Olimpia

Colagem de Beatriz Brandão

Por Vanessa Del Negri

Ela desceu do carro na frente do velho prédio na Borges Lagoa. Eu esperava num banco do lado de dentro e não pensei em ir até lá busca-la. Era ainda mais linda assim, fingindo ser rica. Trajava um vestido fino, tão decotado que achei poder ver parte de seu mamilo por cima da dobra delicada na seda branca.

Ele que dirigia e eu senti raiva. “Ele te possuiu”, afirmei depois, já no apartamento. Ela riu, aquela risadinha dissimulada que gostava de dar pra provocar e confundir, mas vamos voltar às roupas, elas são importantes na história. O vestido era de seda fina, branca, com um decote digno, que desenhava claramente cada forma de seu corpo.

Era quase morena, não fosse a falta de praia aqui em São Paulo. Pernas compridas e musculosas, capazes de fazer o que quisessem com quem tentasse descobri-las. E, geralmente, o que ela queria era simples e fácil até pra uma puta tipo essas que vivem pelos bares de samba e cerveja barata da rua Loefgreen.

O porteiro do prédio também deve ter percebido o vacilo no decote. Já podia imaginar o que faria assim que você me cumprimentasse e desse as costas. Porcos. Homens são sempre porcos. Desvirtuam a mais bela manifestação de amor e desejo, aniquilando suas chances de conquista pela possibilidade de uma foda exibicionista. Acabou na punheta, o desgraçado, pensando na minha Aurora.

(Não, não matei o porteiro, apesar de ter descoberto alguns dias depois que gravara um vídeo nosso pela câmera de segurança do elevador. Foi um vacilo da pressa. Você sabe como é difícil manter as aparências com uma mulher como aquela a menos de três centímetros da sua boca)

Aurora entrou aquele dia no meu apartamento, que na época ainda era o do 23º andar, com vista pro Ibirapuera e pra Avenida Paulista. Tirou as sandálias, que também eram brancas, com um salto que beirava os quinze centímetros, mas você sabe que eu não tenho muita noção de tamanho. Sabe aquele sapato azul que você comprou semana antes do casamento da Paula? Parecia o salto dele. Era bem bonito.

Ela entrou, tirou as sandálias e olhou pra mim sem muito desejo. Talvez já estivesse apaixonada pelo playboy do carro carro. Eu perguntei que cara era aquela, mas ela não respondeu. Levantou assim, de súbito, e deixou uma alça do seu vestido cair pelo ombro. “Me beija.” E pedindo assim não dava pra recusar, mas eu recusei. Queria brincar com ela aquela noite. “Me beija!”, ela gritou, esperneou e fez cara feia. E eu recusei. Cada recusa causava mais tesão e eu me dei conta que gritávamos sem o mínimo pudor todas as palavras do nosso vocabulário mais sujo, insultos que sublimavam-se em doces mentiras com resquícios de verdade enraizada. Até que vociferei “Puta!” e ela me bateu na cara com aquela sandália imensa.

Sabe, Olimpia, apanhar de mulher não é fácil. A gente pensa que homem é forte, mas mulher que sabe onde machuca. Uma vez ouvi dizer que quando a dor é muito forte a gente não sente. O que eu senti quando o salto fino daquela sandália rasgou parte do meu rosto não foi exatamente dor.

Dor eu senti alguns minutos depois, mas já chego nessa parte da história. O que causou foi a culpa, o constrangimento com o calor do sangue percorrendo a maçã esquerda do meu rosto. Aurora viu tudo aquilo e ficou em estado de choque. Parecia ter voado em minha direção, gritando que me amava e implorando o perdão. Beijava meu rosto e lambia meu sangue, numa demonstração patética de arrependimento e autopunição.

(Eu sempre te perdoei, Aurora, hoje vejo que até quando você não merecia. Às vezes acho que se tivesse desistido de perdoar-lhe na primeira vez que me você me humilhou, teria sido só mais uma dessas putas pro resto da vida, e tanto o Carlos quanto eu teríamos sido somente clientes)

Não, Aurora não era exatamente uma puta. Era uma mulher deslumbrante que sabia como ganhar dinheiro abrindo as pernas. E isso de maneira alguma tirava seu mérito. Diria, na verdade, que a habilidade maior não era de fato o sexo e, sim, a forma como ela amava as pessoas e como se fazia ser amada, mas vamos parar com esse floreio. Esqueço sempre de me ater aos fatos.

Saí do abraço com calma para não sujar ainda mais aquele vestido branquíssimo. Fui até o banheiro e examinei cuidadosamente o corte, que era profundo o suficiente para expor a carne que já começara a ser devorada pelas bactérias daquele salto imundo. Lavei com água e sabonete, desinfetei com álcool e aí sim senti a dor que mencionei, a dor de verdade, a dor física em seu absoluto e perfeito poder, dominando todos os sentidos desenvolvidos por um cérebro primata como o meu (e o seu). Sim, a dor sublima a alma e transforma tudo à volta em mera representação metafórica, desde o algodão que segurava entre os dedos até ela, parada atrás de mim em estado de auto-piedade plena, ainda com a alça do vestido caída pelo ombro direito.

