20 coisas que eu aprendi com Harry Potter

O que 16 anos de amor me ensinaram

Hoje, dia 26 de junho de 2017, é muito mais do que uma segunda-feira: há exatos 20 anos era publicado no Reino Unido pela primeira vez Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Embora para muita gente isso não faça a menor diferença, e hoje continue sendo só mais uma segunda-feira fria, para os milhões de leitores da série Harry Potter esse é um dia especial, porque marca o início de tudo. Marca o início de uma jornada literária que iria durar 10 anos, de uma saga cinematográfica que se estendeu por mais 10 anos e de uma relação com os fãs que não dura menos do que o resto das nossas vidas.

Ok, ok. Talvez você ache que eu estou me empolgando. Você tem certeza de que eu estou exagerando e se pergunta por que dar tanta importância a esses livros que, digam o que disserem, você ainda acha que são feitos para crianças e não passam de entretenimento.

Então eu peço que você me conceda só o tempo de leitura desse texto (11 minutos, de acordo com o Medium), pois vou tentar explicar o que acontece nessa loucura chamada fandom de Harry Potter e o que esses livros fizeram comigo em específico, mas também, tenho certeza, com a maior parte dos fãs.


Existe um motivo simples para que Harry Potter seja um sucesso tão grande e não há como não partir dele: trata-se de uma ótima história.

Sim, é uma saga que se iniciou na literatura infantojuvenil, mas que jamais se enxergou como menor ou menos digna por isso (e por que deveria?). Isso quer dizer que, embora a escrita e a narrativa no primeiro livro sejam muito mais simples do que no último, a história é promissora e cativante desde o início. O universo já se mostra complexo no primeiro capítulo e se vê claramente que não se trata de algo criado como desculpa para contar uma história ou um pano de fundo qualquer: o universo em que se passa a narrativa é quase um personagem à parte, com regras, lógica e um sistema interno de funcionamento.

Assim, mergulhar nesse mundo é uma experiência fascinante e enriquecedora, principalmente porque desde o primeiro livro a habilidade descritiva de J.K. Rowling se mostra primorosa.

Um dos meus passatempos favoritos, inclusive, é buscar referências nos livros: uma frase que aparece no quinto e ressurge no sétimo, um detalhe do segundo que vem a ser importante para o desfecho da história, uma pista simples no primeiro que guarda toda uma história paralela que veremos somente nos últimos capítulos da saga.

Acompanhar o desenvolvimento das habilidades narrativas da J.K. também é fascinante: se o primeiro livro emociona (eu sempre choro, ok?) pela inocência dos personagens, o último emociona pela beleza e delicadeza da escrita quando explora temas densos e terríveis, como a morte e a guerra.


Mas existe também um outro motivo, maior e mais importante.

Quando fui fisgada por Harry Potter, aquela foi a isca: magia, crianças da minha idade, uma leitura agradável, uma história interessante passada num universo fascinante. Mas não foi isso que me manteve no fandom por 16 anos. Principalmente: não foi isso que definiu a importância de Harry Potter na minha vida.

Enquanto eu cresci e fui me formando como pessoa, enquanto fui me reconhecendo enquanto indivíduo inserido na sociedade mas sempre carregando minhas individualidades, que nem sempre eram bem vistas pelos outros, ter os livros e os amigos que fiz por causa deles como apoio foi o que me sustentou.

Quando eu odiei meu corpo por ser diferente do resto das meninas da minha sala, foi poder ver uma menina valorizando a inteligência e não a beleza que me fez seguir em frente. Quando compreendi que era lésbica, aos 14 anos, foi ver uma menina sendo amada e valorizada pelos amigos independente de não seguir a mesma lógica que eles que me fez ter forças. Quando precisei me reinventar ao entrar na faculdade, sozinha e sem amigos, foi a certeza de ter aqueles personagens como uma constante na minha vida que me ajudou a aguentar.

Além de me ajudar a lidar com meu interior, Harry Potter me ajudou a compreender a sociedade e, principalmente, de que lado eu quero estar na sociedade. Por se tratar de livros extremamente políticos, seja nas suas analogias ou nos seus posicionamentos, crescer lendo a série fez com que eu formasse desde cedo uma noção clara do que enxergo como certo e errado, mas sempre mostrando que as coisas (e principalmente as pessoas) não podem ser vistas de forma maniqueísta: todos nós temos muitas camadas.

Harry Potter me ensinou muitas coisas e nesse potterversário (obrigada pelo termo, Anna ❤) eu resolvi separar 20 delas, uma pra cada ano, pra dividir com as pessoas.


