Minha Melhor Amiga é Lésbica

Quando estava na quarta série eu morava em um colégio. Sim, eu sempre vivi de aluguel e em uma dessas vezes meus pais, que sempre procuraram dar uma educação a mim e minha irmã, conseguiram uma moradia em um colégio, em troca do serviço de vigilante de meu pai. Não tenho do que me envergonhar disso, nem do que me arrepender. Vivemos lá por alguns anos. Eu estudava no John F. Kennedy, em Natal, Lagoa Seca. Tem três colégios juntos lá e eu morava no antigo Polivalente. Nem sei como se chama agora.

A vergonha que eu tenho, mas que compreendo, pois meu pai foi criado numa época bem distante da minha, foi quando, no período da minha quarta série, eu, que ficava ao lado dele no portão vendo os alunos passarem, disse quando um garoto passou “que rapaz bonito” e ele me repreendeu. Ele disse que eu não podia achar homens bonitos. Disse que eu só podia achar mulheres bonitas. O caso é que eu não senti desejo pelo homem, não senti atração por homens, tanto que hoje, aos quase 33 anos (sou ascendente de judeus, não me crucifiquem em setembro), sou hétero, sem preconceito algum por homossexuais, inclusive os apoio. Só estava constatando uma coisa, da mesma forma que eu dizia que algumas mulheres também eram bonitas.

Mas ainda assim meu pai me repreendeu.

Uns 20 anos depois, minha mãe e irmã já mortas, eu descobri que minha melhor amiga era lésbica. Meu pai não sabia disso. Eu queria convidar ela e a namorada pra almoçarem em casa, na casa onde eu morava com meu pai, já velho e só tendo a mim de filho.

Meu pai, além de racista, herança de meu avô, era homofóbico. Posso culpá-lo? Depende, O isento por causa de sua criação e educação e por seu analfabetismo e sua mente fechada pra tudo. Poderia culpá-lo por sua falta de visão crítica, mas quem critica sem ter opções e meios pra isso?

Então o que fiz?

Num dos raros almoços em que ele e eu estávamos na mesa eu comecei:

— Pai, quero conversar uma coisa com o senhor.

(Minha mãe não suportava que eu a chamasse de senhora, tanto que a tratava por “tu” e você”, mas meu pai é mais rígido, é homem, pensa que é superior a tudo)

— Diga.

— Não tô dizendo que sou. Só quero saber o que o senhor acha.

Ele começou a me olhar com desconfiança.

— E se eu fosse gay?

O garfo e a faca caíram no prato e ele esboçou um sorriso torto, o mesmo que eu carrego devido à genética.

— Tá brincando, né?

— Não. Tô falando sério. Se eu fosse gay, o senhor ainda me amaria?

Ele continuou comendo como se dali pra trás nada tivesse acontecido.

Eu insisti.

Ele me olhou com olhos faiscantes e disse:

— Você é gay?

— Não, mas tô perguntando se me amaria ainda que eu fosse gay.

— Você não é.

— Isso eu já falei que não sou.

— Então pra que essa besteira toda?

— Tô perguntando porque **** é. E eu convidei ela pra almoçar aqui semana que vem com a namorada.

A partir daí surgiram várias perguntas e afirmações. Se a mãe dela aceitava, de que isso era uma fase, que era besteira, era errado, etc, etc. E eu falei:

— Eu perguntei isso porque eu amo *****. A considero minha irmã. E se o senhor me ama, também vai aceitar isso.

No momento ele permaneceu calado e eu entendi como neutralidade, mais voltada pro ódio e ignorância, um silêncio ensurdecedor, um vazio. É difícil convencer os mais antigos e eu nem os culpo por isso, já que foram alienados a tais coisas.

Então o dia chegou. Ele as cumprimentou normalmente, mas depois ficou na dele, assistindo TV. Nesse dia eu fiz risoto e camarão na manteiga de maracujá.

Mas depois do almoço, depois dos filmes que assistimos, depois que elas foram embora, o que eu ouvi foi terrível. Ele disse que não queria mais elas em casa, que isso tudo era errado e que eu estava errado em aceitar isso. A partir daí pra ele todos os meus amigos eram gays. Inclusive os héteros casados. Eu ouvi muita coisa. Muita besteira. E mesmo tentando explicar não adiantava nada.

E vi o homem que me criou sentir nojo de mim, repulsa de mim, por eu continuar tendo amizade com a minha melhor amiga que se apaixonara por alguém do mesmo sexo. Mas pra quem já tentara me sufocar com as duas mãos, isso não me afetava em nada.

Por essa razão e mais outras ele me pediu pra ir embora. Ele, que tinha perdido metade da família que constituiu, por causa disso que considerava erro, me pediu pra arrumar um lugar pra eu morar. Ainda que ele, com a saúde que estava, precisasse de mim.

E eu fui.

Claro que sempre o visitei pra ver como estava, ou ligava e mesmo eu estando em outro estado agora, continuo procurando notícias e saber se a mulher atual dele o trata bem.

Quanto à minha amiga, bem, ela hoje é empresária, mora com a namorada numa lugar só delas, continua me matando de orgulho e sendo doida e chata como sempre foi e mesmo com seus 20 e poucos anos ainda me parece ser a garota de 7 que conheci.

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