Discussões feministas em 3 livros que li este ano

Sempre tive especial apreço pela literatura feita por mulheres, mas este ano, especificamente, decidi lê-las mais, conhecer melhor o universo que as toca e identificar também o que elas trazem e que tocam em mim. Desses, muitos tinham conexões, em maior ou menor grau, com o feminismo. Acredito que a literatura seja uma excelente porta de entrada para reflexões acerca de assuntos que muitas vezes não nos damos conta. Além disso, considero o livro como um importante formador de pessoas. Isso porque tudo o que lemos nos muda de alguma forma.

Embora minha meta de leitura deste ano ainda esteja abaixo do que eu gostaria, eu li excelentes livros e escolhi três deles para destacar aqui.

  1. Americanah (Chimamanda Ngozi Adiche): 
    Embora já conhecesse a Chimamanda, autora mundialmente conhecida por ser uma defensora do feminismo, esse foi o primeiro romance que li dela. Ele é talvez o mais famoso de sua obra. Nele, Ifemelu, uma jovem nigeriana, abandona seu país em busca de novas oportunidades nos Estados Unidos. Na trama, a jovem vai viver com a tia que acabou tendo que sair da Nigéria como fugitiva após seu amante morrer e a família a humilhar. Sua tia acaba aceitando muitas coisas por medo de ficar sozinha, pois crê que uma mulher precisa de um marido. Isso reflete a sociedade em que somos inseridos, na qual uma mulher só pode ser considerada “séria” se contar com o aval masculino.
“Aceitaria que os romances dos quais ele gostava eram superiores, romances escritos por homens jovens ou quase jovens e repletos de coisas, um acúmulo fascinante e confuso de marcas, músicas, revistas em quadrinhos e ícones, que lidavam apenas de maneira superficial com as emoções e com cada frase estilosamente consciente de seu próprio estilo. Ifemelu havia lido muitos deles porque Blaine os recomendava, mas eram como algodão-doce, dissolvendo fácil na língua da memória.”

O livro é todo magnífico! A questão nigeriana latente, o drama de viver em uma guerra civil, e a realidade dessas pessoas que, apesar de tudo, vivem suas vidas, fatos tantas vezes ignorados por nós que acreditamos ser a África um território completamente tomado pela miséria e a guerra. Chimamanda tem um papel essencial na mudança desse quadro. As mulheres da Nigéria, a relação com os homens e também a presença da religião são importantes, mas, pessoalmente, destaco aqui o fato de Ifemelu ter um romance de juventude. Embora ela demonstre durante ano perdurar seu sentimento por Obinze, isso não a impede de conhecer e amar outras pessoas. O amor existe e está ali, mas ela está viva e pode facilmente se relacionar com outras pessoas. Essa ruptura com o romantismo é uma abertura para novas possibilidades de amor. Somos há muito criadas (principalmente as mulheres) para acreditar que o amor é um só. Ifemelu nos diz que não, não é.

2. O papel de parede amarelo (Charlotte Perkins Gilman)
Este livro, sempre presente nas listas de literaturas feministas, é um conto pequeno (tem, em média, 6000 palavras) e foi publicado em 1892 pela estadunidense Charlotte Perkins Gilman. Em uma narrativa em primeira pessoa, acompanhamos uma mulher que “sofre dos nervos” enquanto seu marido e médico, dono de um autoritarismo disfarçado de cuidado, a deixa engaiolada em casa. Ela, enquanto repousa no quarto, alimenta uma obsessão pelo papel de parede. Com uma relação voraz com o gaslighting, o texto discute a libertação dessa mulher que é convencida de que está doente, enquanto goza de pleno furor criativo. No tal papel de parede, pelo qual ela tem nojo, reconhece mulheres enclausuradas e rastejantes que clamam para sair de dentro de suas prisões. A personagem começa, assim, a fantasiar uma possível forma de salvar aquelas mulheres enclausuradas em uma brilhante metáfora de si mesma. Somente o empoderamento e a união entre as mulheres poderá fazer com que ela veja uma saída daquela situação. É um texto muito poderoso!

Charlotte Perkins Gilman

3. Dias de Abandono (Elena Ferrante)
Não é novidade que eu fale constantemente de Elena Ferrante. Este ano, além do A Filha Perdida, sobre o qual eu já falei aqui, eu também li Dias de Abandono. Nele, Olga é abandonada pelo marido Mário quando ele assume o relacionamento com uma garota bem mais jovem. Assim, ela entra em um processo de luto desesperado pelo abandono e não consegue mais se encontrar em sua rotina, cuidar de si ou dos filhos. Olga por muito tempo culpe a nova namorada de Mário pelo término e até mesmo agindo de forma obsessiva com o ex-marido, como se ele fosse uma vítima do poder sedutor daquela outra mulher. Olga ainda nos faz lembrar que, apesar de julgarmos outras mulheres por estarem sendo enganadas ou sofrerem por terem sido traídas, não estamos isentas de que essas situações possam integrar nossas vidas. Esquecer isso é inocente e vil:

“[…] quando lhe entreguei de volta o livro me veio uma frase soberba: essas mulheres são idiotas. Senhoras cultas, de boa condição social, quebrando-se feito bibelôs nas mãos de seus homens distraídos. Pareciam-me emocionalmente burras, eu queria ser diferente, queria escrever histórias de mulheres com muitos recursos, mulheres com palavras indestrutíveis, não um manual da esposa abandonada com o amor perdido como o primeiro pensamento da lista. […] Eu disse tudo isso sem ar, de uma só vez, como nunca tinha feito, e minha professora deu um sorrisinho irônico, um pouco vingativo. Ela também devia ter perdido alguém, ou alguma coisa. E agora, mais de vinte anos depois, a mesma coisa estava acontecendo comigo.”

Enquanto vive o luto, ela passa por um período de reconhecimento de si e luta com seus monstros diariamente. Isso a faz agir constantemente de forma auto-destrutiva, porém ao notar que não precisa mais da sombra de seu marido para existir (nem da aprovação de homem nenhum), ela se liberta dessas amarras e percebe que pode, sim, viver independente dele(s). O processo de luto é doloroso e chega a sufoca o leitor, e essa é uma característica marcante da narrativa de Ferrante (não é à toa que digo que essa mulher é incrível). Mas de acordo com que Olga vai se empoderando é possível respirar novamente. Apesar das intempéries, ela, enfim, sobrevive.