O dilema de KD

Kevin Durant e o Thunder estiveram muito perto de fazer história, mas perderam a oportunidade. E agora?

Bill Simmons é um dos mais conhecidos e reverenciados analistas da NBA nos Estados Unidos. Conhecido como `The Sports Guy`, ele trabalhou na ESPN de 2001 a 2015, onde escreveu colunas que iam além da frieza dos números e misturavam esporte com humor e cultura pop. Em 2010, ele lançou um livro de 752 páginas chamado The Book of Bastketball, no qual oferece sua visão única sobre toda a história da NBA.

Nesta semana, Simmons lançou o seu novo projeto, o site The Ringer, com textos e podcasts únicos sobre NBA, NFL, NHL, além de discussões interessantes sobre séries e música. Bill também escreveu seu primeiro artigo após 13 meses, uma análise sobre a importante decisão que Durant terá de tomar como agente livre. O High Five, sempre em busca de trazer o melhor conteúdo sobre basquete para os seus leitores, traduziu esse artigo. Confira o resultado abaixo e boa leitura!

Por Bill Simmons

Traduzido por Samir Mendes

Kevin Durant insistia em aparecer em meus pensamentos durante o Jogo 1 das Finais da NBA. Talvez porque a sensação era de que as Finais já haviam acontecido.

No começo desta semana, Durant chegou o mais perto possível de vencer uma série de playoffs sem, de fato, vencê-la. Agora, ele está assistindo às Finais pela TV como todos nós, provavelmente pensando em coisas como “Porque alguém acha que tem chances de vencer um título com J.R. Smith atuando 36 minutos por jogo?”; “O Leste é realmente tão ruim?” e “Porque Stephen A. Smith aparece na TV tanto assim?”. Perguntas que todos nós nos fizemos. No entanto, os últimos três jogos da série Warriors-Thunder ainda devem assombrá-lo.

Esta é uma boa hora para mencionar que Durant não se parece com ninguém que já tenha jogado basquete. Deus o criou com 2,06m, braços de Freddy Krueger, passadas largas, capacidade de matar bolas de 7m de distância, um fácil controle de bola e o release mais rápido de qualquer ala desde Bernard King. Os fanáticos por números o exaltam como um dos arremessadores mais eficientes de todos os tempos, alguém que poderia encerrar a carreira próximo do Clube 50–40–90*. Já aqueles que preferem o olhômetro, se empolgam com o quanto ele é atlético, talvez não no inacreditável nível de LeBron ou Westbrook, mas apenas um pouquinho abaixo. Além disso tudo, Durant é um jogador inteligente, mesmo quando seu time não foi tão inteligente assim. Ele é uma mistura de George Gervin, Tracy McGrady Dirk Nowitzki e um alienígena. Desde que permaneça saudável, é praticamente certeza de que o camisa #35 será lembrado como um dos cinco melhores alas de todos os tempos.

Após nove temporadas, é quase obra do acaso que Durant só tenha disputado uma Final. Este ano foi sua melhor chance. No basquete, o time certo quase sempre triunfa em uma série de playoffs. Nós lembramos claramente das exceções — os Spurs de 2013, os Sixers de 1981, os Kings de 2002, os Pistons de 1988 e os Celtics de 2010 (para mim, pelo menos). No entanto, nós nunca saberemos como é ser parte dessas exceções. Os Pistons de Isaiah transformaram a dor coletiva em combustível para vencer títulos consecutivos, mas eles precisaram de uma troca divisora de águas (Adrian Dantley por Mark Aguirre) para entrarem nos eixos. Os Spurs de Pop e os Sixers de Erving superaram seus demônios ao bater o mesmo rival um ano depois. Os Celtics de Garnett não conseguiram vencer o tempo. Os Kings de Webber nunca se recuperaram de chegar tão perto e falhar. E OKC…bem, Durant como agente livre cria uma situação inédita.

