Sonhei com você esta noite e caí da cama

Por Marina Ferrarezze

Ilustração por Gabi Cesar

Rindo, você me olha como quem não entende o que está acontecendo. Seguro sua mão e saímos correndo como se fugíssemos de um assassino psicótico que talvez fale francês. Acordei com dores em todo o corpo, mais cansada do que estava quando dormi e com um sentimento assolador de “de novo não”.

Os eucaliptos altos ao nosso redor dançam ao ritmo da tempestade que está por vir. Reconheço alguns rostos que me eram familiares há muitos anos e não entendo por que essas pessoas estão ali. Todos te olham como se você fosse um intruso, mas te exibo orgulhosa. Me reviro na cama e abraço o travesseiro. Não queria começar outro dia pensando em você.

Whiskas, pãezinhos e uma gilete. “Não queremos sacola plástica, amamos o meio ambiente”, você fala em um português perfeito e eu não estranho. Seu cabelo loiro e fino balança com o vento e você me abraça sem jeito, como quem diz “não sou bom nisso, mas gosto de você”. Você está no outro lado do mundo, mas às vezes sinto sua presença.

Apanho às pressas os nossos pertences jogados pelo chão e saio correndo atrás de você. Está escuro, te procuro por todas as partes. Grito seu nome, mas ninguém o entende. Desesperada, entro numa casa enorme e invado todos os quartos numa tentativa insana de te encontrar. Atrás de cada porta vejo casais dormindo tranquilos, como se meu pior pesadelo não importasse. Tenho esperança de nos ver em algum destes casais, dormindo um sono pesado, seu braço em cima de mim quase me sufocando. Me levanto sem forças. Vou em passos lentos até o banheiro e lavo o rosto com a intenção de lavar todos os resquícios seus da minha memória.

Nem um bilhete você me deixou. Encontro sua carteira cheia de folhas numa poça cheia de lama e vejo que você guardava uma foto minha. Sorrio triste. No fundo, sei que não passa de um sonho.


Ilustração por Gabi Cesar

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