Algumas cicatrizes nunca somem: amadurecimento, formação e as marcas que carregamos por toda a vida

Por favor, parem de pedir que as pessoas cresçam e superem algo

Perdoem a pessoalidade desse texto. É um desabafo. :)

Existe uma expressão em inglês que me intriga há algum tempo: grow out of something. O uso de grow, que está associado à ideia de crescimento, junto com out, que indica um movimento de saída, resulta num conceito de extrapolação de algo. Em português, ela poderia ser traduzida como “amadurecer” e é muito usada para descrever situações em que a pessoa supera, vai além de alguma coisa através do crescimento (físico ou psicológico). Podemos usar a mesma expressão tanto para descrever o que acontece quando uma criança cresce demais e uma blusa não serve mais nela, quanto para quando ela supera e deixa para trás algum comportamento ou sentimento considerado infantil ou típico de um momento da sua vida.

Essa expressão é muitíssimo utilizada para falar sobre o amadurecimento psicológico de crianças e adolescentes: quando um indivíduo pratica bullying com outro, mas amadurece com o tempo e isso se torna parte de um passado distante, coisa que ele nem considera mais fazer e inclusive condena, dizemos que ele grew out of it — ele amadureceu, superou aquilo. Gostamos também de dizer que o mesmo se passa com a pessoa que sofria o bullying: com certeza a idade, o amadurecimento e a vivência vai fazer com que aquele menino ou menina que esteve do outro lado, que foi vítima, também possa seguir em frente e superar aquela experiência ruim, deixá-la para trás e olhar para o futuro.

Seria ótimo se fosse simples assim, mas não é.

É muito sedutora a ideia de olhar para as pessoas como seres formados por estágios que se sucedem, sendo um mais evoluído que o anterior, formado e enriquecido pelas experiências positivas e negativas que vieram antes dele, absorvendo os ensinamentos dessas experiências e transformando mesmo os pontos baixos em ganhos para o próximo estágio. Nem sempre isso é possível, no entanto. As experiências que fazem parte da nossa história nos compõem, sim, de diversas formas, mas não é sempre que elas podem ser convertidas em traços positivos.

Nós tendemos a esperar que crianças que passaram por situações de abuso vão tirar disso alguma lição e, através disso, se tornarem adultos conscientes sobre o tema, que jamais irão reproduzir os abusos por que passaram. As consequências e sequelas desses abusos, no entanto, são imprevisíveis e dependem de uma série de fatores, que vão desde os ambientes em que essa pessoa vai transitar ao longo da vida até a profundidade das feridas abertas no seu período de formação. Esperar que alguém que passou por agressões físicas e/ou psicológicas se tornem exemplos de superação é irrealista e, acima de tudo, injusto.

Durante a minha infância e adolescência eu fui sistematicamente exposta a discursos tóxicos acerca do fato de eu ser gorda.

Embora eu tenha tentado criar mecanismos de defesa a vida toda, ainda assim toda a minha relação com o mundo e com as pessoas ao meu redor foi afetada de uma forma muito profunda que ressoa até hoje.

Eu não me sinto segura o suficiente para falar em público ou interagir com as pessoas; a ideia de expor a minha imagem de alguma forma me dá calafrios, porque tenho certeza que a primeira coisa que as pessoas reparam em mim é o meu corpo; todos os meus relacionamentos pessoais são marcados pela insegurança de falar sobre esse assunto, mesmo com meus amigos mais próximos.

Existem algumas formas de lidar com as sequelas de ser vítima da gordofobia. A forma mais difícil é, gradualmente, apagar ela da sua existência: se empoderar, passar a amar seu corpo, amar quem você é, não se envergonhar, se sentir segura o suficiente para se impor no mundo sem pensar que as pessoas podem estar notando exatamente aquilo que foi o motivo para você ser alvo de violência por tanto tempo. A mais fácil (pelo menos a curto prazo) é aceitar que você sempre foi errada e tentar se adequar. É por isso que é tão raro ver gordos que estão de fato felizes com quem são, que não se submetem a dietas agressivas e prejudiciais, que são seguros para se relacionar com o mundo e com as pessoas. Não é porque eles estiveram errados de fato a vida inteira, e sim porque a grande maioria segue, compreensivelmente, o caminho mais fácil.