Todo mundo acha que Durant irá assinar uma extensão de contrato por dois anos, com uma cláusula — para entrar em vigor no próximo offseason — que o permitirá optar por sair de Oklahoma. Será a mesma época em que o teto salarial da NBA subirá para níveis parecidos com o orçamento de Star Wars. Porém, Durant quebrou o pé há duas temporadas, retornou prematuramente e passou por duas cirurgias nesse mesmo pé. Ele esteve saudável na última temporada regular, mas dada a história da NBA de estrelas e problemas no pé, é preciso admitir, há um certo risco em assinar um contrato de curta duração, mesmo após um contrato máximo completo e com uma parceria com a Nike como segurança (mais sobre esse assunto daqui a pouco). Uma extensão de contrato de um ano também criará, mais uma vez, o drama “Para onde o KD vai?” que ficou pairando durante o ano inteiro. Serão mais incertezas, questões e especulações, ou seja, coisas que Durant abertamente despreza.

E tem mais essa…

Para o restante desta década, qualquer superestrela tem mais chances de chegar às Finais atuando no Leste. O Oeste tem Golden State, San Antonio, OKC (por enquanto), os azarados Clippers, os eficientes Blazes e os precoces T-Wolves na espreita, no melhor estilo Arya Stark. É briga de gente grande. O Leste tem Cleveland (PS: ano que vem será a 14a temporada de LeBron), A Coleção de Excelentes Peças de Boston Que Ainda Não Resultam Em Um Verdadeiro Candidato ao Título, Seja Lá O Que Toronto É, Seja Lá O Que Atlanta Foi, Seja Lá O Que Orlando E Milwaukee Acabem Sendo, Sejá Lá Qual Truque Pat Riley Tem Na Manga e é basicamente isso (Desculpe, fãs dos Knicks). Se você quer uma estrada mais fácil até o título, siga para o Leste. Ou assine com os Warriors.

Durant sabe de tudo isso, pode ter certeza. Ele não chegou até as Finais desde 2012 por diversas razões: lesões, donos mesquinhos, um técnico inseguro, má sorte, uma conferência competitiva e uma troca terrivelmente mal planejada (que está se tornando cada vez menos terrível na medida que Steven Adams se transforma em um guerreiro kiwi, mas ainda assim). Você pode ignorar todos esses fatores e facilmente chegar à seguinte reflexão: Nós já deveríamos ter vencido pelo menos um título, é incrível que nós não conseguimos, mas eu não posso desistir desse time ainda. Admirável e compreensível, especialmente para alguém tão leal aos fãs e aos companheiros de equipe como Durante tem sido.

No entanto, fica o questionamento: o quanto o resultado das finais do Oeste de 2016 foi consequência da excelência dos Warriors e o quanto foi consequência das repetidas amareladas de OKC, do hábito de jogar hero ball, perder a compostura, da defesa descompromissada, de ser afundado pelos descuidos ocasionais de Westbrook e da péssima atuação de Durant no Jogo 6? Fatores que assemelham esse Thunder com os Blazers da era-Drexler: um candidato ao título super atlético, cheio de talento, mas que nunca conseguiu não se prejudicar. Será que existe um potencial para repetir Malone-e-Stockton aqui? Sempre excelentes, mas nunca excelentes o suficiente?

Lembre-se, Oklahoma City jogou abaixo das expectativas durante toda a temporada, atuou de forma estupenda durante duas semanas, depois voltou a ficar abaixo das expectativas. No Jogo 4 da série contra San Antonio, quando os jogadores de OKC começaram a gritar uns com os outros no terceiro período, um momento em que pareceu que a temporada iria por água abaixo, a sensação era de que “The Decision II: Kevin Durant” era uma real possibilidade. O cara, no entanto, tinha outros planos, marcando 29 pontos na segunda metade e, sozinho, salvando a temporada do Thunder. Foram os 24 minutos mais importantes que ele já jogou.

Alguma coisa se acertou no Thunder aquela noite e pareceu que eles iriam carregar isso até o fim. Eles passaram a mover melhor a bola, lutar por rebotes, atacar o garrafão e se ajudar. Ao invés de se irritarem, eles se abraçaram tanto que Tim Duncan deve ter ficado com inveja. Quando OKC despachou San Antonio e venceu três das quatro primeiras partidas contra Golden State, eu, como todo mundo, assumi que o destino do Thunder seriam anéis, banhos de champagne e aparições no programa do Jimmy Kimmel.

