Pela liberdade de Kevin Durant, parte I

Reação negativa às decisões de LeBron James e do ex-ala do OKC demonstra dificuldade dos torcedores em aceitar a independência dos ídolos

Por Samir Mendes

Após Kevin Durant ter anunciado que deixaria o Oklahoma City Thunder para somar forças com Steph Curry, Draymond Green, Klay Thompson e Cia. no Golden State Warriors, o mundo da NBA caiu na cabeça do ala. “Covarde”, “Pegou atalho para ser campeão”, “Podia ter esperado mais” e “Vai ser coadjuvante”. Foram essas algumas das críticas mais comuns lidas e ouvidas nas redes sociais por fãs e colegas de profissão, e em programas de debates esportivos, por especialistas e críticos. Tudo muito previsível, afinal, há seis anos, nós já havíamos passado por todo esse circo com LeBron James, outra estrela de talento ímpar que decidiu largar uma franquia com a qual tinha/tem imensa identificação em troca de pastos mais verdes (e ensolarados).

Todos nós já sabemos o que aconteceu com LeBron James: após um primeiro ano ouvindo todo tipo de questionamento a sua habilidade e até ao seu caráter, ele deu a volta por cima, com prêmios de MVP e, mais importante, os primeiros dois anéis da carreira. Hoje, tricampeão da NBA, The Decision e todas as dificuldades da primeira temporada de Miami Heat são lembradas em meros paragráfos de sua ilustre e celebrada carreira.

O objetivo desta análise não é comparar as decisões de LeBron James e Kevin Durant, e sim demonstrar que, como torcedores, nós tendemos a desejar que nossos ídolos sigam uma narrativa pré-determinada em nossas mentes e corações, e quando eles se desviam desse roteiro já finalizado e começam a improvisar e escrever a própria história, nos sentimos traídos.

LeBron James era a criança-prodígio de Akron, Ohio, que finalmente entregaria um título ao sempre sofrido Cleveland Cavaliers. Ter abandonado Cleveland pela badalada Miami foi um crime inafiançável, só digno de perdão com a volta e o respectivo título do Cavaliers, o qual “corrigiu” a história.

Talvez um dos motivos pelos quais Michael Jordan seja um dos mais celebrados jogadores de basquete de todos os tempos é que, além de nunca ter desviado muito da narrativa imaginada para ele, o camisa 23 conseguiu surpreender e melhorar a própria história.

Jovem talentoso é cortado do time de basquete da escola e usa isso como motivação para o resto da carreira. Brilha na universidade e é recrutado por uma franquia desacreditada, a qual ele leva ao título após finalmente conseguir superar o temido Detroit Pistons. Vence mais dois títulos e, sem motivação, se aposenta prematuramente para jogar baseball (!!!). Retorna e vence mais três títulos, sendo o último com um arremesso que parece ter saído de uma cena de ópera.

O que frequentemente é deixado de fora quando a gloriosa carreira de Michael Jordan é mencionada é que, antes de vencer o seu primeiro título, até His Airness foi questionado, chamado de egoísta e considerado mais preocupado com as conquistas pessoais do que com o sucesso da equipe.

A lição é que o torcedor gosta mesmo e tende a perdoar os vencedores. E aqui voltamos a Kevin Durant.

Eu não o conheço pessoalmente, nem ninguém de seu círculo de amigos ou familiares. Logo, não posso afirmar com certeza o que passou pela sua cabeça quando decidiu, finalmente, trocar de equipe. No entanto, as palavras do executivo dos Warriors e um dos maiores jogadores da história da NBA, Jerry West, oferecem pistas bastante significativas. Em uma última tentativa de convencer Durant, West ligou para o camisa 35 no sábado a noite e disse que, apesar de ter vencido um campeonato (em 1972), as oito derrotas que obteve em finais o incomodam até os dias de hoje.

É justo assumir que tais palavras tenham surtido efeito, certo? Aqui está uma das lendas do jogo, alguém respeitado e que não tem nada para provar para ninguém, afirmando ainda não ter superado derrotas que aconteceram há mais de 30 anos. Durant, obviamente, não quer esse peso. Ao escolher o Golden State Warriors, ele sinaliza que, tão importante quanto vencer, ele está cansado de perder. Algo que qualquer pessoa com um mínimo de instinto competitivo pode se identificar.

Magic Johnson ganhou um título em sua primeira temporada, Larry Bird, na segunda; Michael Jordan demorou sete para vencer, LeBron James, nove. Durant quer e sabe que tem o talento necessário para deixar o mesmo legado de alguns desses caras, mas após nove temporadas com o Seattle SuperSonics/Oklahoma City Thunder — quatro Finais de Conferência e uma Final — , talvez o ala tenha sentido que, com esse núcleo, o Thunder já havia dado o seu máximo. A derrota para o Golden State Warriors, o qual muitos críticos usaram para demonstrar o quanto OKC estava perto de um título, talvez tenha sido interpretada por Durant como “esse é o mais perto que nós vamos chegar”.

E aí, quais seriam as opções? Aguardar pacientemente pelo resultado de um novo processo de reconstrução? Nada disso é garantia de título e após um processo de reformulação, Durant poderia estar mais próximo, em idade, de caras como Allen Iverson, Charles Barkley, Karl Malone, todos excelentes jogadores, mas que para sempre carregarão o asterisco: não são campeões.

E por falar em garantias, já estamos em julho e o Golden State Warriors já é o campeão da temporada 2016–17' da NBA? Como o HIGH FIVE demonstrou, outros super times já foram formados e demoraram a engrenar ou, simplesmente, não corresponderam às expectativas. Novamente, não há garantias na NBA. O que Durant fez foi aproveitar a melhor oportunidade possível que apareceu para ele e se dar a melhor chance de ser bem-sucedido, algo que todos nós procuramos fazer em todas as áreas de nossa vida. Novamente, isso é algo que eu simplesmente não vejo como condenável.

No fim das contas, enquanto todas as críticas, escárnio e análises circulam pelas redes sociais, o ala estará se preparando para garantir que a decisão atual renda o tão esperado e perseguido anel ao final da próxima temporada (e mais alguns no futuro). Independentemente do resultado, e de como o seu legado será visto por críticos e fãs no futuro, Kevin Durant poderá olhar para esse momento com a serenidade de quem escreveu a própria história.


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