O Corpo, a Matéria e a Grande Obra

Introdução

A expressão “Grande Obra” surge no ocidente dentro do contexto alquímico. Era a busca por transformar chumbo em ouro, com o auxílio da Pedra Filosofal. Com as mútuas influências entre as diferentes Escolas de Mistérios, as disciplinas antigas se misturaram, tornando-se parte de uma mesma “Tradição”, por assim dizer. Alquimia, Astrologia, Tarot, Cabala, Hermetismo, todas passaram a se complementar, num intrincado processo de correlações simbólicas. A partir daí, “Grande Obra” passa a ser usado como um termo genérico para se referir ao processo de consecução do objetivo final da Magia, que é o encontro com aquilo que existe de mais elevado em nós mesmos. Esse processo recebeu vários outros nomes, a depender da Tradição, mas eu destaco dois que me tocam em especial: Individuação e Iluminação.

A Sabedoria do Ocidente nos ensina que vivemos em vários lugares ao mesmo tempo. Temos várias “dimensões” de existência. Vivemos um corpo físico, que nos presenteia com cinco sentidos, através dos quais podemos perceber diretamente a matéria. Também possuímos um universo mental, onde se reúnem nossas vivências psíquicas subjetivas; nos identificamos com uma pequena parte delas, que formam a nossa consciência, nosso “eu”, e o que sobra das experiências compõem nosso inconsciente pessoal. Além disso, temos uma porção de nossa totalidade que é espiritual, e se conecta com as dimensões mais elevadas de existência. Essa tríplice divisão, na Alquimia, está representada pelos elementos alquímicos SAL (corpo), MERCÚRIO (mente) e ENXOFRE (espírito). Acontece que essa separação é meramente didática. A totalidade do que somos é o acontecimento simultâneo de todas essas realidades. O esquecimento disso não apenas nos torna criaturas cindidas, irremediavelmente quebradas, mas também impossibilita o caminhar na direção da integração que é o objetivo da Grande Obra.

A existência corpórea

Tomemos como ponte de partida a compreensão da existência humana como uma vivência material. Bem, temos um corpo. Nossa existência neste mundo depende da boa manutenção desse corpo. Algumas Tradições, ao perceberem o corpo físico como partícipe de uma dimensão distante da espiritual, que é nosso destino final, apregoam que, para chegar à Sabedoria, é necessário negar o corpo e a matéria. Mas tal negação nos leva a perder de vista o próprio sentido da existência material. Por que temos um corpo físico? Por que vivemos na matéria? Qual a importância do mundo material? Que sentido tem estarmos aqui? Negar nossa materialidade é afirmar a sua total falta de propósito. Se, antes disso, compreendemos que se aqui estamos é porque é exatamente aqui que deveríamos estar, então levantamos a suspeita de que a matéria é importante. Mas pra quê?

Sabemos, a princípio, que a vivência no mundo da matéria nos impõe uma série de necessidades para que o corpo continue existindo. Quando essas necessidades não são atendidas, experimentamos a privação como sofrimento. O desejo de evitar o sofrimento gera o medo de ter que enfrentá-lo, ou seja, temos medo da falta. Tal medo nos leva ao egoísmo, à gula, ao acúmulo e à eterna insatisfação. Nessa dinâmica, vivemos a querer encher um buraco que não tem fundo, nos agarrando a coisas que, se por um lado, não têm a capacidade de nos satisfazer plenamente, por outro, estão subordinadas ao princípio da entropia, ou seja, são efêmeras, passageiras, morrem, acabam. O medo da falta, que é o medo de sofrer, termina sendo justamente aquilo que nos traz mais sofrimento. A identificação demasiada com o corpo destrói a ponte que existe entre a dimensão física e as outras, em especial a espiritual; de tal forma que esta se perde no esquecimento do inalcançável, enquanto nós nos perdemos na ilusão da separação. Por isso, nos apegar aos desejos que surgem da falta nos distancia da Grande Obra, que pressupõe o fim dos sofrimentos.

Mas desapego e indiferença estão longe de serem a mesma coisa.

Je est un autre?

Não existe real diferença entre a minha experiência e a do outro, pois estamos, ambos, perdidos aqui no planeta buscando aprender que somos iguais e o mesmo. Assim, uma das consequências de todos aqueles vícios gerados pelo medo da falta, é a incapacidade de desenvolver empatia, que é a forma definitiva de altruísmo, a capacidade que temos de nos colocar no lugar do outro. O sofrimento do outro não é de exclusiva responsabilidade dele, pois enquanto não enxergamos, no sofrimento do outro, o nosso próprio, continuaremos vivendo num mundo em que o sofrimento é uma realidade comum. Esse é um dos ensinamentos mais profundos com os quais já entrei em contato no tocante à vivência na matéria. Aquele que nos leva a entender que o verdadeiro trabalho espiritual é aquele que é feito também em prol do outro. A Iluminação é um estado de consciência da abundância do Universo. Os que chegam a esse estágio têm como obrigação auxiliar todos os outros a atingir a mesma consciência. O indivíduo que permanece “ensimesmado”, não é capaz de alcançar a consciência iluminada pois vive na ilusão de separação, acreditando que existe um “eu” e um “outro”. O grande paradoxo do processo de Individuação é o fato de que, quanto mais nos tornamos nós mesmos, mais perto chegamos do outro.

