Tradução: “Linguagem, gênero e política”, de Robin Lakoff

Isadora Szklo
Nov 4 · 3 min read

O fragmento abaixo foi traduzido de uma publicação de 2003 da linguista Robin Lakoff chamado Language, Gender, and Politics: Putting “Women” and “Power” in the Same Sentence (Linguagem, gênero e política: colocando “mulheres” e “poder” na mesma frase). Essa publicação fez parte do Handbook of Language and Gender (Manual de linguagem e gênero) de Janet Holmes e Miriam Meyerhoff. Algumas páginas do livro estão disponíveis aqui, em inglês.

Traduzido por Isadora Szklo.


A linguagem reflete e contribui para a sobrevivência de estereótipos. Pra citar alguns exemplos, há diferenças lexicais no jeito que falamos de homens poderosos e mulheres poderosas. Por exemplo, usamos palavras diferentes pra descrever comportamentos muitas vezes iguais executados por homens e mulheres. O Inglês (como outras línguas), tem muitas palavras pra descrever mulheres interessadas em poder, pressupondo que sua atitude é inapropriada. “Shrew” (megera) e “bitch” (vaca) são alguns dos mais educados. Não existem equivalentes dessas palavras pra homens. Porém, existem palavras que pressupõem conotação negativa para homens que não dominam “suas mulheres”, como “henpecked” e “pussywhipped” (algo como pau mandado). Não existem equivalentes para mulheres.

Muitos provérbios e contos de fada funcionam como manuais de instrução para as jovens (e as não tão jovens), avisando as mulheres dos perigos de ser assertiva, mas encorajando essa característica nos homens. No conto de fadas “Seven at One Blow” (“O alfaiatezinho valente”, dos Irmãos Grimm), o pequeno alfaiate, que matou sete moscas em um só golpe, enfeita-se com um cinto para gabar-se do ocorrido. Ele enfrenta alguns problemas, mas eventualmente, triunfa. A lição: ser assertivo traz sucesso ao homem. Enquanto isso, em outra história, “The Six Swans” (“Os seis cisnes”, dos mesmos autores), os seis irmãos de uma menina são transformados em cisnes. Ela tem o poder de fazê-los voltar ao normal somente se ficar sentada em uma árvore por sete anos, costurando camisetas com margaridas para eles. Se falar uma palavra durante todo esse tempo, ela falhará. No fim, ela obtêm sucesso, apesar dos terríveis obstáculos. A lição: silêncio e obediência são o caminho do sucesso para uma mulher.

Pra além disso, temos diferentes expectativas sobre como um homem e uma mulher devem conduzir-se linguisticamente. Espera-se que homens sejam diretos, e mulheres, indiretas. Essa distinção por si só não necessariamente cria uma desvantagem para a mulher, mas é a base de duplo vínculo (relacionamento contraditório) muito familiar. Se uma mulher é indireta em seu discurso, ela é muitas vezes tachada de manipuladora ou confusa. Se ela é direta, ela pode ser chamada de megera ou vaca.

A organização de uma conversa reflete a discrepância de poder entre homem e mulher, especialmente quando comparamos descobertas empíricas sobre os turnos de fala, sobre quem fala mais do que quem. Controle do tópico de conversa e “floor-holding” (falar para um grupo de pessoas sem deixar que te interrompam) são associados com poder na esfera conversacional. A suposição tradicional é que as mulheres falam muito mais em uma conversa, geralmente falando sobre nada importante. Mas em 1980, Spender descobriu que os homens são responsáveis pelo “floor-holding” 80% das vezes. E ainda mais surpreendentemente, quando a participação de um homem na conversa é, em números, de 70% dos turnos, tanto mulheres como homens partem da premissa de que a conversa foi dominada pela mulher. Outra pesquisa mostra que o homem é o responsável pela maioria dos tópicos bem sucedidos num grupo misto de pessoas, enquanto as tentativas femininas são ignoradas por todos. Fishman, em 1978, sugere que, em relações íntimas, as mulheres são responsáveis pelas “shitworks” (DRs, parte ruim de um relacionamento), sem sequer receber respostas mínimas do homem. Em uma pesquisa mais recente, foi sugerido que uma forma que os homens encontram para manter a dominância discursiva é com comportamento violatório de interrupção das mulheres.

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feminismo fora da estante

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