Todos os degraus de uma escada

Colagem por Beatriz Brandão

Mal toquei o interfone e já me arrependi de ter saído de casa. “Oi, bom dia. Vou no salão de festas”, falei para o porteiro. Há quanto tempo eu não via aquelas pessoas? Quinze? Vinte anos? É normal perder as contas assim? “Bom dia, moça. Você segue reto e sobe as escadas até o fim. Daí você vira a esquerda e é logo o primeiro corredor. Qual teu nome?”, me respondeu gentilmente. Dez anos. Fiz as contas correndo. Parece muito mais, credo. O tempo relativo entre o dia da formatura e hoje parece que me envelheceu umas noventa vidas. Ou eu já era velha e parei no tempo só por diversão? “Emengarda. Emengarda Celestina”, repliquei.

É. Sou a Emengarda Celestina de sempre, agora com 27 anos, 65 kg, três graus de miopia e quatro reais na carteira.

Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, dezessete vezes em degraus muito altos para os meus 1,45 cm. Enquanto eu me esforçava, me vinham flashs na cabeça. As crianças todas corriam e eu estava suada, como sempre, com minha camiseta nova, branquíssima, atolada dentro da bermuda azul-marinho com o desenho do colégio na barra. Tudo parecia diferente e limpo na minha primeira vez em uma escola particular. A maior surpresa foi o banheiro. “Parece de shopping”, pensei enquanto aproveitava o cheiro de limpeza. Lá na outra escola não tinha isso não. Tinha cheiro de merda e mijo, das maquiagens das meninas mais velhas do colegial, de ralo, de pobre. Tinha a Loira do Banheiro. Eu fui uma vez lá e uma pequena gritava que nem louca que era pra eu não entrar que a loira tava lá dentro. Daquela loira eu tinha pavor, mas acho que ela era mais boazinha que as meninas mais velhas do meu colégio.

Eu tive uma dor de barriga uma vez e não aguentei segurar. Fui correndo para o banheiro e, no primeiro que vi aberto, abaixei a bermuda e me apoiei nas pernas e na parede pra não encostar no vaso. A porta não tinha trinco e as meninas que me viram correndo foram lá atrapalhar meu momento íntimo. Comecei a gritar, dizer que tinha gente lá dentro e elas nem ligaram. Depois subiram no vaso da cabine ao lado e ficaram me olhando cagar lá de cima, naquela posição de galinha que bota ovo.

Escada. Subir as escadas até o fim, virar esquerda e entrar no corredor. Fico tentando desenhar o caminho na mente pra não me esquecer e não desistir. Primeiro, segundo, terceiro, quarto degrau. Ainda falta uns quarenta. Sinto o músculo da coxa esquentando. As crianças estavam correndo e todas elas corriam muito. Brincavam de Mãe da Rua, e viram de longe e sorriram. Ou riram? Agora me escapa. Acho que eu também era inocente, apesar de tudo.

“Emengarda”, respondo quando me perguntam o nome e aí, sim, lembro que foram risadas. Eu ri também, pra não ficar chato. “Posso brincar?”, “Pode, tá com você!” e logo todos correram e se encostaram na parede. Quando viram que eu jamais conseguiria os alcançar, passaram a andar todos ao mesmo tempo e eu ficava perdida no meio do pátio sem saber de quem correr atrás, confusa. Teve um dia que eu cansei de brincar. O Alê gritou “a baleia desistiu!” e todo mundo se mijou de rir. Eu também ri.

Metade da escada, subir até o fim, esquerda, corredor. Era esse mesmo o caminho. Passo por uma porta de vidro e vejo meu reflexo. Paro por alguns segundos e contemplo meu cabelo preso ao topo da cabeça. Hoje em dia minhas orelhas já estão coladas junto ao meu corpo. Lembro que trabalhei meio ano sem almoçar só pra juntar a grana da comida para pagar a cirurgia plástica. Hoje parece que não faz diferença. Naquele dia, aquele que a professora passou o filme do Dumbo, faria muita. O Alê, que já tinha decorado um vocabulário inteiro de sinônimos para “criança gorda”, combinou com a classe toda de irem com as camisetas enfiadas pra dentro da calça me imitando.

