Quer ser o pai dos meus filhos?

Colagem de Beatriz Brandão

Enquanto eu fazia cara de intelectual, por trás dos meus óculos de aro preto passavam mil pensamentos indecentes. Que boca linda ele tem. O acabamento perfeitamente desleixado da sua barba escura forma uma moldura harmônica para seus lábios carnudos quase femininos. Dentes um pouco amarelados, mas alinhados de tal forma que quero ligar para seu ortodontista e parabenizá-lo pelo bom trabalho.

Essa risada sem graça seguida de um olhar para baixo aquece meu coração. Quero fazer incontáveis piadas bobas para poder gravar na minha cabeça cada detalhe desse sorriso. Seu incisivo lateral direito tem um quebradinho charmoso. Que tipo de alimento seria capaz de causar um dano tão delicado assim? Me dou conta de que estou olhando fixamente para a sua boca e volto a prestar atenção em sua fala competente e direta.

Sinto que fiquei um pouco vermelha e decido fingir que estou com calor. Ao me abanar, percebo um olhar rápido para os meus ombros desproporcionalmente morenos. Gosto de imaginar que esse meio segundo que ele desviou o seu olhar do meu representa uma fresta na muralha profissional que nos separa.

Ele passa alguns minutos me explicando as funções que terei de cumprir pelos próximos meses e eu só consigo pensar em quanto gostaria de tocar qualquer parte do corpo dele. Poderia ser o cotovelo, a orelha, o dedinho do pé, não importa. Preciso confirmar minhas suspeitas de que se nossos corpos se tocarem uma corrente elétrica quase mortal passará de mim para ele e talvez ele até tenha sequelas.

Me contento em olhar séria e fixamente para seus olhos enquanto aceno a cabeça como quem concorda com algo que não está ouvindo. Seus cílios longos dariam inveja a qualquer garota que passa horas na frente do espelho usando aparelhos parecidos com objetos de tortura para conseguir uma curva perfeita. O castanho dos seus olhos são diferentes de qualquer outro que já vi. Tem um brilho que não pode ser excesso de umidade nem amor. Seria criação divina? Deus, sei que não sou religiosa, mas se o Senhor ajudar a me concentrar no trabalho prometo acender uma vela mais tarde. Decido imaginar que ele é uma senhora sexagenária me ensinando tricô, mas não funciona. Ele tem cara de cachorrinho pidão e isso só faz com que eu queria abraçá-lo forte e sentir o cheiro do seu cabelo ondulado. Deus não existe mesmo.

Após alguma análise, acho que mais de 30 ele não tem. Só posso torcer para que não seja mais novo que eu. Depois dos 25 percebi um fenômeno curioso: quase ninguém é mais velho que eu. Os poucos que são já estão casados, tem filhos ou ainda moram com os pais e não me interessam.

Não sei dizer se é normal ele estar tão perto de mim. Em um papel amassado e com algumas manchas suspeitas, lemos o passo a passo da maçante rotina administrativa que devo seguir. Me pergunto se ele estava à mesma distância ao treinar a última assistente. Desconfio que não.

Quero arrancar esse papel da sua frente, puxar sua camisa florida e dar o beijo mais molhado da vida dele ali no meio do escritório. Imagino que uma investida menos agressiva funcione melhor. Talvez eu deva pedir demissão no meu primeiro dia de trabalho e chamá-lo para uma cervejinha casual pós expediente em plena segunda-feira.

Não, preciso pagar o aluguel e voltar a comprar ração premium pro meu gato. Não aguento mais ver em sua cara peluda um misto de nojinho e resignação toda vez que ofereço ração comum para o jantar. Vejo que nas mãos dele existem alguns pequenos arranhões felinos e encontro mais uma compatibilidade entre nós, o que me faz sentir um pequeno calafrio.

Já é a segunda vez que seus olhos deslizam sorrateiros para outra parte do meu corpo. Existe uma linha nada tênue entre olhar os dentes sujos de alguém e admirar uma boca bonita. Me pergunto se tenho resquícios de pão do café da manhã. Discreta, passo a língua onde geralmente ficam presos pedacinhos de comida e me certifico de que ele também me quer.

