A vida é boa no banco dos Warriors

Apesar de ser o último jogador no banco do melhor time da NBA, atitude e ética de trabalho fazem de James McAdoo um membro valioso da equipe

Por Scott Cacciola
Traduzido por
Samir Mendes
Fotos de Elizabeth D. Herman

Na era das redes sociais e da cobertura incessante de eventos esportivos, o fã do basquete pode acompanhar cada lance, declaração e contrato assinado pelos LeBrons, Durants e Currys da NBA. Porém, você já parou para pensar em como é a vida daquele cara que fica o jogo inteiro no banco e só aparece quando o técnico pede tempo e ele levanta para dar um HIGH FIVE nas grandes estrelas?

Scott Cacciola, em texto publicado pelo New York Times, em 21 de janeiro, e traduzido pelo HIGH FIVE, acompanhou um pouco da rotina de James McAdoo, ala-pivô do Golden State Warriors para mostrar um pouco do lado menos glamouroso da NBA. Confira!

OAKLAND, Calif. — O último jogador do banco do melhor time da NBA foi o primeiro a chegar no centro de treinamento da equipe em uma recente manhã do meio de semana. James Michael McAdoo ligou o som, calçou os tênis e se juntou a três membros do departamento de vídeo do Golden State Warriors para um aquecimento antes do treino.

Eles se chamam de the Breakfast Club (‘Clube do Café da Manhã’, em tradução livre), e McAdoo, um ala-pivô de 2m10, tira proveito da relativa solidão desses aquecimentos pela manhã. Eles são necessários, também, porque ele assiste à maioria dos jogos sentados em uma cadeira dobrável à beira da quadra. Ele precisa do treinamento extra. Seus companheiros, que o chamam de Mac, apreciam o seu esforço.

“Ninguém me subestima porque eu não jogo”, declara McAdoo.

Do time que foi campeão em 2015, seis jogadores permanecem no elenco dos Warriors: Stephen Curry, Klay Thompson, Draymond Green, Andre Iguodala, Shaun Livingston e James Michael McAdoo. O fato de McAdoo ter permanecido é devido a sua ética de trabalho, sua mentalidade de saber trabalhar em equipe e ao seu contrato barato.

Curry acertou 851 cestas de três pontos nas últimas três temporadas. McAdoo jogou 499 minutos.

“É difícil,” disse o técnico assistente Ron Adams, “porque nós temos muito jogadores bons.”


Apesar da implacável rotina de jogar em um super time, McAdoo chega cedo e vai embora tarde, tanto para melhorar como jogador como para motivar os seus companheiros. Se os “esquenta-banco” estão diariamente comprometidos em melhorar, como é possível que os deuses do basquete do time evitem trabalhar duro? McAdoo — que fará 24 anos neste mês — , no entanto, está bem ciente do seu papel.

“Não é como seu estivesse fazendo discursos motivacionais”, ele diz.


Mesmo assim, McAdoo tem seus momentos. Ele aproveitou uma dessas oportunidades contra o Houston Rockets na última sexta a noite. Chamado para o jogo devido a uma lesão de David West, McAdoo marcou 8 pontos em 12 minutos — um recorde na temporada, acertando todas as suas tentativas para três em uma vitória por 17 pontos.

“Ele foi o nome da partida, na minha opinião”, disse Kevin Durant.

Porém, McAdoo nunca sabe quando seus minutos virão. As oscilações de seu trabalho tendem a ser mais difíceis para sua esposa, Lauren, uma ex-jogadora de vôlei que torce para vitórias por lavadas.

“Eu estou assistindo e eles estão vencendo por 20 e eu fico ‘Meu deus, põe ele pra jogar!’”, ela declara. “Eu fico tão frustrada quando não o colocam no jogo e ele chega em casa e fala ‘Está tudo bem!’”.

O casal McAdoo se conheceu quando eram calouros na Carolina do Norte. James Michael McAdoo, um ex-All-American do McDonald’s, estava na escola durante o verão com uma das amigas de Lauren e pediu para serem apresentados. Isso foi o suficiente, ele revela.

“Nós basicamente crescemos juntos”, ele diz.

Eles compartilham um modesto apartamento em uma vizinhança tranquila com dois cachorros e um gato. A maioria dos vizinhos de McAdoo parecem desconhecer o que ele faz profissionalmente. Lauren McAdoo adotou a visão do seu marido sobre a vida na NBA.

