Faz dois meses que estou com sede

Foto por Gabriela Oliveira

Faz dois meses que estou com sede. Não consigo me saciar de jeito nenhum. Da torneira sai uma água com ferrugem. Da garrafa na geladeira, formigas. Do banheiro, um líquido com gosto de cloro. Do tanque, algo marrom. Não encaro.

Compro café, chá, frapuccino, refrigerante, suco e às vezes cerveja, vodka, vinho e catuaba. Tudo isso aumenta e piora minha sede. Sempre que vou ao mercado esqueço de comprar água. Nunca me sobra dois reais e, se sobra, pego um sorvete.

Eu respiro pela boca. Minha garganta fica seca e meus dentes se afastam, meu xixi mais concentrado e escuro. Preciso de água. Senão, posso ter uma infecção, comprometer meus rins, ir para UTI e morrer.

Não consigo vencer a natureza da sede, nem confiar na caixa de água da minha casa. Nem da do vizinho. Certamente tem um lodo, um fungo, um ninho de gato ou criadouro de mosquito.

Sigo com sede. E não consigo resolver.


Colagem por Beatriz Brandão. Design por Gabriela Oliveira.

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