Gregg Popovich é o técnico mais ‘ligado’ da NBA

Criação em bairros integrados e viagens pelo mundo como técnico e jogador abriram os olhos de Pop

Por Marc J. Spears

Traduzido por Samir Mendes

Originalmente publicado no site The Undefeated, o artigo escrito por Marc J. Spears traz um lado mais humano sobre uma das figuras mais interessantes da NBA. Em uma época de tensões raciais e intolerância, a High Five Translations Co. resolveu traduzir esse belo exemplo dado pelo “Coach Pop” sobre empatia, consciência e como lidar com um elenco tão diversificado e internacional como o dos Spurs. Boa leitura!

Leia o artigo original aqui.


O UrbanDictionary.com define a gíria “ligado” como “Estar ciente…saber o que acontece na comunidade.” No mundo dos esportes, é difícil achar um técnico mais “ligado” que este senhor branco de 67 anos, cheio de opiniões, amante do sarcasmo, do mundo e socialmente consciente, chamado Gregg Popovich.

“Ele não é o seu técnico tradicional, com certeza”, disse o ala LaMarcus Aldridge para o The Undefeated. “Ele está atento ao que acontece no mundo em relação a pessoas e etnias. Ele não tem medo de falar abertamente sobre suas convicções. Ele tenta nos fazer entender que há mais coisas além do basquete, além da NBA.

“Claro, devemos levar o trabalho a sério. No entanto, ele tenta nos manter atentos ao fato de que essa não é a única coisa que temos para viver. Eu nunca tive um técnico que realmente tentou te ajudar a pensar sobre coisas fora do basquete. É isso o que ele faz. Ele tenta fazer você melhorar no basquete enquanto você aprende sobre o que acontece no dia a dia”.

Popovich é considerado um dos melhores e mais respeitados técnicos da NBA e do esporte. “Coach Pop” mereceu essa reputação ao liderar o pequeno mercado de San Antonio a cinco campeonatos da NBA e ser nomeado Técnico do Ano três vezes. Espera-se que o 21º técnico dos Spurs tenha sua 20º temporada consecutiva vitoriosa, um recorde na liga. O próximo técnico da Seleção Americana de Basquete é também o que está há mais tempo no cargo em todas as grandes ligas de esporte dos EUA.


Fora de quadra, a consciência social de Popovich é mais um elogio ao seu legado.

O técnico declarou apoio ao quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, e seus protestos durante o hino nacional. Não se esqueça de que Popovich frequentou a Academia das Forças Aéreas dos EUA, onde ele foi uma estrela do basquete e recebeu um diploma em Estudos Soviéticos. Ele serviu cinco anos e, depois, considerou uma carreira na CIA.

“Um grande número de pessoas imediatamente pensou que ele estava desrespeitando os militares”, Popovich declarou recentemente à imprensa em San Antonio. “Mas isso não teve nada a ver com o protesto. Na verdade, ele teve condições de fazer aquilo justamente por causa dos militares. A maioria das pessoas inteligentes entende isso, mas sempre haverá um grupo que quer causar polêmica, e isso é ruim para o nosso país”.

Popovich também acredita que os brancos não entendem os problemas envolvidos em ser negro na América. Ele citou que observa os seus assistentes técnicos negros falando com seus filhos sobre como lidar com a polícia, algo que ele nunca teve de fazer com seus dois filhos. Popovich também se refere à questão de raça na América como “o elefante na sala”.

“É mais fácil para os brancos porque nós não tivemos essa experiência. É difícil para muitos brancos entender o sentimento diário que muitos negros têm de lidar”, Popovich afirmou. “Eu não conversei com meus filhos sobre como agir com a polícia se você for parado. Eu não precisei fazer isso. Todos os meus amigos negros tiveram de fazer isso. Há algo de errado nessa situação e todos nós sabemos”.

Então, como Popovich ficou “ligado”?

Filho de um croata com uma sérvia, ele atribui muito do crédito a crescer em East Chicago, Indiana, uma cidade multicultural. De acordo com o censo americano de 2010, East Chicago era 42.9% negra, 35.5% branca e 19.1% composta de outras raças, como latinos.