“Nós valorizamos”, ela diz. “Muitos caras matariam para ser banco de um time campeão”.

Os Warriors têm sua própria forma de desigualdade. Os cinco melhores jogadores da equipe consomem 76% da folha de pagamento, com Durant e seus US$ 26.5 milhões de salário representando quase um quarto do total. Oito jogadores no elenco atual ganharão mais de US$ 2 milhões nesta temporada. Entre eles, está McAdoo, que assinou, em julho, um contrato de um ano valendo US$ 980.000

Durant e Curry são embaixadores globais com contratos multimilionários. McAdoo ganha tênis de graça da Nike.


Os Warriors são uma mistura única de arremessadores extraterrestres (Curry e Thompson), ciborgues pontuadores (Durant) e carregadores de piano baratos que trabalham sem reclamar. Na última pós-temporada, o time precisou dessas peças baratas para criar espaço no teto salarial para Durant. De maneira sutil, McAdoo é inestimável.

“Eu acho que a química da equipe é determinada por seus dois melhores jogadores e pela parte mais humildade do elenco”, disse o técnico Steve Kerr. “Na maioria dos times, há uma hierarquia bem clara, e você sabe quem está liderando o seu time — e liderança é essencial. Mas as coisas sempre podem dar errado. Jogadores podem passar por fases ruins.”

Os mais suscetíveis por fases de menos brilho, disse Kerr, acumulam teias de aranha no banco. Se eles começarem a reclamar ou ficarem desmotivados, isso pode ter um efeito negativo no resto da equipe. Os Warriors, pensando em título, não podem perder tempo com isso.

Metta World Peace, um titular durante muito tempo que agora, aos 37 anos, passa a maior parte do tempo no banco do Los Angeles Lakers, disse que todos os 15 jogadores do elenco precisam contribuir — seja nos treinos, nos jogos ou até fora de quadra.

“Você não pode ter caras sugando energia, porque é difícil”, World Peace declarou. “Eu não consigo imaginar ser campeão sem os 15. Não há outra maneira”.

Depois que McAdoo não foi recrutado por nenhuma equipe ao sair da faculdade em 2014, seu agente, Jim Tanner, ofereceu o seguinte conselho antes de McAdoo fazer um teste com os Warriors como agente livre.

“Seja o cara que mais trabalha”, McAdoo recorda.


A mentalidade trabalhadora de McAdoo não foi suficiente para prevenir que ele fosse cortado no training camp. Ele jogou com o Santa Cruz Warriors na Liga de Desenvolvimento da NBA, tendo médias de 19.5 pontos, 8.7 rebotes e 57.5% de aproveitamento dos arremessos em 33 jogos com a equipe. Seu tempo em Santa Cruz foi, se mais nada, simbólico da distância entre a D-League, onde ele finalmente jogou de forma dominante, e a NBA, onde ele não conseguiu achar emprego em tempo integral.

Foi preciso uma sequência improvável de eventos para que McAdoo conseguisse uma segunda chance em Golden State naquela temporada. Até hoje ele parece incrédulo ao contar a história.

“Para que eu tivesse uma chance na NBA”, ele diz, “Outro cara teve que literalmente dizer ‘Eu não quero jogar mais na NBA’.”

Esse outro cara foi Nemanja Nedovic, um armador reserva que estava desapontado com seu papel limitado. Depois que os Warriors o dispensaram em novembro de 2014, Nedovic assinou com um time na Espanha. Essa foi a sequência de eventos que criaram espaço no elenco para McAdoo. Os Warriors acabaram vencendo o seu primeiro campeonato desde 1975 e McAdoo, que jogou em cinco partidas de playoffs, ganhou um anel.

No último fim de semana, McAdoo chegou ao centro de treinamento da equipe duas horas antes do começo do treinamento de Golden State, às 11h. Na lanchonete, um membro da equipe de cozinheiros do time o cumprimenta: “Bom dia, Sr. Mac! Como o senhor está?”

McAdoo pediu um omelete com três claras, abacate, abobrinha, suco e queijo. Depois de comer com Damian Jones, outro companheiro que chegou cedo, McAdoo foi para a quadra para receber uma massagem de 10 minutos, só para fazer a digestão.


Não demorou muito até que os outros membros do autonomeado Breakfast Club chegassem: três jovens membros que regularmente acompanham McAdoo em seus treino individuais.