Ser diferente não te faz melhor ou pior do que ninguém. Acreditar que você merece menos ou vale menos por não se encaixar num padrão é a maior falácia que você pode contar a si mesmo. E o contrário também: não ache que por diferir da maioria você está acima dela.

É normal julgar as pessoas pela aparência, mas sempre esteja aberto a mudar de opinião. Vivemos em uma sociedade que nos ensina a fazer isso 24 horas por dia e é muito difícil se livrar desse hábito. Somos, na verdade, psicologicamente afetados por primeiras impressões. Tudo bem. O que importa é: esteja disposto a dar uma chance à segunda, terceira ou milésima impressão que alguém lhe causar.

É importante observar as tradições e hábitos ao nosso redor e, se for o caso, questioná-los. Não importa o tamanho da luta. Não existe mudança social sem análise das conjunturas atuais e passadas. Se a estrutura do sistema te incomoda ou te oprime de alguma forma, leia ela na sua totalidade e sim, lute o quanto precisar para mudá-la.

Todas as nossas ações têm consequências que podem mudar a vida de alguém, seja pra melhor ou pior. Faça de tudo para que seu efeito seja o melhor possível. Se você vai marcar a vida de alguém (e você vai), tente fazer isso de forma produtiva e importante. Seja alguém que oferece lembranças e experiências positivas.

Ser mulher não pode me impedir de fazer nada — e se alguém disser o contrário, está errado. Você não precisa deixar de estudar o que quer, praticar o esporte que ama ou ter menos liberdade sexual por ser mulher. Una-se a outras mulheres, lute e prove que o nosso lugar é onde nós quisermos estar.

Pessoas diferentes podem se unir em torno de uma mesma causa por motivos diferentes e é importante respeitar o background de cada um. Por mais parecidas e unidas que as pessoas de um grupo possam ser, ninguém tem a mesma história e cada um é movido por uma força diferente. Aproveite isso para enriquecer a luta.

A injustiça pode aparecer onde menos esperamos e temos que estar sempre atentos para nos opormos a ela. Não é porque a ação vem de onde esperamos que venha a justiça que ela é justa. Todos os lugares e pessoas são elegíveis para tomar atitudes questionáveis. Esteja pronto para duvidar sempre.

Nenhuma instituição pode ser confiada cegamente: instituições são feitas de pessoas e pessoas são falhas por definição. Nós não temos absolutamente nenhuma garantia de que qualquer instituição esteja isenta de errar ou tomar decisões em benefício de si própria. Nenhuma pessoa pode ter esse voto de confiança e são pessoas que formam todas as instituições.

Não se abstenha de falar sobre as coisas. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si. Aponte o machismo, aponte a homofobia, aponte o racismo. Nomeie as coisas pelo que elas são. Não é deixando de falar sobre as coisas e agindo como se elas não existissem que vamos contribuir para a sua derrocada, pelo contrário: para que possamos alterar as estruturas, precisamos falar, apontar, criticar.

Para conhecer uma pessoa, olhe para como ela trata quem tem menos privilégios do que ela. Não é a forma como nos relacionamos com nossos pares que nos define, e sim como lidamos com aqueles que, estruturalmente, se encontram abaixo de nós. Nossa disponibilidade em apoiar essas pessoas, reconhecendo nossos próprios privilégios, diz muito mais sobre quem somos.

A educação é uma arma potente demais para ficar a cargo de qualquer pessoa. A formação (formal e psicológica) dos professores precisa ser uma prioridade, porque eles são os responsáveis pela formação moral e psicológica de toda uma geração.

A morte faz parte da vida: nem sempre podemos nos despedir das pessoas e isso não pode nos destruir. Temos que seguir em frente. As pessoas que influenciaram nossas vidas de alguma forma vão sempre viver conosco.

A criação e os valores passados para as pessoas podem influenciá-las pelo resto da vida e nem sempre elas irão se desvencilhar totalmente disso. O que importa é o movimento de tentativa. Respeitar de onde cada um vem e que tipo de experiência de vida cada um teve é essencial para que possamos construir, juntos, uma sociedade que seja justa. Faz parte disso entender que nem sempre as pessoas conseguem ultrapassar certos limites. Reconheça os avanços feitos.

Pessoas diferentes respondem de formas diferentes às experiências. Ninguém é termômetro de ninguém. Só porque você viveu algo de uma forma positiva, não quer dizer que todo mundo passe pela mesma coisa da mesma forma. Cada um tem seus valores, histórias e crenças. Entender isso é o primeiro passo para desenvolver a empatia e poder explicar e entender por que vocês viveram as mesmas coisas de modos diferentes.