“Eu cresci em uma área integrada”, Popovich disse ao The Undefeated. “Nós vivíamos em uma comunidade chamada ‘Ensolarada’. Todos tinham empregos em uma fábrica de aço. Havia uma família portorriquenha, uma família negra, tchecos, sérvios, etc. Todo mundo estava bem porque tinham empregos. Eu acho que essa é grande parte da solução.

“Se você não tem apoio ou emprego, você não tem esperança, não tem nada, e coisas ruins vão começar a acontecer. Não é só na América, como em todo o mundo. Talvez foi aí que eu comecei a ficar consciente dessas questões”.

Popovich também creditou o seu tempo entre os militares por fazê-lo consciente do mundo, em particular durante o tempo em que atuou pela Seleção Militar de Basquete dos EUA na Europa Ocidental e na União Soviética. Tal maneira de pensar é, certamente, uma ferramenta positiva para um técnico com um elenco internacional.

“No exército, claro, há bastante igualdade”, Popovich disse. “Eu também viajei com os times da Seleção Americana. Eu vi culturas e jogadores de todos lugares. Isso ficou dentro de mim. Quando eu comecei a ter jogadores estrangeiros, quanto mais socialmente consciente eles eram, mais eles se expressavam e mais eles interagiam e sentiam a responsabilidade um com o outro e que deviam algo um ao outro. Era natural”.

As opiniões de Popovich sobre a importância de ser socialmente consciente são mais do que meras palavras quando se trata dos seus jogadores.

Na última temporada, durante uma visita a Cleveland, ele levou a equipe a uma exibição privada do filme Chi-Raq, do diretor e produtor Spike Lee. Os Spurs também tiveram um palestrante convidado na última temporada, John Carlos, o corredor negro que venceu uma medalha de bronze nos 200m das Olimpíadas de 1968, e se juntou ao medalhista de ouro Tommie Smith na polêmica saudação “Black Power” no pódio.

Popovich deu aos seus jogadores cópias do livro Entre eu e o mundo, de Ta-Nehisi Coates, antes do início da temporada. O livro, lançado em 2015, foi escrito em forma de carta, dedicada ao filho adolescente do autor, abordando realidade, emoções e o simbolismo de ser afro-descendente nos Estados Unidos.


Popovich é ótimo fora da quadra, ele está sempre nos ajudando”, afirmou o armador Tony Parker ao The Undefeated.

Nate Parker, um ator, escritor, diretor e produtor, fez o filme The Birth of a Nation com um orçamento de meros US$ 10 milhões antes de vendê-lo para a Fox Searchlight por US$ 17.5 milhões no Festival de Sundance. O filme é sobre Nat Turner, um escravo e pastor batista que viveu em uma plantação em Virginia e foi o mentor de uma histórica e sangrenta rebelião de escravos que ocorreu em 21 de agosto de 1831. Acredita-se que cerca de 65 brancos tenham sido mortos enquanto a milícia branca respondeu matando cerca de 200 negros, além de Turner.

Tony Parker, que é francês, foi um dos investidores originais do filme, junto com o ex-jogador Michael Finley, embora ele só tenha conhecido a história após ler o roteiro. Nate Parker convenceu Tony Parker, que tem um pai americano afro-descendente, a se envolver financeiramente no filme durante um jantar no qual a esposa e mãe do armador compareceram. Tony Parker também foi o produtor executivo do filme, e declarou que o lançamento recente teve um “timing” perfeito porque é sempre possível “melhorar a maneira como nos tratamos”.

“Eu fiquei emocionado pela história e pela paixão de Nate”, disse Tony Parker, que planeja se envolver em mais projetos cinematográficos no futuro. “Ele queria tanto realizar o filme e ele estava tão envolvido em contar a história que acabou me inspirando. O roteiro é bastante impactante”.

Tony Parker viu o filme pela primeira vez em agosto, em uma sessão privada com Popovich, o gerente geral dos Spurs R.C. Buford e outros executivos da equipe. Tony Parker afirmou que, após o filme, Popovich e Buford expressaram como estavam orgulhosos dele.