“No Oriente, diz-se que Deus é uma enorme aranha e que o Universo é sua teia. Esta é a Matrix. Nossa emoção mais leve é sentida pelo todo, nossa vitória mais pequenina é experimentada pelo universo como expansão e alegria. É hora de descobrirmos isso e de nos beneficiarmos conscientemente. Não há necessidade de estarmos ou nos sentirmos sós se somos o Todo-Um. Não há necessidade de sentir falta se tudo é nosso. Não existe razão para medo ou lamúria, inveja ou avareza, se no momento em que concebemos algo, temos acesso a ele”. (Vivendo na Matrix, Zulma Reyo)

Por isso o caminho rumo à Iluminação, ou à realização da Grande Obra, se relaciona diretamente com uma certa “moralidade”, mas não aquela das normas rígidas do conservadorismo, e sim aquela que envolve o exercício da caridade, da empatia e da honestidade para consigo mesmo. E isso é o que mais atribui sentido à busca espiritual, porque nenhum caminho é espiritualmente legítimo se não nos levar a sermos pessoas melhores. Todos os Grandes Mestres ensinaram isso. Pode parecer óbvio, mas é a armadilha à qual muitos ainda se encontram presos.

m = E / c²

É interessante perceber que, para exercitar a ideia de que estamos integrados a tudo, é necessário termos a sensação de separação. Os textos sagrados, se bem lidos, nos ensinam que nossa separação da Unidade aconteceu para que, distantes, pudéssemos ter a oportunidade de nos reintegrar, trilhando o caminho de volta ao realizar a Grande Obra. E a matéria é a oportunidade perfeita, porque é aqui que aprendemos a superar nossos vícios, que nos levam à consciência cindida, separada. O físico Albert Einstein, em sua famosa fórmula, nos ensina que, se acelerarmos a matéria à velocidade da luz, ela se torna energia (E=mc²).

Se operarmos a relação inversa, temos que matéria é energia LERDA.

Ora, tudo é energia. A matéria só é uma forma de energia que se encontra condensada, de tal maneira que ela responde de forma mais lenta aos estímulos que recebe. Se nós nos lembramos do Princípio Hermético do Mentalismo, que diz que “O Todo é Mental”, imagine se vivêssemos em uma realidade em que tudo o que pensássemos acontecesse imediatamente. Seria um inferno, pois nós não sabemos pensar. Com frequência nos afundamos na dinâmica dos desejos insaciáveis, aqueles que surgem da ideia da falta, criando para nós mesmos uma realidade de sofrimentos. O que desejamos difere do que verdadeiramente queremos. Já tratamos disso em outro texto.

O que interessa aqui é que a matéria, por ser energia lerda, nos dá a oportunidade de nos arrependermos daquilo que desejamos; nós podemos, assim, “voltar atrás” e desejar outra coisa. De maneira que mesmo o tal “fracasso” da Magia, quando mudamos o intento do rito mágico (ao não esquecer um sigilo, por exemplo), pode até trabalhar em nosso favor. O que a Magia faz por nós é nos colocar em contato com a nossa Verdadeira Vontade. Faz-nos compreender o que queremos de fato, qual é o nosso Caminho legítimo, para que criemos uma realidade adequada a ele. E só é Verdadeira Vontade, aquela que deseja para todos, não apenas para si. O mundo buscado pela Magia, enquanto Caminho de Sabedoria, é aquele em que TODOS possam ter exatamente aquilo que querem. Mas o que querem, não o que desejam.

Um corpo iluminado

A crença de que o corpo e a matéria, porém, por estarem “distantes” do Divino, precisam ser desprezados em prol de uma realidade espiritual, é fruto de uma má compreensão do objetivo do mundo físico. “A matéria é a parte de Deus que podemos tocar”, nos ensina Grant Morrison em Os Invisíveis:

“O divino desceu, através da mente, para a matéria. Matéria é o divino em sua forma mais condensada. A entidade que estou tentando descrever está presente em tudo. Tem sido assim desde o momento em que dois universos superiores foram sobrepostos para formar este. O big bang, saca? O aumento da complexidade do universo é sinal da crescente autoconsciência da entidade. Pois a entidade ficou aturdida ao deparar-se com sua própria criação. Quer dizer, literalmente. Cegada, encurralada naquilo que construíra com sua própria substância. E o que acontece agora é que a entidade, o alien, o universo, como você quiser chamar, está nos usando para acordá-lo.
Nosso progresso evolutivo é o registro de sua consciência retornando, sempre mais coerente. Mais autoconsciência. E, muito em breve, ele vai despertar. O universo inteiro vai abrir os olhos e piscar. E nós estaremos lá para ver acontecer”. (Os Invisíveis, Grant Morrison)

O corpo é a ferramenta que temos para experimentar a evolução. É o receptáculo do espírito e, portanto, um sacrário. Tão sagrado quanto aquilo que contém. Por isso, o corpo, como templo, precisa ser cuidado, limpo e elevado, caso contrário não estará em condições de receber as dádivas do espírito. A consciência iluminada somente pode se expressar através de um corpo iluminado. Assim, acreditar que o trabalho espiritual se resume ao treino mental é um erro. Se o interior da mangueira está sujo, não adianta conectá-la a uma fonte de água limpa; do outro lado, a água sairá suja. Enquanto meio de manifestação da mente e do espírito, o corpo descuidado pode ser como uma vidraça suja, ou uma lâmpada sobre a qual se jogou um plástico preto. O maior desafio — e também o objetivo último — é trabalhar para que tudo caminhe junto.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.