Nunca subestime o poder dos jovens de lutar pelo que acreditam e transformar o mundo. Cada geração traz um ensinamento novo para a antiga e a cada uma avançamos um pouco. Mesmo que às vezes pareça que nem todos os jovens têm ideias progressistas, não desista: boa parte deles tem. Acredite neles.

O universo é grande demais para que os astros se preocupem com a roupa que você vai usar hoje, mas isso não quer dizer que eles não nos influenciem de uma forma mais ampla. Você não precisa se guiar pelo horóscopo do dia e nem se apoiar no seu signo para justificar seus erros, mas acredite: tem energia demais lá fora para não sofrermos algum impacto aqui.

Criatividade e mente aberta muitas vezes podem ser mais importantes do que a inteligência tradicional. Às vezes você vai se ver em situações em que você precisa improvisar e expandir sua visão de mundo. Valorize isso e valorize todos os tipos de inteligência, não somente aquele que fomos ensinados a valorizar.

Todo mundo tem o direito e deve ter a chance de se redimir pelos seus erros. Dar uma segunda chance a alguém pode mudar a vida e as pessoas. Descartar alguém simplesmente porque em algum momento ela errou é cruel e desumano.

Ninguém é perfeito e nem vai ser: é o encontro dos nossos defeitos e qualidades que nos forma enquanto pessoas. Aprenda a valorizar cada lado seu, tanto os que você gosta quanto os que te incomodam. Não tenha vergonha de admitir seus erros, esteja disposto a reavaliar suas ações.

Só porque está acontecendo na sua cabeça, não quer dizer que não seja real: a literatura é uma forma de magia e tem um poder maravilhoso de transformação. Permitir-se viver um livro é uma experiência de vida paralela extraordinária, é uma forma de viajar e um meio de repensar sua vida e a sociedade. O que acontece numa narrativa te afeta, física e psicologicamente, para sempre. Aprecie esse tipo de oportunidade.


Harry Potter é um fenômeno tão grande porque nunca foi e nem nunca quis ser somente uma história: é um estilo de vida, um guia espiritual, um manual de sobrevivência no mundo, um manifesto político e poesia pura.

A série me formou como pessoa e eu definitivamente não seria quem eu sou hoje se não fosse pela oportunidade de crescer lendo os livros, a começar por aí mesmo: eu não era uma criança leitora, pelo contrário. E em um ano (o intervalo entre o primeiro e o segundo filmes) eu virei uma leitora voraz, daquelas que virava noites lendo e lia livros enormes inteiros de uma vez só.

Se não fosse pelo amor que desenvolvi pela literatura graças a Harry Potter, eu provavelmente não teria cursado Letras nem feito mestrado em literatura. Eu não trabalharia com o que trabalho hoje e não gostaria de escrever como gosto hoje.

Sem a experiência de ser parte da geração Harry Potter, eu definitivamente não teria aguentado as barras que eu aguentei, eu definitivamente não teria sobrevivido às coisas que eu sobrevivi, pelo menos não de forma mais ou menos intacta.

Eu sou eternamente grata à Rowling e, apesar de todos os nossos desentendimentos sobre certas coisas (*cof* Scorbus *cof* Johnny Depp *cof*), eu jamais vou ser capaz de agradecer o suficiente a ela pela forma como ela transformou todas as minhas perspectivas de vida.

Olhar para trás e pensar que já se passaram 20 anos só faz com que cresça a sensação de que o tempo nos engana. Parece que foi ontem, mas foi a uma vida atrás. O que consola é saber que, não importa o que aconteça, temos um futuro juntos pela frente — e quem quer que queira embarcar no Expresso de Hogwarts é bem vindo, seja lá qual for sua idade ou quanto tempo se passou desde que o último livro saiu. O embarque oficial é dia 1º de setembro, mas, cá entre nós, você pode entrar na Plataforma 9 ¾ a qualquer dia e qualquer hora. Basta abrir um exemplar de Harry Potter e a Pedra Filosofal e lembrar que, a partir desse momento, você vai entrar em um mundo que — digam o que disserem — é real pra nós.

Se você gostou desse texto, considere clicar no coração e recomendá-lo para que ele atinja mais pessoas. Cada recomendação é um galeão jogado na Fonte dos Irmãos Mágicos. Se você gostou muito do texto e quer não só doar para o St. Mungos como também aumentar suas chances de receber uma carta de Hogwarts, compartilhe ele nas suas redes sociais. Há boatos de que cada compartilhamento é um berrador que chega até a McGonagall pedindo que seu nome seja incluído na lista de alunos do próximo ano.