Lembranças

Talvez você prefira não ler isso, pois esta é uma história real.

É provável que depois do segundo parágrafo você não vai querer estar mais aqui, então desista enquanto eu estou avisando. Tem vídeos de animais fofos pra você assistir, tem músicas, tem histórias de pessoas que estão vencendo na vida. Então saia daqui.

Porque isso aqui é a história da minha vida e ela só piora. Depois piora mais.

Eram os primeiros minutos de 2018 e minha melhor amiga me mandou mensagem. Entre as felicitações ela me desejou que eu encontrasse um “amor menos complicado”. Sei de seu desejo sincero, meu bem. Mas as coisas não são tão simples assim. Você lembra das enormes horas que passamos conversando naquela calçada? Aquilo rendeu tantas palavras que eu introduzi em textos. Você nunca foi a primeira pessoa que me falou “você me ensinou tanta coisa”. Mas puta que pariu. Por que eu ensino tanto e nunca aprendo? Parece haver em mim essa facilidade em ajudar as pessoas quando elas precisam e me fuder em qualquer coisa que eu planeje ou almeje. Lembra daquele dia em que você e seu amor foram almoçar na minha casa? Ela deve lembrar mais que você. Eu estava cozinhando ao som de Bach. Era camarão na manteiga de maracujá. Ainda estou devendo para as duas. Toda vez que estou fazendo a barba, quando a lâmina toca minha pele retirando os pelos, eu lembro de Hannibal Lecter, de Patrick Bateman. Pois parece que todo psicopata, todo louco que nós amamos, sempre tem o rosto liso, gosta de cozinhar e ouvir música clássica. Talvez toda a tristeza seja necessária. Talvez sem ela eu não conseguisse escrever. A Betina me falou um dia que faz parte da minha natureza. O Israel só levou a sério o que uma pessoa indicou quando eu também indiquei. Eu carrego comigo um peso importante, mas que nem sempre suporto carregar. Então quando alguém chega pra mim e pede “seja o Hemerson” eu fico me perguntando o que eu estou fazendo de errado? Mas a verdade é que se você pede isso de mim é que você quer que eu seja o que você acha que eu seja e isso eu não posso fazer.

Vide: individualidade.

Vide: idealização.

Vide: ilusão.

Nos primeiros minutos de 2018 eu estava tomando uma decisão que mudaria drasticamente a minha vida. Que de certa forma salvou a minha saúde mental. Mas eu sabia que isso não iria durar muito tempo. Você já viu minhas lágrimas, mas nunca me julgou. Quando você mandou aquela mensagem no início do ano eu ri. Porque é a única coisa que eu posso fazer, é a derradeira coisa que eu posso fazer diante da minha vida.

Rir.

Naquele dia eu estava desmaiado só de cueca no corredor de um apartamento vazio. Eu nunca te contei isso, mas me despedi de você antes disso. Acho que você não chegou a entender. Os quatro comprimidos de levomeprazina engolidos com uma dose de conhaque quase me levaram embora e eu sabia o que estava fazendo.

Vide: cansaço.

Vide: insônia.

Vide: lucidez.

Depois disso, depois de ter sobrevivido a esse dia, eu odiei a mim mesmo. Tanto que me castiguei. Me condenei a continuar vivendo.

Ora, eu lembro quando prometi a mim mesmo, depois de tudo o que passei, a nunca mais revelar meus sentimentos a outra pessoa porque isso ia dar merda. Eu sabia que daria merda. Porra, você tá chegando aos 35 anos com um monte de cabelo branco na cabeça e ainda não se escuta?

Se você está lendo isso, Hemerson, talvez já tenha se passado um ano. Os dias que se passam só confirmam o quanto idiota você foi/é. Em vez de colocar pra fora você engasgou com a fumaça do cigarro e ela ficou pesando no seu peito. Talvez isso foi o mais próximo de uma “alma” que você teve. Depois que minha mãe morreu, o que não foi um evento tão importante na minha vida, devo salientar, eu percebi (pois é isso que eu faço, eu sempre percebo. sempre estou por aí percebendo as coisas, escrevendo elas e nunca aprendendo com porra nenhuma) que a gente pode ficar órfão várias vezes na vida. Não espere muito, pois isso vai acontecer.

E o caso é que vai acontecer e a cada vez vai doer menos.

Cada vez menos.

Até você não sentir mais nada.