Que futuro esperar para nós?

Impressões sobre The Handmaid’s Tale — ou por que a série da Hulu é quase um filme de terror

*Esse texto é spoiler-free, todas as informações são da premissa da história :)

Das várias séries programadas para estreiar em 2017, uma que gerou expectativa desde a primeira notícia que surgiu sobre sua produção foi The Handmaid’s Tale, produzida pelo serviço de streaming Hulu e baseada no clássico moderno de Margaret Atwood. Mesmo sem nunca ter lido o livro, bastou uma lida por alto no tema que é tratado para que eu aguardasse ansiosamente pela estreia.

The Handmaid’s Tale (O conto da aia, em português) consta em basicamente todas as listas de livros feministas que você procurar — e não é difícil entender o porquê. A história é uma distopia que mostra um período futuro dos Estados Unidos em que, após uma catástrofe nuclear que deixou boa parte das mulheres estéreis, uma série de eventos levou à criação da República de Gilead. Com o presidente assassinado e o congresso inteiro metralhado, o exército tomou o poder, as ruas e o controle da situação sob o argumento de que o país estava ameaçado por terroristas islâmicos. A Constituição foi suspensa e a população acalmada. Era para ser uma medida temporária, mas nasceu então um governo teocrático e autoritário baseado na Bíblia e na bala (se fosse no Brasil, com certeza boi também entraria aqui).

Nessa nova ordem, as mulheres não têm qualquer voz: no início seus direitos civis são retirados e, à medida que o regime avança e as prende, elas são separadas de acordo com sua funcionalidade e distribuídas pelas casas dos Comandantes, os líderes do governo, respeitando as três categorias em que se dividem: as Esposas, que são casadas com os oficiais e detêm alguns privilégios; as Marthas, que são trabalhadoras domésticas e, em geral, mais velhas; e as Aias, mulheres que de alguma forma escaparam da onda de infertilidade e estão aptas e engravidarem e dar à luz uma criança saudável.

Absolutamente todos os locais que as mulheres ocupam em Gilead são terríveis, mas o da Aia é definitivamente o pior: sua função é gerar um filho para uma família e, para isso, cada Aia é designada a morar em uma casa e, uma vez por mês, deve deitar-se entre as pernas da Esposa e, de mãos dadas com ela, ser estuprada pelo Comandante.

O mais assustador de The Handmaid’s Tale é que, apesar de retratar uma sociedade que à primeira vista pode parecer muito distante de nós, o passado que é mostrado é tão parecido com nossos dias que poderia ser hoje. A rapidez com que as coisas se desenrolam e levam ao estágio da repressão violenta nos obriga a pensar em que estágio a nossa sociedade se encontra hoje. Será que amanhã já estaremos com o exército nas ruas, ou ainda temos algum tempo?

Ofglen é uma das Aias e é a dupla de Ofred, a protagonista
Se o livro já se mostrou uma obra essencial, definitivamente a série vem caminhando para isso também — talvez de forma ainda mais importante, já que em geral obras audiovisuais tendem a atingir um público maior.

Há muito que nós mulheres sabemos que precisamos nos levantar e impor nosso lugar na sociedade, mas os direitos que conquistamos na história recente por vezes enganam e nos fazem acreditar que a sociedade nos enxerga como pessoas. Não nos enganemos: não precisamos virar Gilead para sermos qualificadas por nossa função com relação ao homem ou sermos obrigadas a carregar filhos que não nascem da vontade mútua de duas pessoas. Na prática, isso já acontece todos dias.

Em tempos de ascensão de governantes que não escondem seu desprezo pela mulher (seja atacando sua sexualidade ou sua saúde, seja aqui ou nos Estados Unidos), The Handmaid’s Tale tem tido muito menos atenção do que deveria. Os nossos direitos serão sempre os primeiros a serem atacados — e saber o que pode ser nosso futuro se não nos unirmos pode ajudar a nos fortalecer.

O vestuário das Aias é pensado para remeter ao sangue da menstruação (sua função) e evitar que elas vejam ou sejam vistas, com as “asas” (as toucas) limitando sua visão

The Handmaid’s Tale é exibido pelo serviço de streaming Hulu, mas pode ser visto pelo Popcorn Time.

O livro foi lançado no Brasil pela Rocco.