“É como se fosse um filho”, afirmou Tony Parker sobre o filme. “Foi uma experiência divertida estar no começo do projeto e ver como ele cresceu, especialmente porque foi um projeto de baixo orçamento. Ver como ele foi projetado e como Nate o montou, é inacreditável”.

Popovich gostou tanto de The Birth of a Nation que ele planejou uma projeção do filme para os jogadores durante a pré-temporada. Ele acreditou que seria importante para os seus jogadores ver a perspectiva mostrada pela obra.

“É bastante óbvio que a mancha da escravidão continua a permear o sistema social neste país”, Popovich declarou ao The Undefeated. “As pessoas querem ignorar, não querem falar sobre isso, porque é inconveniente. E quando eu vi Birth of a Nation, eu pensei que era uma ótima maneira de dar um tapa na cara das pessoas. Não apenas dizer, ‘ah, foi algo que aconteceu. Havia campos de algodão, é complicado’. Foi complicado e revoltante e humilhante e desprezível.

“Tudo isso é representado no filme. Não é só o aspecto físico, mas também o mental, a degradação diária que as pessoas sofriam. Isso destrói famílias e mentalidades. Até hoje, nós vemos as consequências disso tudo”.

Aldridge afirmou que os jogadores do Spurs ficaram todos “chocados” com o filme impactante.

“Definitivamente iluminou alguns pontos que as pessoas estão esquecendo. Foi brilhantemente montado. O timing é perfeito com o que está acontecendo em nossa sociedade. Nós estamos tentando acalmar os policiais e os assassinatos de negros”, disse o Aldridge.

Popovich também é conhecido por levar os Spurs a passeios os quais ele acredita serem mentalmente estimulantes. Exemplo: no último 9 de janeiro, Popovich levou sua equipe para ver o popular musical Hamilton: An American Musical, durante uma viagem a Nova York. Hamilton é um musical hip-hop sobre um dos fundadores do país, Alexander Hamilton, que foi criticamente aclamado e bem-sucedido nas bilheterias.

O interesse de Aldridge aumentou quando Popovich afirmou que havia influência do hip-hop. Cinco vezes All-Star da NBA, Aldridge ficou ainda mais animado em ver sua primeira peça após assistir videos no YouTube.

“Eu nunca fui a uma peça, mas sempre quis ir”, Aldridge afirmou ao The Undefeated. “Ele nos levou para ver Hamilton e foi ótimo. Eu nunca vi uma peça da Broadway em Nova York. O show mais cobiçado, foi bem legal”.

Aldridge afirmou que o “daltônico” Popovich tenta manter seus jogadores “intrigados” todo os dias, ao lhes fazer perguntas sobre o mundo. Aldridge também afirmou que um exemplo de como Popovich consegue se relacionar bem com afro-descendentes é a sua relação pessoal com Stephen Jackson, um negro que cresceu em um ambiente pobre e violento enquanto era criado por uma mãe solteira em Port Arthur, Texas.

“Quando você o conhece, você vê que cor não importa pra ele”, Aldridge disse sobre Popovich. “Ele consegue se relacionar. As pessoas dizem que ele e Stephen Jackson são bem próximos. Stephen é o oposto de um Europeu. Não importa quem você é. Ele se relaciona com todos…Ele tem uma mente aberta para diversos assuntos”.

O atual elenco de San Antonio tem um elenco que inclui jogadores dos Estados Unidos, França, Austrália, Argentina, Espanha e Letônia. Popovich gosta de aprender sobre o mundo com cada um deles e de ampliar seus horizontes.

“Há um mundo imenso e muita coisa pra aprender”, Popovich afirmou ao The Undefeated. “Quanto mais conscientes as pessoas forem, melhor será. Para o nosso time, já que temos tantas pessoas de áreas tão diferentes, nos ajuda a nos unirmos e perceber o quão grande o mundo é.

“Ninguém nem sabia o que era um aborígene até que Patty Mills chegasse. Ele começou a falar sobre isso e todos ficaram bastante interessados. Compartilhar cultura e experiência é algo de imenso valor”.


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