Houston, nós não temos um problema

Como o controverso Mike D’Antoni vai liderando os Rockets a um começo de temporada bem melhor do que o encomendado

Por Vagner Vargas

Corta para maio de 2016. O Houston Rockets anuncia o nome de seu novo técnico: Mike D’Antoni. Eis algumas manchetes sobre a contratação.

Rockets contratam D’Antoni e fãs estão furiosos; James Harden vai gostar dele?
Inexplicavelmente, Rockets contratam Mike D’Antoni como novo treinador
Houston Rockets: Contratar Mike D’Antoni é um erro

No RealGM, um fórum de basquete dos Estados Unidos, estas foram algumas reações para a contratação de Mike D’Antoni.

“Quase tive um ataque do coração quando li uma mensagem errada dizendo ‘Rockets contratam D’Antoni’. Qualquer um, menos Mike D’Antoni”
“Que piada! Existe um motivo pelo qual D’Antoni ficou desempregado nas últimas duas temporadas. Nada pode ser pior do que isso”

“Vocês estavam dizendo…?”

Agora de volta a dezembro de 2016. Depois de praticamente um terço da temporada regular da NBA, o Houston Rockets de Mike D’Antoni não só tem uma das melhores campanhas da liga — 19 vitórias e 7 derrotas até 15 de dezembro — como é um dos times mais divertidos de se assistir.

Neste exato momento, a franquia texana acumula oito vitórias seguidas e desfruta de um sucesso no mínimo inesperado. Com um basquete focado na eficiência ofensiva, os Rockets dificilmente deixam de passar da casa dos 100 pontos (apenas três vezes). Com o segundo melhor ataque da NBA, atrás apenas dos Warriors — 117.8 contra 112.8 pontos por jogo —, o time vai enfileirando vitórias e mostrando que a contratação do novo treinador casou com o elenco e o estilo de jogo proposto.

O fator D’Antoni

“Mike No D’Antoni”, um dos apelidos carinhosos recebido pelo treinador ao longo da carreira, exalta uma característica comum em suas equipes: a falta de defesa. Ele despontou entre 2004 e 2008, quando comandou o Phoenix Suns a campanhas históricas. Utilizando o estilo de jogo run and gun, priorizando velocidade e arremessos rápidos, D’Antoni e os Suns chegaram a duas finais de conferência após campanhas brilhantes na temporada regular. Mas a equipe não conseguiu chegar à decisão da NBA em ambas e frustrou muita gente que gostava de ver aquele time jogar e queria tê-los visto com o anel de campeão.

Depois de passagens ruins por New York Knicks e Los Angeles Lakers, onde não conseguiu implementar a fórmula que deu certo em Phoenix, D’Antoni passou a ser rotulado como um treinador que só prioriza o ataque e transforma suas defesas em verdadeiras peneiras.

Após dois anos longe das quadras, D’Antoni recebeu o chamado do Houston Rockets e aceitou o desafio. Encontrou em Houston um elenco capaz de triunfar dentro daquilo que propõe, mas também tomou decisões fundamentais para o sucesso recente da equipe.

James Harden, o armador

Talvez a decisão mais acertada de D’Antoni em Houston tenha sido deslocar o astro James Harden da posição 2 para a posição 1. O técnico queria a bola nas mãos de seu principal jogador não só na esperança de que ele continuasse pontuando muito, mas também na esperança de que Harden se transformasse em um playmaker. Bingo!

James Harden vai cozinhando seus adversários sob o comando de D’Antoni

Até 15 de dezembro, Harden somava médias de 27,6 pontos, 7,8 rebotes e 11,7 assistências. O número de assistências é disparado o maior da carreira. Antes de 2016–2017, Harden nunca tinha passado da média de 7,5 assistências por partida.

Sob o jeito D’Antoni de jogar, James Harden faz quase 30 pontos por partida, ou seja, é o ponto focal do efetivo ataque dos Rockets, e ainda distribuiu mais de 11 assistências por jogo. Em uma temporada ainda jovem, já é candidato ao prêmio de MVP, principalmente pelo bom desempenho dos Rocekts até agora. Podemos dizer que o ataque dos Rockets se chama James Harden e que grande parte do mérito para que ele esteja funcionando tão bem passa pelas ideias de Mike D’Antoni.

Bom elenco de apoio

Como bem sabemos, não basta uma estrela para carregar um time nas costas e acumular vitórias na NBA. Temos vários e vários exemplos disso ao longo da história. No Houston Rockets não é diferente. James Harden é sim o ponto fora da curva do elenco, o diferente, mas não fosse a companhia de seus colegas de equipe, dificilmente estaria desfrutando de tantas vitória ao fim das partidas.

Na equipe titular, por exemplo, apenas um jogador não tem um arremesso confiável de 3 pontos: o pivô Clint Capela. Patrick Beverley e Eric Gordon, que têm se revezado na posição 2, Trevor Ariza e Ryan Anderson são todos jogadores capazes de matar bolas de longa distância e os Rockets não têm medo de usá-los.

Sam Dekker vai fazendo uma temporada muito boa após um ano esquecível como novato

Com 14,5 bolas de 3 convertidas por jogo, os texanos são a equipe que mais convertem tiros de longa distância em toda a NBA, superando inclusive os Warriors de Curry e Durant e os Cavaliers de Love e Irving. Mas não basta arremessar muito e converter pouco. Os Rockets estão também no top 5 da liga em termos de aproveitamento, com 38,4% de aproveitamento no geral. Os Cavs lideram no quesito com 39,9%.

Além de Harden e seus principais coadjuvantes, os Rockets têm contado ainda com boas produções de jogadores menos badalados, como Sam Dekker, Montrezl Harrel e Corey Brewer, além do brasileiro Nenê, reserva imediato de Capela e que tem jogado bons minutos em Houston. Dekker, que saiu bem cotado do basquete universitário e teve uma temporada de novato frustrante, talvez seja a melhor surpresa do elenco, contribuindo bem ofensivamente não só nos tiros de 3 pontos, mas com muita movimentação fora da bola e boa finalização.


Como ocorreu em Phoenix, Mike D’Antoni pode liderar os Rockets até os playoffs e cair novamente antes de chegar ao título ou até mesmo à final, mas mais uma vez o treinador surge sob os holofotes do basquete norte-americano comandando uma das equipes mais divertidas de se ver jogar, uma prova de que o encaixe entre estilo e elenco são fundamentais para a saúde das carreiras dos treinadores e do sucesso das equipes na NBA.


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