A Ciência nossa de cada dia
Uma profissão pode construir o perfil do indivíduo. Esse fato é tão plausível que, muitas vezes, ao se fazer referência a determinado objeto ou assunto, recordamos facilmente de algum profissional que possa estar relacionado com o tema em questão. Assim, por exemplo, é fácil nos lembrarmos dos pescadores quando o assunto é sobre peixes e barcos, ou quando se fala em escolas e educação nossa memória nos remete logo aos professores. Não acontece diferente com a Ciência e com os cientistas quando o assunto vai desde a evolução dos organismos até os mais recentes avanços espaciais. Contudo, talvez por isso mesmo, isto é, por se tratar de algo tão amplo e com áreas tão diversificadas, o papel da Ciência acaba sendo equivocado muitas vezes, bem como a ideia que se faz de seus profissionais.
Em seu livro Filosofia da Ciência — Introdução ao jogo e suas regras, o educador brasileiro Rubem Alves explica como a imagem dos cientistas costuma tantas vezes ser estereotipada. Dessa forma, quando se fala em cientistas, a imagem mais comum que nos vêm à mente é a de um gênio louco que inventa coisas fantásticas, cuja voz autoritária deve fazer os outros obedecerem-no de prontidão. Rubem Alves afirma ainda que, devido a essa ideia generalizada, o profissional da Ciência acabou tornando-se um mito. De certo modo, podemos dizer que essa mitificação do cientista deve-se em parte à influência exercida pela literatura. Três escritores do século XIX são considerados ícones da ficção científica, e suas obras apresentam personagens que são o estereótipo do cientista louco: Herbert George Wells, Mary Wollstonecraft Shelley e Robert Louis Stevenson.
Primeiramente, é interessante notarmos que o escritor britânico H. G. Wells foi aluno de Thomas Huxley, o qual, por sua vez, era amigo do biólogo Charles Darwin. Assim, influenciado pelas ideias darwinistas da seleção natural dos organismos, Wells escreveu A ilha do Dr. Moreau, onde o protagonista, Moreau, é um cientista fissurado na ideia de transformar animais em seres humanos por meio de uma série de experimentos de vivissecção, que causavam muitas dores aos animais. Moreau tampouco se preocupa com o sofrimento que provoca em suas cobaias, antes almeja descobrir a qualquer custo como é possível uma espécie tornar-se outra.
Em 1918, a escritora inglesa Mary Shelley publicou o romance Frankenstein, onde o personagem principal, Victor Frankenstein, é um médico que teve a ideia de dar vida a um novo ser construído com as partes de diferentes cadáveres. Para isso, ele decide roubar corpos de cemitérios, e, em seu laboratório, dá luz ao seu macabro projeto: nasce então um monstro que comete atos ignominiosos devido ao desprezo que recebe de seu criador. Outra obra semelhante por abordar também experimentos assombrosos, bem como a natureza do bem e do mal, foi o conto O médico e o monstro, do escocês Robert Stevenson. Nele, o autor nos apresenta o Dr. Jekyll, um conceituado cientista que descobre a fórmula fantástica de uma poção capaz de exteriorizar sua personalidade odiosa, a qual é um verdadeiro monstro.
Fazer esforços para contribuir com o avanço da Ciência de fato é uma característica importante dos cientistas, no entanto esse tipo de profissional geralmente não ultrapassa os limites da razão para cometer atos tão nocivos quanto os dos personagens acima citados. Ao analisar essas três obras, podemos refletir sobre diversas questões bioéticas envolvidas nos experimentos feitos pelos personagens, os quais seriam prontamente rejeitados e punidos pela comunidade científica de modo geral.
Na vida real, podemos citar alguns casos interessantes para compará-los com as histórias narradas pela ficção científica. Um bom exemplo são os trabalhos realizados pela física polonesa Marie Curie, nos quais ela se expunha à radiações (fato que, inclusive, comprometeu sua saúde e foi a causa de sua morte). Nesse caso particular, Marie Curie desconhecia os efeitos colaterais decorrentes da exposição frequente às radiações, e por isso ela não pode ser comparada com o insano Dr. Jekyll. Contudo, também podemos citar os assombrosos experimentos biológicos feitos por cientistas alemães com judeus durante a Segunda Guerra Mundial, que se assemelharam um pouco com os experimentos de Moreau (embora Moreau utilizasse animais em suas pesquisas, e não seres humanos. Hoje em dia, existem leis que proíbem pesquisas abusivas com animais). Atualmente, leis constitucionais garantem a fiscalização e regulação das experiências feitas nos laboratórios, viabilizando a realização de projetos científicos conscientes.
A imagem do cientista louco também já foi bastante representada no cinema. É o caso do famoso filme Dr. Fantástico, de 1964, dirigido por Stanley Kubrick. Kubrick nos apresenta a figura excêntrica e demente de um cientista prestes a desencadear uma possível Terceira Guerra Mundial, por causa de sua ideia fixa de lançar uma bomba contra os comunistas. Outro exemplo de cientista louco do cinema (e dos quadrinhos também) é Lex Luthor, o arquinimigo do Super-Homem. Apesar de sua inteligência, Luthor é um verdadeiro gênio do crime, e tem como objetivo central dominar o mundo!
No entanto, sejamos razoáveis, na vida real as coisas não são bem assim. A propósito, cientistas são seres humanos, e, como todas as pessoas comuns, eles também têm famílias, hobbies e contas para pagar. Ah, e não esqueçamos, cientistas também levam trabalho para casa. Até mesmo conhecidos nomes da Ciência, como Charles Darwin e Albert Einstein, não passavam de “simples mortais”. E, assim como todos os simples mortais, os grandes nomes da Ciência também já cometeram gafes, disseram bobagens, tiveram hábitos esquisitos e passaram por momentos engraçados. Portanto, o cientista que nunca passou por situações como essas que atire a primeira pedra.