Mercado de Energia: Quem ganha e quem perde com a greve de caminhoneiros?

Hoje, 30 de Maio de 2018, a greve de caminhoneiros, que vem impedindo a entrega de todos os principais bens de consumo nas cidades brasileiras, parece estar chegando ao seu fim, após dez dias. Os combustíveis — gasolina, óleo diesel e etanol — certamente se destacam como principais produtos de que os brasileiros sentem falta. O caderno de economia do Estadão já ressalta que “Em oito dias de greve, perdas de grandes setores já superam R$ 34 bi.”


A eletricidade é usada em tudo que fazemos, seja em residências, empresas ou indústrias, todos utilizamos eletricidade e mudanças nas rotinas impactam diretamente o consumo. Em um mercado que movimenta 200 bilhões de reais anualmente, eventos que geram aparentes pequenas flutuações significam movimentações em alta ordem de grandeza financeira.

Dentre as soluções da Greenant, oferecemos uma plataforma de monitoramento para gestão de consumo de energia. Acreditamos que análise de dados permite que as organizações tenham insights essenciais para tomadas de decisão estratégicas.

Tendo isto em mente, decidimos investigar quais agentes da economia estão perdendo ou ganhando dinheiro com esta crise. Para isso analisamos os dados de consumo de alguns dos nossos principais clientes a fim de tentar entender de que maneira essa situação vem afetando os seus gastos com eletricidade e, a seguir, tentar traçar um panorama das potenciais perdas financeiras que este tipo de situação caótica pode gerar.

Alguns pontos chave que identificamos como potenciais problemas são:

  1. Falta de combustível diesel para acionameno de geradores em horário de ponta;
  2. Significativa redução do consumo de uma unidade consumidora em certos horários, o que reflete diretamente uma redução em sua operação e, consequentemente, no seu ganho financeiro;
  3. No comércio de alimentos, redução do consumo com refrigeração, por falta de necessidade de estocar produtos perecíveis — que afinal não foram entregues!

Desenvolvemos uma funcionalidade na nossa plataforma que exibe o perfil padrão de consumo. Resumidamente, utilizamos modelos para caracterizar tendência e sazonalidade do consumo de cada um de nossos clientes.


Quanto perde quem tem geração na ponta?

Um de nossos clientes utiliza gerador a diesel para fornecer energia para sua operação durante o horário de ponta (período em que o preço das tarifas de energia mais que duplicam). Ele tem o seguinte perfil de consumo diário nos dias de semana:

Vemos que, durante o horário de ponta, a quantidade de energia que ele consome do grid é zero, já que ele consome exclusivamente a energia proveniente do seu gerador a diesel. Com a greve, o abastecimento do combustível foi reduzido a quase zero e verificamos a nova cara do consumo diário deste cliente:

A partir dessa verificação, decidimos calcular, baseando-se em sua tarifa, o aumento de suas despesas com energia aumenta devido a essa mudança. Este cliente, cujo contrato de energia com a distribuidora Light-RJ é do tipo verde, paga, contando com impostos (ICMS, PIS/COFINS), R$ 2.70/kWh. Desta forma, sua despesa horária média durante o período de ponta, em épocas normais, é de R$ 8,27 por hora; com a falta de diesel e consequente consumo na ponta, sua despesa foi para R$ 156,41 por hora, o que significa um aumento em mais de 18 vezes no seu gasto com energia ativa em horário de ponta!

Devemos ainda verificar o quanto de “economia” foi feita em combustível por não utilizar o gerador. Considerando um dimensionamento correto do seu gerador a sua potência máxima de cerca de 138,45 kW e fator de potência de 0.8, podemos imaginar que seu gerador deve ter cerca de 170 KVA. A seguir, estimamos sua potência média na ponta de 82,19 kW e verificamos que seu custo com diesel é na ordem de R$ 91,42 por hora. Dessa maneira podemos estimar que essa organização está com um acréscimo de mais de 70% nas suas despesas com energia no horário de ponta.

Pior ainda para organizações que utilizam geração na ponta e possuem contratos do tipo azul: estes pagam multa por ultrapassagem de demanda, então seu aumento despesas será ainda maior!


Varejo de Alimentos

A seguir, investigamos os dados de uma franquia de uma rede de fast-food no Rio de Janeiro. Nossa hipótese inicial: com a falta de entrega de mercadoria perecível, o estabelecimento iria diminuir suas despesas com energia e também suas vendas, refletindo diretamente em uma redução de seu faturamento. Comparando o consumo do período da greve com seu perfil diário verificamos que de fato houve uma significativa redução.

Auge da crise de abastecimento a partir do dia 24/05, quinta-feira, significativo desvio em relação ao perfil padrão

O erro típico do modelo ajustado é de cerca de 9% em períodos normais, enquanto, no período da greve foi de 21%! Isso significa que houve uma redução de cerca de 90,5 KWh por dia de consumo que, em um consumo de cerca de 800 KWh por dia, representa mais de 10% de redução. Imaginando que essa redução ilustra diretamente a redução de faturamento da empresa, pela falta de produtos para venda, verificamos um significativo dano às finanças da organização, que mantém seus custos fixos e reduz sua operação.


E quem está ganhando?

Sabemos que as comercializadoras de energia podem vender seu excedente energético pelo Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). No período seco atual, os valores do PLD estão em alta anual.

Atualmente, estima-se que as comercializadoras praticam preços na faixa de 200-280 R$ / MWh para seus consumidores. Portanto, com a alta do PLD, as comercializadoras ganham ao liquidar seu excedente comprado, uma vez que vendem por cerca de R$ 325 / MWh ao invés dos típicos 200–250 R$ / MWh.

Observamos a curva de carga de um de nossos clientes que compram no mercado livre de energia e verificamos significativa redução do seu consumo em relação ao seu perfil padrão

Este é somente um exemplo de diversos grandes consumidores que compram no mercado livre de energia e cuja redução no consumo energético reflete diretamente uma redução na sua operação. Portanto, se por um lado esses agentes da economia estão se desfavorecendo com a situação, suas comercializadoras estão se beneficiando, já que tal redução no consumo representa um grande excedente de energia sobre o qual podem obter lucro através da venda pelo PLD, neste atual momento de alta.


O que aprendemos?

O mercado de energia é complexo e dinâmico. Eventos como essa crise de abastecimento geram flutuações aparantemente pequenas, mas que podem significar grandes perdas, ou até mesmo ganhos (!), para as organizações.

Assim, acreditamos que acesso a dados de qualidade são essenciais para que gestores tomem as decisões corretas rapidamente para melhor guiar seu negócio.