A jornada de Dona Carmelita

Aos 68 anos, com artrose e artrite, Dona Carmelita caminhou por mais de oito horas no dia 24 de março de 2016. Saiu de casa, na periferia de Santo André, às 15h rumo ao Largo da Batata, onde a frente Povo Sem Medo se organizava para marchar até o prédio da Rede Globo na capital paulista. A manifestação contrária ao “golpe na democracia”, impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e da alegada cobertura tendenciosa da mídia foi composta prioritariamente pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e seus agregados, entre eles Dona Carmelita.

Diego Riviera/ Reprodução

A idosa andou todo o trajeto de 9 quilômetros, entre a região baixa de Pinheiros e a sede da emissora de televisão, ancorada num tubo preto de PVC maior que ela. “Amanhã eu sei que vou estar muito cansada, vou até por sal num balde com água para relaxar os pés”, contou enquanto caminhava quente e ofegante pela avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini. Negra, baixinha, seios fartos e barriguinha saliente de uma boa avó, Dona Carmelita usava sandálias, uma comprida saia bege, camiseta vermelha e um lenço branco no pescoço — da mesma cor de seu cabelo crespo penteado para trás.

Ao contrário da multidão que seguia pelo meio da rua, ela preferia ir pela calçada num fôlego só e sozinha, já que havia se perdido dos companheiros militantes. Dona Carmelita acreditava de boa fé que os encontraria uma hora ou outra ao acaso. “Quero só ver depois para eu ir embora daqui, minha filha, você sabe como?”. Nascida em Itabuna, cidade baiana localizada há quase 430 quilômetros de Salvador, Carmelita mora sozinha num barraco, o qual chama de “caixinha de fósforo”, em uma favela em Santo André. Ela e os vizinhos sonham em ser agraciados com moradias do programa federal Minha Casa, Minha Vida, na modalidade Entidades. “Já estou velha, mas se eu morrer, a casa fica no nome da minha neta de nove anos, tadinha, filha do meu filho que morreu”, explicou com o “r” característico de quem cresceu no nordeste.

O núcleo em que Dona Carmelita mora é organizado pelo MTST, coordenado pelo filósofo classe média Guilherme Boulos, respeitado e chamado apenas de “Guilherme” pelos partidários. O MTST foi noticiado em algumas oportunidades por distribuir pontos às pessoas que participam de seus atos. Quem tem uma pontuação maior — isto é, vai aos protestos e atividades promovidas pelo movimento social — tem prioridade na hora de ser indicado e conseguir um teto decente subsidiado pelo governo. O papel social do grupo, alegam seus defensores, é pressionar o poder público, sobretudo as prefeituras, na hora de disponibilizar terrenos para que o governo federal execute obras para habitação, sobretudo do programa Minha Casa, Minha Vida, criado em 2009.

Dona Carmelita poderia muito bem faltar neste ato, realizado às vésperas de uma sexta-feira santa, mas juntou forças para cumprir a cota revolucionária porque pretendia ficar em casa enquanto o pessoal fosse para Brasília em 31 de março protestar a favor da presidente Dilma. “E eu que não vou pra aquela terra onde não tenho onde cair morta”, disse momentos antes de oferecer água para um cachorro da raça cocker cor caramelo que estava na manifestação. “Eles morrem de sede quando andam muito, dá uma aguinha para ele, judiação”, alertou à dona, que muito educada agradeceu a preocupação e a garrafa de plástico que a idosa militante tirava de uma das duas bolsas.

Durante a marcha até a Rede Globo, Dona Carmelita parava vez ou outra para pegar latinhas de alumínio que encontrava ao acaso. O material rende um trocado extra no fim do mês para ela que, apesar de trabalhar desde os cinco anos na roça, teve que entrar com um processo na Justiça para conseguir se aposentar por idade. “Trabalhei a vida toda, mas eu só tinha sete anos de registrada na carteira. Não sabia dos meus direitos, meu pai me tirou da escola aos nove anos e a gente acaba não sabendo das coisas. Paguei para a advogada e ela conseguiu meu direito no INPS, graças a Deus”, disse.

Em meio a dois caminhões de som, jovens tocando percussão, faixas de ocupações e imagens exaltadas de Che Guevara, Dona Carmelita se disse chateada com o ex-presidente Lula, apesar de nunca ter botado muita fé em Dilma. “Se eu pudesse gritar para todo mundo ouvir eu gritava: não vamos mais votar em ninguém. A gente vota no Lula para ele ficar fazendo essas coisas erradas aí?”, falou em referências às denúncias diárias nos meios de comunicação, que envolvem possível tráfico de influência, lobby com grandes empresários e até mesmo pedalinhos com os nomes dos netos em um sítio no interior paulista.

Às 20h40 a multidão, 30 mil pessoas segundo a organização e 17 mil de acordo com a Polícia Militar, chegava em frente a emissora.

“Mas, minha filha, o que vamos fazer em frente ao prédio da Rede Globo numa horas dessas?”, disse já suada ao ver dois helicópteros e muitos homens da PM com caras de mau em frente a sede da emissora.

Ato encerrado, Dona Carmelita pegou um trem, duas linhas do metrô, outro trem e mais um ônibus para chegar em casa, um barraco de madeira com telhado de amianto que divide com um cachorrinho e um papagaio.


Ilustração: Beatriz Brandão. Design Gabriela Oliveira.

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