Esse caminho não é, na verdade, fácil de fato. Ele só é mais simples, porque não exige um conflito interno, mas vai exigir uma tortura física prolongada que somos ensinados a acreditar a vida inteira que é nossa sina. Se eu sou gorda, que mais eu posso fazer a não ser aceitar que eu preciso emagrecer? Vou sofrer, vou ter que abdicar de muita coisa que gosto, mas fazer o quê? E se eu me proponho a fazer o sacrifício que for necessário para ser essa pessoa ideal e maravilhosa que a gordura do meu corpo deforma, então todo mundo pode fazer o mesmo. Todo mundo pode emagrecer também. Eu emagreci, eu fiz jejum, eu fiz cirurgias, por que você também não faz? Basta querer, não?

A tortura a que somos expostos pode, portanto, nos transformar também em torturadores dos outros.

Para tomar o caminho mais difícil, o da auto aceitação, muitas coisas precisam funcionar juntas: além de precisar de um movimento interno de desejo de se sentir bem com quem se é, é fundamental estar inserido (ou se inserir) em um ambiente não-tóxico, se cercar de pessoas que te estimulem e incentivem nessa trajetória, é preciso desenvolver uma leitura crítica de tudo que nos cerca na sociedade e na cultura. Tudo isso ajuda, embora nada seja de fato decisivo, para que você possa se sentir mais à vontade para estar no mundo sem se envergonhar do seu corpo.

O fato de não sermos capazes de resistir a essa pressão social não nos torna pessoas ruins. Se eu, mulher gorda, reproduzo gordofobia, isso quer dizer apenas que a estrutura preconceituosa e cruel da sociedade funcionou muito bem e fez seu trabalho comigo. Seguimos reproduzindo opressões como é esperado de nós. Precisamos de espaço, apoio e ambientes que nos ajudem a desconstruir isso e deixar, de fato, o pior do que passamos para trás.

Colocar nos ombros de alguém que passou por abusos físicos e psicológicos o peso de, além de carregar as cicatrizes dessas experiências, ainda ser um exemplo de boa conduta é, no mínimo, cruel. Ninguém tem como medir até que ponto essas pessoas foram atingidas e marcadas.

“CURANDO-SE DO ABUSO: as pessoas esquecem que o abuso é danoso, mas suas consequências são permanentes. Seu corpo vai se curar, assim como sua mente, mas quando as coisas se curam, elas deixam cicatrizes. Você não deve a ninguém uma explicação, um motivo ou uma defesa por quem você se tornou depois de sobreviver.” (Nikita Gill)

Vejam bem: não estou defendendo que uma pessoa que tem um passado de abuso tenha passe livre para fazer o que quiser, até mesmo abusar de outras pessoas. Não é preciso passar a mão na cabeça dela e perdoar suas condutas questionáveis, mas o passado de abuso não pode ser ignorado. Estou dizendo que direcionar para essa pessoa exatamente o mesmo olhar de reprovação que se direciona a uma pessoa que nunca passou por essas experiências e ainda assim as perpetua é incoerente. Exigir que uma pessoa simplesmente apague o que sofreu, que cresça, como se ter cicatrizes fosse um resquício de imaturidade, é injusto e desumano. Cada um sobrevive do seu trauma de uma forma particular.

Todos nós temos camadas e somos formados por um entrelace muito complexo de todas elas. Se uma delas passível de reprovação, isso não invalida todas as outras imediatamente, assim como termos uma camada louvável não nos transforma em uma pessoa exemplar. Todos nós somos humanos passíveis igualmente de erros e acertos.

Vamos tentar, todos nós, lembrar disso mais vezes?


Talvez você não tenha reparado, mas esse post não é só sobre mim. É sobre várias pessoas e, principalmente, sobre por que eu defendo Severus Snape.

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