FROZEN NIETZSCHE — O camelo, o leão e a criança

Quando assisti pela primeira vez, com minha filha, ao desenho “Frozen”, da Disney, já tinha sacado que era uma daquelas obras que ofereciam vários níveis de leitura. E vi por aí alguns textos relacionando os acontecimentos da animação a Freud, Jung e inclusive a Nietzsche. Mas nenhum deles promoveu uma associação entre uma certa passagem de Assim falou Zaratustra* que, além de ser de extrema relevância à filosofia do pensador alemão, também se encaixa perfeitamente com o enredo vivido pela princesa/rainha Elsa, de Arendelle. Neste texto eu vou pressupor que você já tenha visto o desenho, pois ele foi lançado em 2014. Mas se você ainda não viu, veja! É excelente.

A passagem do Zaratustra é justamente seu primeiro discurso, intitulado “Das Três Transformações”, que começa assim:

“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança”.

Pois bem. No desenho, Elsa tem uma habilidade que é, ao mesmo tempo, poderosa e assustadora. Ela acaba machucando sua irmã e provocando o medo de seu pai, que a ensina que “sempre a boa menina deve ser; encobrir, não sentir, não deixar saber”; ou seja, ele a condiciona a abandonar seu poder, a temê-lo, recusá-lo, escondê-lo de tudo e de todos, inclusive da irmã. Dessa maneira, Elsa vive sob o peso de um segredo e acredita que a maior virtude é justamente conseguir mantê-lo assim. Como se a sua força fosse não o maravilhoso poder em suas mãos, mas, pelo contrário, a capacidade de contê-lo, sendo menos do que realmente é. Para Elsa, o sacrifício de viver longe da irmã é para o bem dela, para que não volte a se machucar. Nesse primeiro momento, Elsa é o camelo.

Em nossas vidas, somos o camelo quando nos curvamos aos ditames das tradições, da “moral” e dos “bons costumes”. Buscamos nos adequar aos modelos de virtude, esperando uma aprovação do outro, mas passando por cima de nós mesmos. Essa carga de valores vencidos é putrefata, qual cadáver que se recusa a encontrar sua cova. Peso morto que impede nossa caminhada rumo àquilo que somos em potência, mas ainda distante de se realizar, culpa dessa âncora que decidimos carregar. Assim como Elsa, seu medo, suas luvas, seu isolamento.

Que diz Nietzsche sobre o camelo?

“Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está clamando por coisas pesadas, e das mais pesadas.
Há o que quer que seja pesado? — pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se igual camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis — pergunta o espírito sólido — para eu o ditar sobre mim, para que a minha força se recreie?
Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer?
(…) Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e sofrer fome na alma por causa da verdade? Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos?
(…) O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto”.
Coroação da Elsa. O medo de ser descoberta e o peso da responsabilidade.

Entretanto, em um determinado momento, quando se encontra sob pressão, Elsa rompe com tudo e abandona suas obrigações para viver de acordo com seus próprios desejos. Tendo sido recém coroada rainha, ela de repente foge do castelo, deixando para trás as exigências de seu pai, que ela aprendeu a reconhecer como suas. Não quer mais se esconder, se reprimir; não quer mais ser a “boa menina”, sempre submetida aos ditames do dever e da responsabilidade. Não, agora ela está livre e pode ser ela mesma (ou assim acredita), pode liberar todo o seu poder e mandar às favas todos os imperativos que se impunham sobre ela. É quando se torna o leão, se isolando no alto da montanha.

“Livre estou”. Será que está mesmo?
“No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.
Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão.
(…) ‘Tu deves’, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: ‘Eu quero’.
(…) Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão”.

O leão é necessário para superar aqueles valores, para romper as barreiras. Ele é a força primordial que transcende as muralhas erguidas pelos antigos deveres, destruindo as correntes que nos ligam a eles, para que, leves, possamos alçar voos mais altos. Simbolicamente, o leão é o nosso impulso desejante, única força capaz de superar nossos medos, especialmente o medo do novo, que, naturalmente, é o desconhecido. O medo hamletiano, do que existe por trás do véu das coisas já conhecidas, é devorado pelo leão. Mas ele sozinho não basta. As transformações do espírito não acabam aí.

Como podemos observar no desenho, a Elsa se sente livre pela primeira vez, e vive uma ilusão de felicidade, sem se dar conta de que sua suposta felicidade está literalmente acabando com o seu reino. Arendelle se afunda em gelo enquanto a rainha, antes escrava de seus deveres, agora se torna escrava de seus desejos, de seu próprio ego. O leão nunca será o suficiente porque ele não pode deixar de ser o “rei da selva”, e sua arrogância o cega para a construção de um futuro. Por isso sua liberdade não é completa; pode até mesmo ser ilusória. Não há “sucesso” para o leão, pois ele só destrói, sem nada gerar. “Quem tudo quer, nada tem”, diz a sabedoria popular. Ao liberar seu poder congelante, Elsa ameaça exterminar a tudo e a todos com a brancura da neve eterna. Em sua recusa de enxergar os perigos de seu recém descoberto orgulho, fere até mesmo sua irmã, a tão temida ferida de morte que buscou evitar por toda a vida.

Mas as transformações do espírito são três. Em seguida, ele se transforma na criança.

“A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação.
Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é necessário uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo”.

A criança é aquela que é capaz de ver tudo como se fosse a primeira vez, pois deixa o mundo falar por si mesmo, em vez de impor sua verdade ao mundo. Elsa se transforma, com o ato de amor de sua irmã, naquela criança que ela um dia fora, e descobre que justamente o amor é a chave para controlar o seus poderes. De forma simbólica, poderíamos dizer que é o amor puro da criança que nos leva ao encontro de nossa Verdadeira Vontade. Elsa pode se tornar ela mesma quando volta a ser a criança brincalhona de outrora. Agora mais sábia, mais madura, mas ainda assim criança. Assim, ela alcança novamente o seu Reino.

Libertos de nós mesmos, é quando nos encontramos. Descobrimos nossa Verdadeira Vontade e vivemos uma vida autêntica.

A brincadeira volta a fazer parte da vida das irmãs.

*As passagens do livro “Assim falou Zaratustra” presentes neste texto foram retiradas da edição de bolso da Editora Martin Claret.

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