A long time ago, we used to be friends

Ou como meu melhor amigo deixou de ser

Handoff: Baulk via Facebook

Vinte e poucos, eu conheço uma pessoa que gosta dos mesmos filmes que eu, as mesmas bandas velhas que eu, as mesmas séries que eu e consegue ficar tão absorto em livros que eu. Essa pessoa será meu melhor amigo. E eu soube disso quando vi uma camiseta dos Beatles.

Durante uns três anos, eu tenho companhia. Eu tenho o que fazer aos domingos. Eu tenho para quem ligar e com quem conversar por horas. Eu não sei se ele entende o que eu digo, mas eu falo. Eu escuto também.

Eu escuto quando ele se apaixona por uma menina. Eu escuto quando a menina não liga para ele. Escuto quando ela volta a ligar.

Ele não escuta quando eu conto que esse tempo todo eu estava apaixonada por um colega. Ele diz “Ok”. Eu deveria ter suspeitado ali. Que tipo de amigo não se interessa por isso?!

Eu escuto, do lado dele, a conversa estúpida entre ele e a menina. “Isso não tá certo, você tem certeza de que ela merece?”. Ele precisa saber. Ele está apaixonado. É a pré-estreia de Matrix Reloaded, eu acho que poderíamos ter escolhido um filme melhor para ser o último filme que veríamos como antigamente.

Dois anos, nós só conversamos por e-mail. Ele está feliz, ele está apaixonado. Eu também estou apaixonada, por um moço a five hundred miles. Pessoas apaixonadas ficam abobalhadas, e eu sei que para ele é algo enorme alguém estar apaixonada por ele. Eu espero.

Esperei demais. O telefone toca

“Você sabe que ele está indo para outro estado?”

“Quando?”

“Amanhã”

Não vou me despedir. Se ele não se importou em me avisar, para quê eu vou me importar com qualquer coisa?

Seis meses depois, um e-mail, “estou com saudades, não sei se você sabe, eu me mudei”. Hahahahaha. Eu sei e na verdade eu tô meio puta com isso, saca o Paul quando conheceu a Yoko? Eu deveria ter sabido. E você nem me apresentou a Yoko. Mas eu ainda gosto de você, você tá bem?

Está tudo bem, ele vai casar. Que bom. (Acho que vou ser madrinha)

(Não vou ser madrinha. Chegou um convite, sem direito a acompanhante. Assisto a cerimônia, não vou à festa. No mesmo dia passa O casamento do meu melhor amigo e eu começo a chorar.)

Eu encontro vários Rupert Everetts e passo a detestar com todas as forças You’re my best friend do Queen.

Seis anos depois, ele volta à cidade. Vamos ao cinema? Vamos, claro. Fica para outra semana, outro mês. Eu acho graça e passo a comentar que aprendi que, para lidar com ele, é preciso entender que ele tem buffer. Friend is loading… 37%… 49%…

Mais um pouco e ele está deprimido, ele está separado, ele vai se matar, a vida está uma merda. É hora de ativar a heroína, é hora de ir ao resgate. Mas qual versão é esperada?

Dez anos se passaram, tivemos um reboot. Quando ele conheceu a heroína, ela era apenas uma ajudante, ela sempre dependia que ele explicasse as coisas. Agora ela ganhou mitologia própria, muito interessante de acompanhar. Ele é convidado a se juntar à Liga dos Amigos da Heroína, todos são divertidos, cada um tem um superpoder diferente.

Ele não quer ser parte de uma Liga. E a outra metáfora que eu penso em oferecer não está à altura. Por mais que eu tente, eu nunca seria a Meg Ryan.

Eu troquei o nome dele no telefone. Eu faço piadas sobre ele. Eu não acho tanta graça assim. Eu realmente esperava chegar aos 64 e enviar cartões postais. Mas nós passamos nos arrastando dos 34.

Ainda restam, no entanto, as músicas. Ainda que eu tenha descoberto versões diferentes… In my life, I’ll love you more.

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