“Nós nos achamos nos Classificados,” McAdoo declarou. “Eu coloquei um anúncio: precisa-se de ajuda em quadra.”

Na verdade, McAdoo disse, eles naturalmente se aproximaram um do outro no começo da temporada. Como McAdoo, James Laughlin, o coordenador de vídeo da equipe, e os estagiários Luke Loucks e Khalid Robinson gostam de chegar cedo à academia, ou no mínimo veem o valor nisso. Todos têm um imenso apetite pelo trabalho. Todos têm muito a provar.

“Os primeiros a chegar”, disse Loucks.

Neste dia, os exercícios de McAdoo começaram com uma pitada de gentileza — “Vamos?”, ele perguntou ao Breakfast Club — antes de migrarem para a quadra. Ele arremessou alguns ganchos e chutes da lateral da quadra. Loucks pegou um aríete forrado com espuma e o usou para “marcar” McAdoo enquanto ele trabalhava no garrafão. Apesar de todos os seus componentes valiosos, os Warriors também investem em desenvolvimento.

“Nós sabemos que Mac pode ser o 15o cara aqui”, Laughlin disse. “Mas ele pode ser o oitavo ou sétimo em outro time, e nós ficaremos felizes por ele quando esse tempo chegar.”

Quando McAdoo era um novato, seus exercícios eram acompanhados de perto por Adams, o técnico assistente, que se tornou uma voz tão influente que seus ensinamentos ficariam presentes na mente de McAdoo por diversos momentos. Desde então, Adams relegou algumas de suas responsabilidades para Laughlin, Loucks e Robinson, que agem como seus substitutos — mesmo com Adams à beira da quadra assistindo tudo atentamente.


Acima de tudo, McAdoo sabe que deve permanecer preparado, não importa o quanto ele esteja jogando. Frequentemente, ele nem é relacionado, o que significa que não precisa nem vestir o uniforme.

No começo da temporada, ele não saiu do banco por oito jogos seguidos e quando Kerr finalmente decidiu colocá-lo em quadra, foi por cinco segundos contra o Miami Heat.

“Todos querem jogar 48 minutos”, disse McAdoo. “Porém, quando você está em seu terceiro ano na liga e no melhor time da NBA, é difícil reclamar.”

Quando os Warriors jogaram com o Oklahoma City Thunder nas Finais da Conferência Oeste na última temporada, McAdoo não apareceu sequer uma vez na série. Mas ele estava envolvido. Além de se juntar ao time nos treinos, ele jogou 2 x 2 com os estagiários da equipe e realizou sessões de condicionamento extra com Michael Irr, técnico de performance e terapeuta dos Warriors.

“Era sobre se manter mentalmente envolvido”, McAdoo revelou. “Ninguém nunca me falou, ‘Ei, você precisar estar no ginásio fazendo isso’. Foi iniciativa minha.”

McAdoo não foi relacionado para os primeiros três jogos das Finais da NBA contra o Cleveland Cavaliers. Porém, após o Jogo 3, Kerr chegou com notícias: McAdoo poderá estar em quadra para o Jogo 4. Como anunciado, em busca de energia, Kerr convocou McAdoo para o jogo no segundo quarto. O mundo do basquete ficou surpreso, incluindo a esposa de McAdoo.

“Ele está marcando o LeBron!”, ela se recorda de dizer.

McAdoo terminou a partida com 2 pontos, 1 rebote e 1 assistência em 7 minutos. Conforme a série se estendeu, ele retornou à obscuridade.

Antes do jogo dos Warriors contra o Cavaliers na última segunda-feira, McAdoo chegou à Oracle Arena quatro horas antes do início da partida. Trabalhadores ainda estavam limpando a arena quando ele adentrou a quadra para se exercitar com o Breakfast Club. Ele contornou líderes de torcida e se desviou de eletricistas.

Depois, após a apresentação dos jogadores, McAdoo teve uma rápida aparição sob os holofotes. Ele pegou o microfone e fez um rápido discurso para celebrar o feriado em homenagem ao Reverendo Dr. Martin Luther King Jr. Os companheiros de McAdoo o parabenizaram enquanto ele voltava ao banco.

E lá ele ficou até o quarto período, quando os Warriors já lideravam por 38 pontos. Apenas então McAdoo começou a se aquecer. A maioria do público já havia deixado a arena. Mesmo assim, McAdoo fez o seu trabalho.


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