O que eu mais gostei naquelas duas brilhantes semanas, além do sufocante jogo físico e da presença no garrafão estilo old school foi que Billy Donovan finalmente conseguiu acordar em KD o potencial para ser um jogador letal tanto na defesa quanto no ataque. Mesmo que Durant não estivesse com a mão quente, foi uma revelação assisti-lo comandar o ataque de um lado enquanto protegia o garrafão E defendia todo mundo do outro, de Curry a Draymond. Foi tudo o que eu sempre quis. Eis o meu maior arrependimento relacionado a Durant nas últimas temporadas: seus técnicos nunca libertaram a criatura de 2,06m que poderia ser uma arma tanto na defesa quanto no ataque durante o small ball. Pense em como os Patriots têm usado Rob Gronkowski criativamente. Ele é um receiver? Um tight end? Um bloqueador? O que ele ta fazendo nesta descida? Miami revelou LeBron dessa maneira em 2012 e 2013, quando ele venceu dois títulos, 27 jogos consecutivos e atingiu o auge como o filho que Bird e Magic nunca tiveram. Ninguém havia feito o mesmo por Durant. Não até as últimas duas semanas.

E, no entanto, Donovan sabia que não poderia se comprometer totalmente a entregar o ataque a Durant sem que Westbrook aceitasse ser o Pippen de 1996 ou o Wade de 2014…e isso jamais aconteceria. Sempre houve um sutil cabo de guerra entre KD e Russ, nunca tenso ou destrutivo -, mas dava para sentir. Em determinado tempo entre 2014 e o mês passado, era justo o sentimento de que talvez Durant e Westbrook necessitassem de suas próprias equipes. Após aqueles quatro primeiros jogos contra Golden State, ninguém falava mais sobre isso. Oklahoma City havia finalmente e sem sombra de dúvidas se transformado em um campeão. Apesar dos pesares, eles eram talentosos demais. Kevin Durant seria louco em pensar em deixar a equipe.

Pela primeira vez, os fãs do Thunder começaram a suspirar. Seus jogadores quase venceram o Jogo 5 e se portaram, mesmo na derrota, como um time que iria para casa fechar os Warriors e transformá-los em um Patriots de campanha 18–1. E eu acho que era isso que deveria ter acontecido. Até Klay e Steph acertarem impressionantes 17 bolas de três para acabar com o ímpeto de OKC.

Eu repito…17 BOLAS DE TRÊS!!!!

Pelo menos durante 10 diferentes ocasiões durante o Jogo 6, pareceu que Oklahoma City estava a uma jogada de estourar a boca do balão e vencer por uma diferença de 15 ou mais pontos. E toda vez, um dos Warriors (geralmente Klay) acertava uma bola inacreditável. Se o Jogo 6 fosse os últimos 15 minutos de um filme sobre esportes, o diretor perguntaria à equipe, “Espera aí, será que nós não deveríamos pegar leve com esses arremessos loucos que o Klay está acertando? Será que não tá irreal demais?”, e a equipe teria respondido, “É, vamos pegar leve.”

E foi assim que Oklahoma City perdeu as finais — porque um time historicamente excelente cavou fundo e transformou um jogo decisivo em uma disputa de 21. O Jogo 6 já ganhou um lugar permanente na curta lista de Jogos de Playoffs inacreditáveis, junto ao Jogo 5 da série Celts-Pistons de 87, Jogo 7 da série Blazers-Lakers de 00`, Jogo 5 da série Pistons-Cavs de 07`, Jogo 1 da série Magic-Rockets de 95`, Jogo 6 da série Heat-Spurs de 13`, e alguns outros que viverão para sempre na NBA TV. Eu achava que OKC venceria Cleveland. Nós nunca saberemos.

