Amar pelas bordas

“E o povo se reclamava de insignificâncias ao ouvido de Javé. Mas Javé ouviu. Então, suas narinas se aqueceram e o fogo de Javé queimou neles, comendo as beiradas do acampamento”. (Nm 11.1)

As narrativas da caminhada no deserto ensinam muito sobre relacionamentos. Enquanto o livro de Êxodo mostra o relacionamento entre Deus e povo sendo construído (Ex 12–18), Números mostra um término com toda aquela geração (Nm 11–14). Mas se é fácil identificar a gota d’água do relacionamento na história dos espias (Nm 13–14), sempre deixamos escapar o início desse término, que está na história de Taberá (Nm 11.1–3).

Como Massá e Quibrote-Hataavá, (Ex 15.22–27; Nm 11.4–35; Dt 9.22), o nome Taberá é um jogo de palavras, nesse caso com o verbo “queimou” (heb. tibʿar), que foi a resposta de Deus para com o povo. O trecho é recheado de palavras que lembram calor da fúria divina: as narinas de Javé se aquecem (heb. wayyiḥar ʾappōw); o fogo de Javé queima (heb. ʾēš yhwh); o fogo come/consome (heb. ʾkl) etc. Mas o que suscitou tal calor?

O calor começa enquanto o povo “se reclamava de insignificâncias” (heb. kĕmitʾōnĕnîm raʿ). É interessante que a reclamação comece e termine no próprio povo. Eram, como a palavra diz, “insignificâncias”, ou seja, coisas sem valor e/ou pequenas (heb. raʿ, Nm 20.5). Não haviam motivos claros para as reclamações, como viriam na sequência (Nm 11.4–5; 12.1; 13.27s etc). Isso faz as bordas começarem a se consumir pelo fogo (Nm 11.1)!

Relacionamentos começam e terminam pelas bordas. São coisas sutis e aparentemente insignificantes que os quebram ou os reerguem. Não coisas centrais ou importantes. Mas tendemos a não dar atenção a essas coisas pequenas e minamos nossos próprios relacionamentos, seja ele com Deus ou com o próximo. Por isso, gostaria que você lembrasse da lição de Taberá: ame pelas bordas, para que o centro de seu relacionamento rejuvenesça.