(Ou esquerdo? Merda, como eu posso me esquecer de um detalhe tão importante deste grandessíssimo quadro pintado pelo reflexo de meu espelho? Eu, com o rosto dilacerado e contorcido pela dor do corpo, ela, um manequim moreno com o vestido sujo de gotas de sangue, envolvida pela culpa — que fora gerada pelo mais puro ódio, que foi gerado pela mais pura verdade. Ah, como é linda essa realidade lúcida e limpa de sentimentos primitivos e irracionais! Ah, como é feliz saber que tudo é perfeitamente simples quando manifestamos nossos sinceros desejos!)

Após contemplar em silêncio os segundos de dor e prazer, tive a ideia mais estúpida que poderia ter na vida. Devo à essa ideia uma cicatriz eterna, mas confesso que os minutos em que passei sob o domínio de Aurora e aquela agulha foram, até hoje, os mais sensuais e apaixonados de toda a minha vida.

Andei calmamente até meu quarto e, na terceira gaveta de cima para baixo no armário do meio, havia uma caixinha com minhas agulhas e linhas que usava eventualmente para pregar um botão ou zíper em uma calça. Abri a caixinha, limpei todas as agulhas com álcool em abundância e encaixei um fio de linha clara numa delas.

Sabe, Olimpia, eu não gosto de sujeira. Essa minha mania de limpeza é uma forma de evitar a maior visão de repugnância que tenho, milhares, milhões, incontáveis bactérias festejando sobre a minha pele, saboreando vigorosamente meus órgãos internos, atacando inescrupulosamente meus tecidos, transformando tudo em uma massa podre de carne, um tenro banquete putrefato, até chegar ao fino osso, desprezando as unhas e os cabelos. Até a roupa lhes serve de sobremesa, nessa festa imunda e fúnebre, mas voltemos aos fatos.

Pedi para que Aurora costurasse minha pele. Não seria difícil, ela também já pregara alguns botões em calças e sabia como funcionava. Em perfeito estado de desespero e desamparo, atendeu a outro pedido sem o mínimo resquício de pudor. Tirou o vestido para que não o sujasse ainda mais com o meu sangue. Despi-me, também, e estávamos completamente sem roupas, frente a frente. “Quer vinho?”, me perguntou, mas neguei.

Quero sentir cada movimento da agulha perfurando a minha pele, atravessando a carne, a linha em sua trajetória lenta e firme”, disse com essa minha paixão pelo drama e pelas palavras. Claro que falei isso, Olimpia, ou você acha que eu sou do tipo que inventa diálogos só pra me sentir artista? E assim, ela costurou, de ponta a ponta, isso que hoje em dia é essa cicatriz aqui. Logicamente eu desmaiei na metade do processo, mas logo ela me acordou com o cheiro do álcool, e voltou a costurar minha cara.

Curiosamente, não cobrou-me por aquela noite.


Eu disse que seria longo. Aurora ainda se contorcia de prazer quando contei a ela minha ideia. “Você está absolutamente louca”, ela dizia, e eu saboreava cada palavra saída por entre os dentes grandes de sua boca. Podia sentir o hálito da manhã, mas isso não me incomodava tanto. Ela concordava com a ideia, e era isso que importava.

Havia muito trabalho a fazer e precisávamos de tempo para planejar tudo. Eu conhecia vários estudantes de medicina, já que a Unifesp era na rua de baixo e meus vizinhos eram todos de lá. O da frente, Renato, era um rapaz alto, muito bonito, moreno, que vez ou outra dava em cima de mim ou da Aurora.

Chamei- o em casa algumas vezes pra festinhas particulares ou só pra dividir um baseado enquanto ouvíamos um disco, que às vezes era Bowie, outras Mozart. Eu gostava dele, um cara desses que entende de tudo um pouco e não se prende a nada. E por isso me ajudaria. Tinha também Carlos, já acostumado com o fato de Aurora dormir comigo às terças e quintas. Não sei se gostava e espero que não. Nada me dá mais nojo que homem com tesão em mim e na minha Aurora, mas ela precisava de vestidos novos.

A noite do domingo estava chuvosa, era verão e eu suava. Suava muito, incansavelmente. Parei à porta da casa de Carlos. Aurora que atendeu. Estava linda, com uma camisola de seda inglesa roxa. Pensei em possuí- la ali mesmo, na porta, pra Deus e o mundo assistir, mas tinha que colocar o plano em prática. “Carlos está deitado”, disse-me e subimos calmamente até o seu quarto, sem trocarmos uma única palavra.

Quando abri a porta, Carlos acordou como que prevendo seu destino. Chamou-me pelo nome e eu o desejei boa noite. Aurora, nesse momento, passou a mão por minha cintura e beijou a cicatriz que ainda estava em carne viva.

“Você vai gostar de sentir tudo”, eu disse, lembrando da agulha e da linha que já estavam devidamente esterilizadas, assim como o bisturi. Não seria por ódio que o daria de presente aos vermes para ser roído até último fiapo de carne. Não… deixa isso pro tempo.

Desejei começar pelos testículos, que pareciam ser mais complicados. Com um único corte, tirei-lhe também o pênis. Carlos contorcia-se de dor e desgosto, enquanto Aurora, sem esboçar a mínima reação facial, costurava-lhe a pele com a maestria de uma fina modelista francesa.


Colagem por Beatriz Brandão. Design por Gabriela Oliveira.

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