Com carinho

Sylvia Kleyff — Black Flower

Por Natália Regazzo

Um livro sem capa era o que Aparício levava amarrado no guidão de sua bicicleta. Depois de passar na Livraria Cultura da Paulista, ele pegou o trajeto mais curto para o destino final, na Praça Benedito Calixto. No caminho, o que mais lhe atraiu atenção foi o sebo com o sutil nome de “Memória”.

“Memória”. Ele parou para admirar o letreiro por um tempo e descansar, já que a sensação térmica de 40 graus o consumia e tornava tudo mais difícil.

Enquanto observava os senhores de idade com seus cachorros de raça e impecáveis camisas brancas, Aparício sofreu mais um pouco por estar trabalhando em um dia tão quente. Depois de passar 20 anos batendo cartão em um escritório como encarregado de planilhas de gastos do mês, aquele senhor ainda estava se adaptando com a nova ocupação: a de entregar livros novos e usados com uma bicicleta.

Neste serviço, o empreendedor atendia ligações, passava em lojas, sebos e fazia as entregas que se estendiam até aos finais de semana, nos mais diferentes endereços em São Paulo.

Desta vez, o cliente informou uma barraca do mercado de pulgas como endereço de entrega.

- Olá, tenho uma entrega para Socorro.

- Não conheço nenhuma -, respondeu seca a atendente sem mostrar qualquer empatia.

Enquanto isso, uma senhora no auge dos seus 60 anos interagia com móveis e antiguidades. Sentada na cadeira com cores adquiridas com o tempo, ela gesticulava ao velho telefone de fio, pesado e difícil de manusear. Não acompanhava toda aquela movimentação de um típico sábado à tarde na Benedito. Parecia perdida em suas lembranças, mas a intuição de Aparício o levou para perto da figura.

- Por favor, a senhora conhece alguma Socorro?

- Estou esperando meu marido chegar. Sente e se acomode. Vou fazer um suco de limão para você se refrescar. Cuidado com os meus pequenos na sala. Eles não dão sossego!

Atônito, o entregador já idoso se perdeu em suas tarefas. Resolveu folhear as poucas páginas do livro sem título, depenado pelo tempo, que fora incumbido de entregar a tal senhora Socorro.

Leu em voz alta o prefácio enquanto o sol escaldante atingia sua cabeça.

- Para a mulher que me conquista todos os dias com suas sardas e olhos castanhos.

Por um segundo, Aparício teve a impressão de ter visto uma lágrima rolar da sexagenária, mas logo ela voltou a ajeitar o jogo de xícaras florido passado por gerações, ali, à espera de um novo dono.


Colagem por Beatriz Brandão. Design por Gabriela Oliveira.

Baixe nossa primeira edição em PDF! Clique aqui.

Estamos também no Facebook e Twitter.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Granada’s story.