Mais dois degraus e eu estou lá no final. Esquerda, corredor. O caminho não muda nunca, mas, sim, a forma como o desenhamos em nossa mente. Eu tinha que passar pelo primeiro e o último degrau, assim como passei pela quinta série até o terceiro colegial. No terceiro ano, eu já não era mais a mesma. Digo, todos sempre somos a mesma pessoa, unidos pelo fato de nunca definirmos exatamente quem somos. Me perguntaram certa vez quem eu era e emudeci considerando se responderia meu nome, minha idade ou minha profissão.

Na faculdade, aprendi a separar as pessoas por categorias. Sexo, classe social, idade, localização geográfica. Oi, eu sou a Emengarda, 27 anos, mulher, residente de São Paulo. Oi, eu sou a Emengarda, minha mente tem 60 anos, meu corpo tem 18, não decidi ainda meu sexo e vivo no espaço.

Ainda me falta virar a esquerda e andar pelo corredor. Fico imaginando quem está nessa maldita festa e qual antidepressivo me convenceu a enfrentar meu sábado a tarde remoendo lembranças de uma adolescência que já disse “adeus, nunca mais volte”. Não tive o abraço da formatura de um amor deixado nos muros do colégio. Não tive nem o vestido molhado de ponche que alguém, por me odiar, houvesse derrubado em mim.

Teve uma vez, sim, que derrubaram ácido no meu avental da aula de química. A mais gostosa da classe, a Ju, tinha entrado no laboratório toda ofegante e cheia de risinhos com a Lu, que era sua melhor amiga. Aquela sonoridade infantil de Ju e Lu misturadas aos chiadinhos infelizes de suas glórias hormonais com os meninos do 3º colegial me faziam querer vomitar a coxinha do recreio, assim como elas mesmas faziam. Sempre as via vomitando o lanche para não engordar e na minha cabeça supus que aquilo era nojo delas mesmas. Eu também me vomitaria se fosse uma delas. Mas a professora reparou logo que elas iam perturbar a aula e as separou, colocando a Ju pra trabalhar comigo. O Gustavo falou logo um “vai tirar dez finalmente”, e ela riu satisfeita. Acho que a classe toda riu. Dessa vez eu não ri.

Quando disse pra ela que eu não ia fazer trabalho nenhum, ela tacou o ácido em cima do meu avental. Aí sim, a classe toda riu novamente, mas não foi por causa dela ter feito aquilo, foi por eu ter caído de costas na bancada, com medo de ele corroer o pano até chegar na minha pele. A professora gritou “joga água!” e o Alê catou a mangueira e começou a me dar um banho ali na frente de todo mundo. Tirei o avental correndo enquanto ele ainda me jogava água e eu só fui reparar que estava completamente molhada, com a camiseta transparente, depois que a professora acalmou aquela balburdia. Eu tremia de frio, era agosto, e o casaco tinha ficado lá na classe. Saí correndo, com as banhas marcadas pela blusa que grudava molhada em meu corpo, e tudo balançava, mas o frio era tanto que desisti de tentar esconder o que não era segredo pra ninguém. Não ri mais, por muito tempo.

O corredor é curto e é o tempo exato para eu calcular com qual sorriso eu devo dizer “olá”. Pode ser o sorriso do professor que tirou minha prova quando a Bel jogou o papel de cola em cima da minha mesa. Pode ser o sorriso do Álvaro, quando acharam no meu caderno escrito o nome dele em volta de um coração. O sorriso de todas as vezes que não me chamaram para o time de futebol. Logo vi que aquilo seria como a minha primeira festinha da escola. Era na casa do Ricardo e colocaram a música “Two Become One” das Spice Girls pra turma dançar de parzinho. A Ju dançou com o Álvaro, a Lu com o Alê, a Bel com o Gustavo. Todo mundo tinha o seu par, menos eu e o Gabriel, o moleque mais asqueroso da classe. A Ju viu e começou a gritar o nosso nome e ele, a contra-gosto, me tirou do sofá. E hoje? Eu vou ficar no sofá, comendo amendoim, esperando a gostosona gritar meu nome e lembrar a todos que eu ainda estou sozinha e com uma roupa de ponta de estoque? O Álvaro vai dar risada quando lembrar que eu gostava dele e o Alê vai gritar que eu emagreci 48 kg?

Abro a porta e o salão está cheio. Acendo um cigarro e sento ao lado do cinzeiro. Nada, nunca, irá mudar. Os anos que me desenharam queimam a cada tragada e cada riso rasgado no meio da música alta. Alguém se aproxima. Abro o sorriso de Emengarda e assopro a fumaça pela janela.


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