Eleições na Unesp: saiba porque o processo não é democrático

A Unesp está em “processo eleitoral” para eleger um novo reitor, que estará à frente das decisões da universidade de 2017 a 2021. No entanto, o processo é apenas uma consulta. O momento é de crise e ficar atento a este processo é crucial para a conquista das pautas estudantis.


Candidatos participando, debatendo, visitando os campi, dando entrevistas e tentando conquistar os votos da comunidade. Tudo nos conformes, né? Seria, se o processo eleitoral que elege um novo reitor para a Unesp não fosse completamente antidemocrático.

Primeiro porque quando se vota não se está elegendo o reitor, mas sim uma lista tríplice que será entregue ao governador do Estado de São Paulo para que ele escolha quem ficará a frente da Unesp (lista tríplice, três candidatos, sacaram?). Ou seja, não é eleição, é consulta.

Segundo porque não é qualquer docente que pode pleitear o cargo: é preciso ter uma titulação mínima para poder se candidatar, no caso, ser professor titular. E o que é preciso para ser titular? Segundo regimento da Unesp, no mínimo ter 6 anos de livre docência, concluir 5 orientações na pós-graduação, ter publicado no mínimo 20 artigos científicos, coordenado três projetos de extensão, ter participado de 4 órgãos colegiados e ter no mínimo 6 mandatos, isso para dizer a metade das exigências. A lista é enorme. O fato é que são pouquíssimos professores que atualmente são titulares e podem se candidatar a reitor.

Terceiro porque a eleição não é paritária (as três categorias com o mesmo peso na votação), mas nem sempre foi assim, conforme diz a Adunesp (Associação dos Docentes da Unesp). No ano de 83, com a mobilização das três categorias e com o DCE Helenira Resende ativo, foi conquistada a eleição paritária para reitor. Foi assim até o ano de 1996, quando foi revogada pelos setores conservadores e retrógrados da universidade, na contramão das experiências democráticas que se observava em outras universidades. Atualmente os docentes têm 70% no peso de decisão, os técnicos-administrativos 15% e os estudantes 15%.

Dificuldades de gestão

O fato é que o novo reitor enfrentará grandes dificuldades em sua gestão. A Unesp enfrentou 3 greves nos últimos 4 anos por conta da política neoliberal implementada no ensino superior público pelos sucessivos governos do PSDB.

Pouco investimento e repasse de verba, má gestão, sucateamento da graduação, corte de bolsas de extensão, arrocho salarial para os servidores, quebra da isonomia entre as três universidades paulistas, congelamento da contratação de servidores docentes e técnicos administrativos e o pífio aumento de políticas de permanência estudantil marcam as últimas gestões da Unesp.

Mesmo sem a contrapartida financeira do Governo do Estado, a Unesp expandiu o número de campi e cursos de engenharia nos últimos anos, o que contribui muito para a falta de recursos existentes hoje.

Tudo isso ocorre quando finalmente a Unesp aprova a reserva de vagas para estudantes de escolas públicas, mas também sem a contrapartida financeira necessária. Dados da Coordenadoria de Permanência Estudantil (COPE) mostram que é preciso R$ 212 milhões de reais para ampliar o número de bolsas, vagas nos R.Us e moradias estudantis para atender o programa de reserva de vagas aprovado em 2013. No entanto, em 2016 foi investido apenas 14 milhões em permanência estudantil, segundo dados do orçamento de 2016 da Unesp.

Propostas dos candidatos

Na disputa pela reitoria com mandato de 2017 a 2021, estão três chapas com diferentes planos de gestão, conheça mais sobre elas:

ChapaUnesp inovadora, sustentável e participativa: renovação com planejamento”:

A chapa traz como candidato a reitor o professor doutor Sandro Roberto Valentini, formado em Farmácia-Bioquímica pela Unesp, e como vice o professor doutor Sergio Roberto Nobre, graduado em Matemática pela Unicamp. Eles iniciam suas propostas pela graduação, trazendo como algumas das ações principais a flexibilização dos currículos de graduação “ de forma que os graduandos possam escolher repertórios distintos de disciplinas de qualquer área do conhecimento, oferecidas nas diferentes Unidades da Unesp”, e estratégias para desenvolver as licenciaturas “ com vistas ao aprimoramento do modelo de formação de professores e, consequentemente, à melhoria da escola básica contemporânea”, diz o plano.

