O estranhamento causado pelo livro “Dupla Exposição”

Livro de Paloma Vidal e Elisa Pessoa é uma mistura de fotografias e textos que deu super certo.

Publicado pelo selo Anfiteatro, da Editora Rocco, o livro é um mix de sensações, tanto nas leituras, quanto nas fotografias que traz. O que seria, afinal, essa dupla exposição? Esse é um conceito antigo da fotografia e acontece quando duas cenas são sobrepostas; na época das máquinas de filme, acontecia quando o filme não girava direito e acaba fotografando uma imagem sobre a outra.

Muitas fotos tinham essa característica e, por isso, muitas vezes acreditava-se que aquele vulto ou rosto fora do lugar em uma fotografia eram fantasmas de pessoas conhecidas ou não, que participavam em espírito dos momentos em família, uma vez que não podiam mais estar de corpo presente. Perturbador, não? A narrativa de Paloma Vidal também é.

O livro é fruto de um trabalho já iniciado e colocado em prática pelas artistas (pode-se ter mais detalhes aqui), em uma união de forças para, através da fotografia e a literatura, explorar os limites do real e do fictício, o que das tranças da memória poderia ser explorado pela arte e a performance. Nas instalações, uma projeção de uma fotografia na parede é invadida pela imagem de uma pessoa em movimento. O real pode, afinal, invadir a ficção e também a memória, atingindo-as bem em seu cerne, causando fissuras em seus limites.

O livro foi o escolhido do mês de maio pelo Garimpo Clube do Livro, no Clube Leia Mulheres. Todos os meses os assinantes recebem um título diferente, geralmente inovador, escrito por mulheres. Ainda não me decepcionei nenhuma vez. A escritora Maria Esther Maciel, no prefácio, define a obra como:

“um ousado experimento narrativo-visual no qual os aspectos sensoriais da escrita se intensificam nos matizes e no movimento cromático das imagens, sem que estas fiquem a serviço daquelas e vice-versa.”

Já na capa há uma imagem muito tátil dessa tal dupla exposição. Isso porque o livro conta com uma luva translúcida sobre a capa, que repete a imagem desta propriamente dita, em uma sobreposição que remete ao título. Não é um livro de fácil definição. Seriam contos? Crônicas? Colagens de texto? Esse hibridismo, causado pela junção do texto e a imagem, somado às imagens, tornam o livro uma montagem criativa e impressionante.

O texto em si, assim como as fotografias presentes no livro, é invadido pela memória. Os gêneros e os enredos presentes ali nos chamam a compreender que a função da arte é porosa, e não mais sólida como antes se acreditava. São narrativas curtas e, geralmente, fragmentadas. Se passam em diferentes lugares do mundo, as identidades são múltiplas, os diferentes idiomas são uma imensa Babel, as vozes narrativas se confundem. E elas se mostram, acima de tudo, como um laboratório da escrita.

“Quanto a tradução interfere? O que produz em mim o misto de formalidade e humor talvez não acontecesse na língua original. Mesmo compreendendo inglês, provavelmente eu não seria capaz de captar as modulações produzidas pela combinação de contenção e detalhe.”

(in: “Please come flying”, p.13).

Os encontros e desencontros do livro, seus diálogos desencontrados e as fotografias são, juntos, o motivo principal do estranhamento. Não um ou outro, mas todas as lacunas que as autoras deixam abertas em um convite claro para que a leitora possa, então, preencher. O estranhamento com as fotografias (a mim, sempre remetem a algo fantasmagórico) é um sentimental muito particular para esta obra, e creio que seu objetivo é esse: fazer-se sentir.


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Hekate

Duas amigas que se juntaram pra falar sobre o que move suas…

Pamella Oliveira ♀

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Vinte e poucos anos de personificação do mais absoluto caos.

Hekate

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Duas amigas que se juntaram pra falar sobre o que move suas vidas: literatura, cultura e feminismo.

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