é meu papel na sociedade.
Existem outros papeis na sociedade, certo? Temos o papel de trabalhar, estudar, contribuir para a sociedade como um todo e de modo geral.
Então eu posso ser inteligente, estudar, ter diploma, fazer pós graduação, ser reconhecida na minha função, ter um título renomado — poderia se não fosse negra. Mesmo que eu estude — e estou, tá mãe? — não é esperado de uma negra um vasto conhecimento em física, química ou até mesmo, num cursinho de RH, como já ouvi. Não é esperado da população negra o destaque intelectual. Negro é vagabundo, só pensa nos três F’s: foder, funk e filho.
Então esse papel na sociedade também não é meu.
Ainda posso trabalhar, contribuir para a sociedade com meu esforço físico, minha mão de obra, suor proletário, PIB, investimentos. Eu também poderia, mas sou gorda e gordos são preguiçosos, relaxados, não fazem um bom trabalho.
Esse papel também não é meu.
Então qual é o meu papel? Onde eu entro? Onde eu e outras milhares de negras gordas nos encaixamos nessa sociedade?
O papel social esperado da mulher negra gorda, eu aprendi com 11 anos.

Nessa época, durante toda minha quinta série do fundamental, eu sofri assédio sexual e moral, por vezes chegando a violência física. Foi em um momento desses, com socos na barriga, que eu perguntei aos meus agressores: por que fazem isso comigo? Por que eu? Eu nem sou bonita pra vocês quererem fazer isso comigo.
Foi nesse momento que eles finalmente falaram e eu entendi o meu destino na sociedade.
Porque você é neguinha, a gente faz isso com neguinha. Se você fosse bonita, não deixava a gente nem chegar perto, não daria pra te agarrar escondido, iam sentir sua falta na sala, viriam te procurar, sendo gorda fica mais fácil.
Tentei contar isso pra minha mãe, eu tentei, mas nossa relação nessa época já não era muito boa, então ela não acreditava em mim e por muitas vezes dizia que era bem feito pra mim, por comer demais ou por não andar com as outras meninas bonitas da minha turma, as brancas.
Eu nunca fui igual as outras negras, assim como também nunca fui igual as outras gordas.
Quando estou em algum grupo de amigas gordas, a maioria presente é branca, principalmente se for de coletivo ou militância, pois infelizmente esse ambiente ainda é majoritariamente vivido por brancas.
Nessa roda de gordas, os assuntos são vários, mas há assuntos que eu não me sinto contemplada.
Quero dizer, não me sinto representada.
As fotos de mulheres gordas se amando, são de mulheres gordas e brancas. As atrizes gordas referencia da maioria, são as gordas brancas. As cantoras, gordas brancas. As modelos plus size, brancas.
Quando estou com minhas amigas negras, sinto muita representatividade, de todos os lados, mas os comentários vindos das minhas amigas negras magras me enojam.
Elas não se preocupam se eu, como gorda, ficarei chateada ao ouvir elas chamarem uma mulher igualmente gorda, mas branca, de baleia. “Você é gorda, mas é negra, não é pra você mana” elas dizem.
Como uma negra gorda, minha auto estima é duplamente bombardeada.
É esperado que como gorda, eu me ame cada vez mais, pois é o lema do momento: Ame-se hoje, ame-se amanhã, ame sua curvas, suas dobras, ame sua vagina gorda, ame sua bunda grande.
Porém como negra, é difícil de aceitar minhas curvas, minhas dobras, minha bunda grande, minha vagina gorda. É difícil aceitar minha anatomia porque ela é negra também e por ser negra, eu sou constantemente hiperssexualizada justamente por ter essas características.
Quando se fala em solidão da mulher negra, eu me sinto muito contemplada pela pauta, mas tão contemplada que eu começo a me destoar demais no assunto, justamente por ficar sozinha duas vezes, por ser negra e por ser gorda.
Nos ensinam a deixar nosso cabelo natural, o cabelo afro lindo, como uma coroa, pra cima, bem alto e redondo, tão redondo que não combina com sua cara de bolacha — é o que uma conhecida negra gorda ouviu na rua, lhe disseram que para usar seu afro, era melhor que fosse magra.

Negra. Gorda. Mulher — foi nessa ordem que eu vim ao mundo.
A sociedade me vê primeiro como negra, mesmo eu sendo negra de pele clara, mas o sistema, a sociedade é racista no seu mais íntimo.
Depois eles me veem gorda, porque a sociedade também é gordofóbica e tem se tornado cada vez mais gordofóbica com o passar dos anos.
Depois me veem como mulher, o indivíduo mulher, não o gênero mulher. O indivíduo mulher que precisa de amigos, de amor, de carinho, de atenção, de emprego, de roupas, de comida, de casa, de estudo. Um indivíduo que precisa estar inserido na sociedade, mas como sou vista por último, me sobra migalhas ou nada.
Quem é feminista deve ter pulado da cadeira agora.
Mas pensa comigo.
Enquanto suas mulheres brancas estavam se reunindo numa “Convenção de mulheres” lá em 1851, debatendo as questões de gênero, havia países que ainda consideravam os negros uma raça inferior, tanto que a célebre Sojourner Truth, ex-escrava e abolicionista, fez um discurso na mesma convenção que é conhecido como “Ain’t I a woman?” — Eu não sou uma mulher?
Negra. Gorda — é nessa ordem que eu continuo no mundo.
O intuito desse texto é justamente mostrar o quão intrínseco está o racismo e a gordofobia na sociedade, que mesmo dois grupos marginalizados e que precisam de voz, alcance e espaço na mídia, não conseguem se olhar, não conseguem trabalhar juntos.
Amiga branca gorda, não me exclua dos espaços que eu te ajudei a conquistar, eles também fazem parte de mim e de todas as negras gordas. Assim como não faz mal nenhum— inclusive é racista não fazer — você citar a Gabourey Sidibe, Preta Gil, Queen Latifah, Priscilla Marinho, Cacau Protásio, Danielle Brooks ou Adrienne C. Moore como modelos de representatividade para você. Afinal, por décadas nós, negras, temos brancas como modelo a ser seguido e adaptamos a sua realidade branca, a nossa (sobre)vivência negra.
Minha amiga negra magra, me inclua verdadeiramente em vossas pautas negras — independente do seu movimento preferido pra lutar, pois há negras gordas em vários lugares por aí afora, não faça mea culpa ao olhar pros lados.
Principalmente, você pode parar de usar a gordofobia para atingir outras mulheres brancas, pois ser gorda não é algo relativo a etnias. E eu entendo como o racismo é cruel conosco e muitas vezes apenas queremos xingar brancas desonestas e racistas, então faça isso chamando-a de branca racista!
Porque eu também sou gorda, também sou a baleia, a rolha de poço asquerosa que você tanto fala mal e adora pisar.
Todas nós queremos o mesmo objetivo: sermos vistas como indivíduos nessa sociedade, não queremos fazer parte dos papeis estereotipados que o sistema nos obriga a interpretar.
Queremos ser pessoas respeitadas, admiradas, amadas, ouvidas…
Então, que tal começarmos reconhecendo os indivíduos dentro da própria causa?
Mayara Cardoso, obrigada preta, por me ajudar a escrever sobre essa dor partilhada entre tantas de nós.
Negra Gorda.