Parece que ele está cada vez mais perto de mim. Ou sou eu que inconscientemente estou me aproximando? Com certeza o ar que respiro já foi respirado por ele. De certa forma, então, ele está dentro de mim nesse exato momento. Seria sexy se não fosse insano pensar numa coisa dessas. Engulo seco e percebo que estou suando. Peço uma pausa para encher minha garrafa de água e, com sorte, recuperar a sanidade. Na sala do café, ele troca meia dúzia de palavras com colegas de trabalho que poderiam me matar de tédio. Talvez não, mas perto dele todos parecem medíocres. É como se eles fossem feitos em branco e preto enquanto um prisma de infinitas cores emana de cada poro do corpo dele, enchendo meus olhos de tanta beleza que estou prestes a chorar.

Distribuo sorrisos simpáticos, mas falsos, enquanto respiro fundo e me preparo para mais algumas horas dessa tortura. Ele me faz sinal para passar à sua frente e seguimos novamente para meu novo posto de trabalho. Ao mesmo tempo em que me esforço para andar graciosamente sem sucesso, me pergunto se ele está olhando para a minha bunda. Espero que sim, é meu melhor atributo físico. Depois de algum tempo revisando as rotinas de escritório, saio para almoçar sozinha e sinto que pela primeira vez no dia posso respirar. Fumo um cigarro em tragadas longas antes de entrar no self-service mais barato do centro da cidade e tento pensar em banalidades, mas não consigo tirar a imagem dele da minha cabeça. Como vou trabalhar se não conseguir superar essa obsessão?

No caminho de volta ao escritório percebo que ele está poucos passos à minha frente. Diminuo o ritmo e paro em uma banca de jornal para evitar encontrá-lo fora do ambiente de trabalho e perder de vez o pudor. Finjo ler capas de revistas femininas por alguns minutos. Saio da banca e vou a passos lentos até o alto edifício de esquina em que trabalhamos.

Amaldiçoo os deuses quando vejo que ele ainda está esperando o elevador. Meu primeiro instinto é de dar meia volta e evitar momentos de enclausuramento ao seu lado, mas antes disso, como que em um filme, ele olha para trás e me manda um sorriso como quem diz “Oi, tive saudades”. Caminho lentamente em sua direção, uma vez que sinto minhas pernas tremerem e meu coração bater mais rápido. Começo a suar. Respondo seu olá com um rubor sem propósito e alguma piadinha que funcionou melhor na minha cabeça.

Dentro do elevador, reparo nos seus tênis vermelhos surrados e me dou conta de que realmente fomos feitos um para o outro. Formulo uma rápida declaração de amor para caso fiquemos sozinhos por alguns andares, mas a sorte nunca está do meu lado. No fundo do elevador vejo o cara do TI com belos círculos de suor em sua camisa verde desbotada e muita disposição para estragar qualquer paixão platônica.

Depois de certa enrolação pós-almoço, sou obrigada a repetir todos os procedimentos que me foram ensinados até o momento sob o atento e ardente olhar daquele homem maravilhoso. Minha sorte é que aquele trabalho poderia ser feito por qualquer macaco treinado, então mesmo num misto de excitação e vergonha de existir, mostro que sou capaz e profissional. Gostaria de mostrar outras boas habilidades que tenho, mas me conformo só com isso mesmo.

Mais algumas horas de angústia, desejo e devaneio. Ao final do dia, me sinto exausta. Ele me pergunta com genuíno interesse se tenho alguma dúvida e tenho que me esforçar para não sucumbir ao “Quer ser o pai dos meus filhos?” que vem rondando minha cabeça desde as 8h34.

Fico em dúvida se devo ser descolada e me despedir com um beijinho no rosto ou manter as aparências e apertar a mão dele. Decido improvisar e solto um sem graça: “Obrigada pelo treinamento, Carlos”. Não sem espanto ouço ele dizer “Magina. Mas é Paulo, tá?”


Colagem por Beatriz Brandão. Design por Gabriela Oliveira.

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