Em uma observação pessoal, eu amo basquete mais do que eu amo praticamente qualquer outra coisa. Após mais de 40 anos acompanhando a NBA, parte de mim começou a pensar se eu havia perdido um pouco da empolgação. Mas eu nunca havia visto algo como aquela blitz de arremessos. Meu Deus. Que liga nós estamos assistindo? Para onde estamos indo? Terá sido aleatório que o maior arremessador de todos os tempos e um dos sete maiores arremessadores de todos os tempos de alguma forma terminaram jogando NA MESMA EQUIPE em uma liga de 30 times? Ou o esporte está caminhando para uma geração de Stephs e Klays?

Eu passei o domingo a noite e a manhã de domingo refletindo sobre tais questões. Gradualmente, eu voltava a Durant, e só porque o futuro dele é mais interessante que as Finais (Desculpe, Cleveland.) Será que KD deveria deixar OKC e garantir os últimos anos com um contrato máximo? Será que ele deveria ir para o Leste e construir seu próprio candidato ao título? Ele deveria assinar com os Warriors? Ele deveria voltar com Westbrook e os outros para uma última tentativa?


Nós não podemos ignorar um fator extra para o verão de Durant que é quase mesquinho demais para mencionar. Mas dane-se. Após vencer o prêmio MVP de 2014 e oferecer um tocante discurso que inspirou um filme da Lifetime surpreendentemente bom, Durant fechou um contrato de tênis com a Nike que pode gerar até US$ 300 milhões para os seus bolsos. Você sabe o que aconteceu depois: Ele lesionou o pé e perdeu praticamente toda a a temporada 2014–15, bem quando a popularidade de Curry, atleta da Under Armour, aumentou para níveis parecidos com a de Michael Jordan (O que é ainda pior — a Nike tinha Curry e conseguiram estragar tudo.) Um ano depois, a atrapalhada turnê de despedida de Kobe ofuscou o excelente retorno de Durant, assim como o inacreditável 73–9 de Golden State, assim como Curry ter vencido outro prêmio MVP e ter se transformado em um Messias moderno. LeBron ainda foi LeBron — a maior estrela da Nike, sua peça mais importante em todos os aspectos. Até o brilhantismo mercurial de Westbrook engoliu Durant de tempos em tempos. Ninguém estava mais discutindo quem era melhor: “Lebron ou Durant”; nós nem sabíamos mais se Kevin Durant era o melhor jogador do seu próprio time.

Em fevereiro de 2014, Durant e LeBron eram os campeões de vendas de tênis entre todos os jogadores da NBA. Dois anos depois, a briga é entre Under Armour (Curry) e Nike (LeBron e a marca Jordan); se você pesquisar, você não vai encontrar Durant em qualquer estatística sobre os tênis da NBA mais procurados. Seus representantes na Roc Nation sabem disso; e a Nike sabe disso também. Se você pensa que eles não falaram sobre isso com ele, múltiplas vezes, você deve estar louco. Um fator positivo para a empresa é que Durant não quer ser apenas um dos melhores; ele quer ser O melhor. Ele é tão competitivo quanto qualquer um desses caras.

Você deve se lembrar de LeBron se reinventando com sucesso em Miami, em 2010, e novamente em Cleveland, em 2014. Há algo de atraente em um recomeço — é um motivo para novas vendas, uma narrativa fresquinha que todos podem explorar. Durant retornar a OKC não vai ajudar a Nike em sua guerra santa contra a Under Armour, a não ser que ele vença um título. Mas Durant construir o seu próprio candidato ao título em Miami, Boston ou Washington, ou continuar o legado de Kobe em Los Angeles para os Lakers? Isso sim ganharia atenção e venderia tênis. E a Nike tem 300 milhões de motivos para torcer que isso aconteça.

Veremos o quão persuasiva a Nike pode ser, porque se dependesse da empresa, ele já teria ido embora. Por enquanto, Kevin Durant precisa avaliar se a derrota de Oklahoma City foi um mero acidente…ou algo mais significativo. Ele tem quatro semanas. E eu odeio dizer isso, mas todas as quatro dessas semanas, provavelmente, serão mais dramáticas que as Finais de 2016 da NBA.