Afinal, o que importa mais: prática ou teoria?
Quando passamos pela construção de um partido, movimento social ou outro processo que envolva a prática e a teoria, muitas vezes nos é colocado em cheque uma questão muito importante: o que deve guiar o movimento, a prática da luta ou teoria que se é construída?
Como Stalin escreve em Sobre os Fundamentos do Leninismo, muitos acreditam que o Leninismo foi a vitória da prática sobre a teoria, sendo assim, a política da classe/partido deveria ser guiada pela prática do dia a dia e a teoria ser deixada de lado. Mas como ele também afirma, essa argumentação é falsa e não está de acordo com a realidade. Ele diz:
“Alguns supõem que o leninismo é a primazia da prática sobre a teoria, no sentido de que nele o essencial consiste na transformação em atos das teses marxistas, na “aplicação” destas teses, e que, no que se relaciona à teoria, o leninismo, segundo eles, é bastante descuidado. É sabido que Plekhanov mais de uma vez escarneceu do “descuido” de Lênin pela teoria e especialmente pela filosofia. Também é sabido que muitos leninistas, ocupados hoje no trabalho prático, não são muito dados à teoria, por efeito, sobretudo, do enorme trabalho prático que as circunstâncias os obrigam a realizar. Devo declarar que esta opinião, mais do que estranha, a respeito de Lênin e do leninismo é inteiramente falsa e não corresponde de modo algum à realidade, que a tendência dos militantes ocupados no trabalho prático para não fazer caso da teoria contradiz por completo o espírito do leninismo e está cheia de graves perigos para a nossa causa.”[1]
Logo, Stalin, baseado em Lênin, já argumenta que apenas a ação revolucionária não é suficiente para a construção de um movimento que supra a necessidade de superação do capitalismo. Como ele atenta um pouco mais adianta:
“A teoria é a experiência do movimento operário de todos os países, considerada sob o aspecto geral. Naturalmente, a teoria deixa de ter objeto quando não se vincula à prática revolucionária, exatamente do mesmo modo que a prática se torna cega se não se ilumina o caminho com a teoria revolucionária. Mas a teoria pode converter-se em formidável força do movimento operário se é elaborada em união indissolúvel com a prática revolucionária, porque ela, e somente ela, pode dar ao movimento segurança, capacidade de orientação e compreensão dos laços íntimos dos acontecimentos que se verificam em torno de nós, porque ela, e somente ela, pode ajudar à prática a compreender, não só como e em que direção se movem as classes no momento presente, mas também como e em que direção deverão mover-se no futuro próximo.”[1]
E como podemos ver no trecho anterior, somente a teoria também é suficiente para a construção de um movimento de vanguarda. A prática revolucionária tem de estar lado a lado com a prática revolucionária. Nem somente a prática, nem somente a teoria construíram um movimento de vanguarda. Lênin também atenta a necessidade da formulação de uma teoria e, para além disso, evidencia a necessidade da formação política dos membros do partido. Ao ser questionado por outro camarada sobre as questões da organização do partido, Lênin o envia uma carta, que mais tarde, viria a ser distribuída em larga escala pelo Iskra, o primeiro periódico marxista da Rússia. Em sua carta, ele diz:
Estou de pleno acordo com você quando diz que devemos assinalar principalmente as tarefas a nível de toda a Rússia e de todo o partido em geral. Isso se expressa no primeiro ponto de seu projeto que diz: “O centro dirigente do partido (e não apenas de um comitê ou de uma região) é o jornal Iskra, que possui correspondentes permanentes entre os operários e está estreitamente ligado com o trabalho interno da organização”. Eu só faria uma ressalva, a de que o jornal pode e deve ser o dirigente ideológico do partido, desenvolvendo as verdades teóricas, as situações táticas, as idéias organizacionais gerais, as tarefas gerais de todo o partido, neste ou naquele momento.[2]
Lênin atenta ao fato da necessidade de um órgão que cuide do trabalho teórico, cuidando da formulação política, produção de literatura e dirigir ideologicamente o partido. Ademais, Lênin argumenta também a necessidade da existência de um órgão que cuide da prática direta e que se tem uma separação entre ambos. Um núcleo que dirige a ideologia do partido e o núcleo que dirige a prática e ação.
Mas veja, essa separação entre os dois órgãos, que na carta ele chama de Órgão Central(OC) e Comitê Central(CC) não deve resultar numa ação separada da teoria e nem numa teoria descolada da realidade e da prática. Ambas devem trabalhar num processo harmonioso e de unidade.
E como Lênin diz em Que Fazer?, “Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário”, indo um pouco além e dizendo:
“Só um partido guiado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda”
Esse texto é muito mais a reunião de alguns trechos de Lênin e Stalin sobre a necessidade da teoria ligada a prática, mas também uma prática ligada a teoria, buscando um processo em que nenhuma se sobressaia sobre a outra, mas que ambas possam caminhar juntar na construção do partido.
Escrito por Danillo Bueno. Estudante de Economia da Universidade Federal Fluminense e militante da Juventude do PT-RJ.

