Reda: um retrato da Síria em Curitiba

O comerciante sírio que criou no centro de Curitiba um ambiente repleto de gastronomia e tradições árabes

Reportagem: Heloise Auer
Fachada do restaurante ArabWay (Foto: Google Maps)

No Centro de Curitiba, o restaurante Arabway faz sucesso. A brincadeira no nome faz referência à famosa rede de fast food Subway. O dono do restaurante de comidas típicas, Reda Abu Chady, faz parte da comunidade síria que vem ocupando cada vez mais o comércio nas proximidades da movimentada Rua Riachuelo.

A estimativa do consulado sírio é de que mais de 50 famílias sírias morem em Curitiba atualmente. A economia estável e a segurança atraem os migrantes refugiados para a capital paranaense.

Foi justamente o que motivou Reda. O comerciante veio para o Brasil em 1975 fugindo da guerra civil em seu país natal “Queria morar em um lugar em que não tivessem balas passando por cima da minha cabeça”. Os bombardeios e rajadas de metralhadoras ficaram para trás. Aqui ele se apaixonou por uma brasileira e constituiu sua família. A identificação com o povo brasileiro foi instantânea “Eu gosto desse brilho no olho que o brasileiro tem, esse jeito festeiro, tem mais a ver comigo. Na Síria o povo é uma máquina, não tem como ser feliz lá”.

O comerciante Reda Abu Chady em momento de lazer (Foto: Arquivo pessoal)

Apesar de estar afastado a tanto tempo de suas raízes, Reda manteve sua crença. É muçulmano e faz questão de ressaltar sua posição contra o fanatismo. “O islamismo é muito mais do que o terrorismo que é mostrado na TV”. Para ele a mídia falha ao retratar a realidade no Oriente Médio “O Estados Unidos não é o herói e a Rússia a vilã como dizem. As relações são diferentes. O petróleo faz com que qualquer país que olhe para a Síria, nos veja de maneira gananciosa antes de tudo.”

Em 2010, com a Primavera Árabe — onda revolucionária de manifestações e protestos contra tentativas de repressão e censura por parte do Estado — era esperado que a situação melhorasse. Mas as manchetes continuam mostrando as tragédias dos que tentam sair do país, em especial, com a morte do menino Aylan, de 3 anos. A imagem do garoto morto na praia se tornou um símbolo da crise migratória.

“A Primavera Árabe não causou efeito nenhum. O povo achava que tinha voz, achávamos que havia gente trabalhando para tirar o ditador do poder, mas na realidade o governo estava por trás de tudo. Nunca teve a menor possibilidade de vencermos”

Assim como ele, muitos migrantes vêm tentar refúgio no Brasil e se deparam com o preconceito e a dificuldade da língua. O elo com a terra natal, no entanto, permanece.

Reda mantém contato com os pais que ainda moram na Síria e visita o país todo ano “A situação ainda é muito difícil por lá, mas nós tentamos cuidar do nosso povo que está aqui no Brasil e não perder as tradições”. De fato, no balcão do Reda os clientes sírios são atendidos na língua árabe.