Histórias de viagem para um lugar muito muito distante, parte I

por Gustavo de Paula

Saio da estação de Metrô, sento, espero meu ônibus chegar. Ele chega. Entro no 3210, sento na janela, uma menina linda, pele morena, cabelo cacheado passa pela catraca, senta do meu lado. Logo antes do motorista ligar o motor, entra um menino, uns 16 anos de idade, pula a catraca, nada de novo. O motorista arranca o ônibus.

Tiro “A propriedade é um roubo” de Proudhon da minha mochila. Abro e continuo a ler de onde tinha parado. Ouço um baralho vindo do teto do ônibus. Ignoro. Esse barulho se repete. Começo a estranhar. De novo, só que agora o ônibus inteiro olha para trás. Percebo o que está acontecendo.

Aquele mesmo menino que tinha pulado a catraca estava subindo para o teto do ônibus pela aquela entrada de ar que costuma ter no teto dos ônibus. Ele brigava com o motorista: “Vai rápido aí motô, tem problema eu caí não”. O motorista estava indo mais lento quando o menino subia. Mas ele subiu de novo. E o motorista voltou a andar mais lento.

E ele desceu de novo (nesse momento eu parei de ler o livro, porque né, tava interessante a situação) e continuou brigando com o motorista lá do fundo do ônibus. Ele vestia uma camisa polo, uma calça jeans e tinha um relógio, estava sozinho. O motorista respondeu o menino algumas vezes, depois desistiu. O menino subiu de novo.

Só que dessa vez os passageiros começaram a ficar mais raivosos. Começaram a falar pro motorista continuar, que tinham que chegar em casa, que o problema era do menino. Ele gritou lá de cima pro motorista acelerar. “Vai acelerar não?” e esmurrou o teto umas duas vezes. Depois de muita falação no ônibus, uma mulher levanta e chega na entrada por onde o menino havia passado e disse para ele descer, que trabalhou o dia inteiro e precisava chegar em casa.

Ele desceu, mas disse pro motorista acelerar. “Agora cê acelera! Esse ônibus não vai parar!”. O motorista acelerou, continuou a viagem. Enquanto isso ele ficava lá atrás gritando, falando, reclamando que o motorista estava indo “lento demais”.

Até que mais pra frente havia um Posto de combustível onde tinha um posto da PM. O motorista começou a buzinar e o garoto começou a lamentar: “Por favor motorista, eu não faço de novo, por favor!”.

Mas o motorista não parou, ele continuou buzinando até chamar a atenção dos policiais que estavam lá. Os policiais perceberam e o motorista parou o ônibus. O garoto continuava a tentar se redimir. Mas o motorista não voltou atrás.

Os motorista desceu do ônibus e foi falar com os policiais, eles já estavam com arma na mão (apesar de que, logo guardaram). O garoto desceu do ônibus e o policial o deitou ele no capô da viatura e o revistou. Ele não tinha nada ilícito com ele (arma, droga), aparentemente, só falta de consciência mesmo.

Tentei ligar pro meu pai. Não atendeu. Liguei pro meu vô. Aparentemente não entendeu nada. Tava uma discussão muito grande. Muita falação. O motorista falando pro policial o que aconteceu. As pessoas querendo ir embora. Falam para o motorista deixar para lá, mas ele estava certo. Precisava resolver aquele caso. Tive uma oportunidade de falar mais. Trocamos olhares.

As pessoas viram outro 3210 e mandaram parar, começaram a sair do ônibus. Eu saí também. Quando já estava quase entrando, na fila ainda, o motorista diz que vai prosseguir a viagem, decido voltar. Dou uma corridinha de uns 50 metros e consigo chegar.

Os dois ônibus já tinham começado a andar. No ônibus restou umas dez pessoas, discutiram um pouco sobre o caso, e depois continuou o silêncio que costuma ser. Olhei para trás e vi os outros passageiros e voltei olhar para frente.

Logo depois, entram mais 3 meninos, com boné de aba reta e aquele estereótipo que todos sabemos bem. Sentaram no fundo e apenas conversaram. Quem diria, o menino bem vestido é o que causa confusão e os estereotipados ficam de boa. A viagem continuou.

Chegou perto do meu ponto. Dei sinal. Sai do ônibus. Peguei meu celular, eram sete e meia, cheguei antes do toque de recolher. Ainda com o livro em meus dedos e minha mochila nas costas, comecei a caminhar até minha casa. À escuridão da noite, pensava sobre tudo que havia acontecido.


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