O peso de uma moeda moeda

Por Ana Patrocínio

Foto por Granada

Eu tinha nove anos e amava Castelo Rá-Tim-Bum, o qual pensava que era de verdade, assim como pensava ser de verdade muitas das minhas imaginações. E, na vida real, inventei uma fada que deixava doces debaixo do travesseiro da minha irmã de quatro anos para que ela sentisse que a vida poderia mais gostosa. Como éramos muito pobres e, às vezes, mal tínhamos o que comer, doces eram muito raros em minha casa. Mas eu sempre comprava um pão a menos para mim ou roubava moedinhas da bolsa da minha mãe para a gente sentir um pouquinho daquele gosto de dadinho, guarda-chuvinha, pastilha Garoto de hortelã, esses que logo serão parte daquelas postagens nostálgicas de Facebook.

Na nossa casa, minha irmã e eu passávamos muito tempo sozinhas porque não tínhamos pai e nossa mãe, por trabalhar muito o dia todo, chegava só depois das 19h30 sempre muito nervosa, de modo que acabava descontando em mim o amargo da vida. Demorei muitos anos para entender isso. Ao chegar, ela fazia comida, tomava banho e saía para dormir na casa do meu padrasto. Nunca tive qualquer afeto por ele por causa de sua constante brutalidade e violência, mesmo ele sendo o provedor do alimento do dia-a-dia, mas eu ainda não entendia o que era isso.

Certa noite, como de costume, adormeci de mãos dadas com minha irmã, cada uma em sua cama. Eu sofria de pequenas insônias e era comum eu despertar com ruídos de fantasmas, espíritos, a Loira do Banheiro ou coisa assim, vultos rápidos que se iam quando eu cobria a cabeça com a coberta e adormecia. Esse dia, porém, foi diferente. Despertei com uma luz na sala, onde minha mãe dormia quando chegava de madrugada da casa do meu padrasto, e lá vi muitas sombras de pessoas que estavam em circulo dançando como se estivessem ao redor de uma fogueira e cantavam uma espécie de música indígena. Assustada, chamei minha mãe. Ela não respondeu, mas a música parou e tive a impressão de que aqueles seres me olhavam. Voltei a cabeça para debaixo da coberta e adormeci chorando, com muito medo. Quando despertei pela manhã, com intensos raios de sol, minha mãe estava deitada em sua cama e havia sangue, muito sangue no lençol ao redor de sua cabeça e por todo o chão. Eu a chamei e a chacoalhei.

− Mãe! Mãe! Por favor, acorde!

Nada. Nenhum um sinal. Entendi que minha mãe havia morrido, me debrucei ao pé da cama e comecei a chorar bem baixinho para não despertar minha irmãzinha. E de repente, como se Deus ou alguém estivesse ouvindo minha súplica, ela se levantou. Perguntei-lhe o que houve, corri para buscar um pano para limpar o sangue que escorria. Interroguei-a, mas já sabia que outra vez meu padrasto havia batido nela. Ele, como um policial truculento, acertou-a com a coronha da arma, depois bateu-lhe a cabeça num muro das ruas escuras até que ela desmaiasse. Não sabemos como ela chegou em casa. Minha mãe só recobrou a consciência quando despertou com meu choro e chorando me culpava.

− Vamos embora! Vamos fugir!

Eu queria ir morar no Castelo Rá-Tim-Bum. Eu dei essa ideia. E ela chorando me disse que essas bobeiras não existem. Se ela não precisasse me sustentar, comprar comida e pão para duas crianças, nada disso aconteceria. Ela me xingava de desgraçada e morfética, mas não me bateu pois não tinha forças. Ela chorava e eu chorava mais ainda implorando que ela não chorasse. E eu sentia mais que nunca o peso da culpa por roubar-lhe moedas da bolsa para ser a fada boa que deixava doces debaixo do travesseiro da minha irmã mais nova.


Ilustração por Bianca Brega. Design por Gabriela Oliveira.

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Colagem por Beatriz Brandão. Design por Gabriela Oliveira.

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