Eu e a Síndrome da impostora

Como eu descobri que havia um peso em mim que sempre me colocava pra baixo e como eu enxerguei uma saída para isso.

Na escola, quando eu tirava uma boa nota em uma prova, eu conferia várias vezes se era mesmo o meu nome no alto da folha: tinha medo de que a professora tivesse me entregado a prova errada. Na faculdade, depois de ingressar na pesquisa, eu tinha medo de abrir a boca durante a aula e alguém achar que eu não era merecedora daquela vaga. Em uma apresentação oral, eu S-E-M-P-R-E fico gaga (ainda hoje) e sei que isso aumentou depois do peso da graduação: meu medo é que alguém apareça e diga “ei, você não merece esse título, por favor, devolva-o na saída”. Eu tenho pânico e, inclusive, sonho com isso, às vezes.

Desde que eu conheci a expressão “síndrome da impostora”, ela vem sendo constantemente empregada em minha vida, pois ela dá nome a um sentimento que me segue há anos, e, uma vez denominada, ela começou a fazer ainda mais sentido. Ela nomeia o sentimento de não ser merecedora do que eu conquistei e de ser uma farsa completa, por acreditar que eu não poderia fazer aquilo. Pior: eu não sou a única a sofrer com ela.

Um dia eu li um texto que me fez pensar no quanto eu adiei um plano de escrita por causa dessa síndrome. Este blog foi planejado por muitos anos entre mim e a Larissa, mas sinto que, particularmente, adiei o máximo que pude justamente por não acreditar que eu era capaz de fazer isso. Parecia boba e banal qualquer coisa que eu pudesse escrever (e ainda parece, às vezes).

Ora, se eu sigo tantas pessoas incríveis, fazendo coisas incríveis e criativas, sendo únicas e brilhantes. Se essas pessoas já existem e estão por aí fazendo coisas ótimas por todos, por que eu deveria colocar minhas tolas ideias nesse mundo maravilhoso que é a internet? Eu não poderia ser uma dessas pessoas. Isso é insegurança. É um sentimento de que eu não poderia trazer nada novo e bom para esse mundo, tudo seria igual, irrelevante ou errado.

Me surpreendi muito quando soube que muitas mulheres passam por isso, até aquelas que nunca imaginaríamos. Me surpreendi ainda mais quando notei, não sem surpresa, que essa característica é mais uma das inúmeras consequências da nossa cultura machista. Isso acontece porque passamos recentemente a ocupar espaços que não ocupávamos, isso gerou sobre nós uma cobrança muito grande. Precisamos nos mostrar merecedoras de cargos, graduações e funções muito mais do que os homens precisam fazer isso. Cada uma das nossas conquistas são questionadas, geralmente, colocando à prova nossa vida sexual.

Às vezes eu tenho a (narcísica) sensação de que a expressão “síndrome da impostora” foi criada para mim. Eu me sinto uma completa fraude em tudo, e, embora tenha conquistado algumas coisas realmente difíceis, eu penso em logo alguém vai aparecer e me desmascarar, dizendo a todos que eu, na verdade dei, nada mais, do que sorte. Tenho um medo irracional disso e, apesar de gostar de escrever e gostar das ideias que tenho, eu não suportaria antecipar o meu processo de desmascaramento… não é terrível?

Sim, é. Ainda mais porque (como eu disse) eu não sou a única. Atualmente, eu tenho me sentido empoderada para falar com segurança das coisas nas quais eu acredito e sei que isso se deu, principalmente, por seguir e acompanhar mulheres incríveis com quem eu aprendo sempre que a nossa voz é para ser ouvida e ela importa. Cada uma dessas mulheres, talvez não saiba, mas contribuiu com a construção de uma segurança emocional que me sustenta. Embora isso ainda não seja plena para mim (por exemplo, ela ainda não se aplica no quesito científico), eu sou paciente. Conhecer grupos de empoderamento e conversar verdadeiramente sobre isso também é uma arma valiosa contra essa cultura solapante.

Hoje, eu consigo com maior segurança erguer e sustentar bandeiras que antes me deixavam inseguras de expor. Isso não foi, certamente, sem a ajuda de muitas pessoas próximas que acreditam em mim, mas inegavelmente contei com o apoio incondicional de mulheres incríveis que vêm me apoiando (direta ou indiretamente) e me incentivando a mostrar quem eu realmente sou. Sei que perdemos muito todos os dias porque existem mulheres que ainda se escondem enquanto elas têm coisas maravilhosas para mostrarem. Espero ajudar quem ainda vive assim (e me ajudar mais, claro). Obrigada, mulheres!