“Kindred” — um romance que merece ser lido

Embora o romance Kindred — Laços de Sangue tenha sido lançado no Brasil em 2017, sua primeira publicação data de 1979. O enredo, no entanto, é um tema atual e pertinente para nós hoje. A autora, Octavia E. Butler, uma mulher negra que não via mulheres que a representassem na ficção, resolveu se aventurar em um campo duplamente excludente para ela: a literatura e a ficção científica.

Octavia Butler era negra, filha de uma doméstica e um engraxate, nos anos 70 nos EUA; além dessas questões, ainda tinha dislexia, mas isso não a impediu de escrever e se destacar no cenário literário, ainda que seu prestígio tenha demorado tanto para acontecer e ela sequer tenha sido laureada quando viva. Ela entrou para o Hall da Fama da Ficção Científica de Seattle em 2010, depois de sua morte.

No romance, acompanhamos Dana, uma mulher negra que, em seu aniversário de 26 anos, sofre uma tontura que a leva a uma viagem no tempo para conhecer Rufus, no ano de 1815, bem no período de vigência da escravidão nos EUA. A relação entre eles, Dana não demora a perceber, é de ancestralidade. Rufus é, na verdade, o bisavô de Dana; um homem branco e senhor de escravos que vê nela uma chance de ser salvo, mesmo quando insiste em colocar, ele mesmo, sua vida em risco.

Dana, então, é uma garantia do futuro de que sua família vingaria apesar dos pesares (e não são poucos). Mas a relação de Rufus com aquela que seria a bisavó de Dana não é, ao contrário do que ela sempre acreditou, nada romântica. Dana vai e volta no tempo, durante o que significa um mês no tempo dela (mais especificamente 1976), mas em diferentes épocas da vida de Rufus, permanecendo meses ou anos no passado, tempo que significa, geralmente, apenas algumas horas no ano corrente.

O laço de parentesco se faz presente ali, principalmente, para que Dana garanta que Rufus vai sobreviver (já que ele estar em perigo é o que desencadeia sua viagem) e, assim, sua família terá desenvolvimento até que ela própria possa nascer. Dana é, dessa forma, a salvadora de Rufus, que está sempre metido em enrascadas devido ao seu caráter de garoto mimado, e isso lhe confere um certo prestígio na casa grande da fazenda. Há, na obra, inúmeras questões a serem abordadas, mas o que me deixa mais curiosa é o motivo dele só ter ganhado uma tradução no Brasil agora, em 2017.

A questão da posse constantemente confundida com amor, com a propriedade e a escravidão é feita por Octavia Butler a partir de um caminho muito didático sobre como era ser negro no século IX e o que isso significava, mesmo para uma pessoa negra que se considerava plenamente livre. Seus direitos, como Dana bem representa, podem ser facilmente confiscados, sua vida pode facilmente se tornar o que era para aquelas pessoas. Isso me parece importante exatamente por termos acabado de passar pelo mês da Consciência Negra e, em 2017, ainda termos que ver pessoas negras dizendo que isso é vitimismo ou mesmo que o ideal seria uma “consciência humana”. Ora, me poupe.

Dana passa a pensar em seus prestígios se comparados às outras pessoas em situação de escravidão. Embora tenha passado por muitas situações de preconceito nos anos 70, estas não são nada se comparadas à situação em que Dana passa a viver sempre que volta no passado. Em um cenário fantástico, a autora levanta reflexões sobre família, amor, ódio e ressentimento, e lembra que os laços de sangue nem sempre estão isentos de culpa e dor. Dana, embora entenda-se negra e reconheça a sociedade racista em que vive, parece só ter ideia de que está em uma posição privilegiada em relação aos seus ancestrais quando tem a oportunidade de revisitar o passado. Isso, no entanto, faz parte de sua história, os costumes de uma época no presente têm sempre uma razão de ser no passado.

A protagonista é uma personagem sólida e é a sua voz que nos conduz no romance. São suas as dores e as impressões relatadas. Essa narrativa em 1ª pessoa é essencial para traçar um perfil equivalente para a minoria, pois evita que se pressuponha um filtro. Isso ilustra a necessidade (ainda hoje) de dar voz a essas personagens pertencentes às minorias para que elas possam, por si só, narrarem suas existências; é preciso que elas possam, sozinhas, sustentarem seus discursos. Dana faz isso muito bem.

O poder que ela tem, além disso, é a garantia de que Rufus viverá. Ela age, ainda, como uma abolicionista à frente daquele tempo, levando um pensamento progressista para aquelas pessoas colocadas em situação de escravidão. O medo que ela causa no século XIX por saber ler é sintomático de que o opressor quer o oprimido ignorante (nesse século, no próximo e neste ainda). Ela, no entanto, começa a modificar essa realidade ao ensinar os negros escravos a lerem. Isso muda tudo. Ela planta a semente da libertação para que a abolição possa acontecer dali alguns anos. Isso, muito provavelmente, será uma centelha na libertação desses povos. Só sabendo que isso aconteceria futuramente aquelas pessoas puderam se apegar à esperança de fazer essa mudança.

Já no prólogo, sabemos que Dana perdeu um braço. Esse “braço” que ela deixa no passado é sua função como elemento do futuro para dizer que a liberdade era possível, ao mesmo tempo, no entanto, ter que lidar com o fato de perder um braço pode ser comparado àquele passado dos seus ancestrais, tudo está intimamente interligado e cada escolhe repercute no sangue. Ninguém está livre.

Hekate

Duas amigas que se juntaram pra falar sobre o que move suas…

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