Na área da permanência estudantil, o plano de gestão cita o Pnaes (Plano Nacional de Assistência Estudantil), programa do governo federal de permanência estudantil voltado para as universidades federais, citando, ainda, sem detalhes específicos, a proposta de aperfeiçoar o atendimento nos restaurantes universitários e moradias estudantis, sobre os demais auxílios os candidatos prometem implantar as novas modalidades de auxílios de permanência estudantil estabelecidos no Pnaes. Aqui você encontra o plano de gestão completo.

Entrevista da chapa “Unesp inovadora, sustentável e participativa: renovação com planejamento” para a TV Unesp

Chapa “Unesp para todos”:

Os candidatos são a professora doutora Maria José Soares Mendes Giannini também formada em Farmácia-Bioquímica pela USP, e atual Pró-Reitora de Pesquisa na Unesp, e como candidato a vice-reitor está o professor doutor Roberval Daiton Vieira, graduado em Agronomia pela antiga Faculdade de Medicina Veterinária e Agronomia de Jaboticabal, atual campus da Unesp.

Citando as chamadas atividades-fins da universidade, ensino, pesquisa e extensão, os candidatos visam, na graduação “ formar recursos humanos criativos, empreendedores, socialmente responsáveis, e líderes em seu campo de atuação, capazes de enfrentar os desafios da sociedade, e promover as transformações necessárias.”, como aparece no plano. Sobre o ensino à distância (EaD), a chapa acredita que pode ser utilizada tendo em vista a geografia dos campis da Unesp, que são distribuídos pelo estado.

É muito importante frisar que essa chapa não apresenta nenhuma proposta em seu plano de gestão voltada à permanência estudantil, de modo que, se essa for a vencedora para o mandato dos próximos 4 anos a frente da Unesp, nenhuma medida quanto à permanência é planejada. Leia o plano de gestão completo.

Entrevista da chapa “Unesp para todos” para a TV Unesp

Chapa “Novos caminhos para a Unesp”:

A candidata a reitora pela chapa é a professora doutora Maria do Rosário Longo Mortatti, formada em Letras pela a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara, que atualmente trabalha no campus da Unesp de Marília, e quem concorre ao cargo de vice-reitor é o professor doutor Fernando Augusto Silva Marins, graduado em Engenharia Mecânica pela FEG da Unesp.

Em seu programa de gestão, ao falar da graduação e ensino, a dupla cita a falta de professores efetivos e dos demais funcionários nos campis, lembrando o “produtivismo” presente na Universidade, que desvalorizam as atividades de ensino. Falando sobre a pós-graduação e a pesquisa, a chapa afirma que “É chegado o momento de a Unesp adotar uma postura mais autônoma em relação à política brasileira de fomento à pós-graduação e à pesquisa, bem como assumir protagonismo na pesquisa nacional”.

Ao introduzir suas propostas de permanência estudantil, a chapa reconhece que a Unesp “ demorou demasiadamente para se preocupar com as questões”, tendo isso em vista, os candidatos apoiam a criação dos NULPES (Núcleo Local de Permanência Estudantil), que já vem sendo discutido pela Comissão Permanente de Permanência Estudantil (CPPE), e ainda, incluem como uma de suas propostas, a reivindicação junto ao Governo do Estado pelo repasse de verba que assegure a permanência de estudantes socioeconomicamente carentes, que ingressam pelo sistema de reserva de vagas. O plano de gestão completo pode ser lido aqui.

Entrevista da chapa “Novos caminhos para a Unesp” para a TV Unesp

No dia 29 de setembro às 14:00 horas, a TV Unesp realizará um debate entre os candidatos a reitor e vice-reitor.

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