Café sem açúcar e sem nada

Entrou com um sorriso desconfiado e tímido. Cara de quem não sabe o que está fazendo, mas com a maior segurança do mundo. Prendeu o cabelo grande na nuca com um nó, esgueirou-se pelas vigas de sustentação e apoiou-se no balcão. Um café. Puro? Isso. Pegou um pacotinho de adoçante e ficou passando pelos dedos. Unhas vermelhas gastas. Pequenas em uma pequena mão branca. Era como se segurasse pequenos morangos nas pontas dos dedos e eles brincassem com um pacote de adoçante.

Não morava lá, certeza. Aqui a gente conhece um por um. E ela não era do tipo que parecia artista, prostituta, viúva, prima do interior, travesti ou qualquer um dos típicos moradores do centro de São Paulo. Parecia um nada sem fim, um grande túnel sem a luz do final.

Foto: Camilla F.

Pegou o café, queimou a língua e, se eu não visse suas sobrancelhas curvando-se em direção aos olhos, eu não suspeitara. Ninguém poderia ver sua dor, pensei, mas estava enganada. Eu via. Transbordava de sua serenidade comedida, com a graça leve de um palhaço que borra a maquiagem e não se abala.

Um homem aproximou-se dela, aquele cara sempre se aproxima de alguém. Desde que mora aqui o ritual é sempre o mesmo: chega, pede um café, chega perto de outro cliente, troca quatro ou cinco frases e vai embora. Esse café te deixa acordada? Tomara. Não quer dormir? Não quero sentir sono.

Ela não queria sentir sono… Aquela garota visivelmente não se interessava pela conversa furada, pela noite, pelos astros, pela alquimia, pelo nome dele. Só tinha interesse pelo café que seguia passando pela língua e despertando os sentidos contra os primeiros sinais de que deveria descansar. Por que você não quer sentir sono? Eu não consigo dormir, então sofro muito quando sinto sono.

Essa foi a melhor resposta possível que eu esperaria daquela pessoa. E mesmo ela estando há apenas três minutos lá dentro, eu já me sentia parte de seu universo, como se meu mundo se fundisse em sua falta de mundo. O rapaz despediu-se com um tchau sem graça — ela não veria mesmo que tivesse.

A garota engoliu o fundo da xícara e a deixou lá em cima da mesa. Ela levantou e veio em minha direção, respirando graciosamente um oxigênio que parecia não dar vida a nenhuma de suas células. Uma viva morta. Um café e, por favor, queria um desses brancos. Peguei o chocolate e dei em sua mão. Três reais. Ela deu um riso sincero, sinceramente triste. Seu café é muito bom, primeira vez que eu tomo um aqui. Eu sorri, sinceramente feliz, mas eu sabia que era tudo mentira. Ela mentiu para poder sorrir, mentiu para fingir ter prestado atenção no gosto e mentiu para fingir que estava vivendo. Eu sabia que havia muito mais do que tristeza e era aquela dor indecifrável que ninguém pode sentir além dela própria.

Desejei em pensamento vê-la viva outra vez, só por um instante, mas ela não vai voltar. Nunca mais.


Ilustração por Beatriz Brandão. Design por Gabriela Oliveira.

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