O cientista de mil faces

Arthur Filipe
Jan 6, 2017 · 4 min read
Cena real de um estudante defendendo seu TCC. Foto: Filme O Dragão e o Feiticeiro (1981).

Luke Skywalker, Bilbo Bolseiro, Harry Potter: esses personagens fictícios têm em comum o fato de terem sido pessoas simples que por algum motivo tornaram-se protagonistas de grandes sagas. Se você já ouviu falar no livro O herói de mil faces, de Joseph Campbell, deve saber do que estou falando. Campbell foi um cara que estudou mitos do mundo inteiro, e criou o conceito de monomito, que explica como histórias de diferentes heróis em diferentes épocas seguem mais ou menos o mesmo modelo, como se fosse uma espécie de receita de bolo; daí vem o termo “herói de mil faces”, que se refere ao modelo no qual diferentes personagens, como aqueles que mencionamos no início, se moldam.

A obra de Campbell ficou bastante famosa e inspirou muitos autores, como, por exemplo, George Lucas, o criador de Star Wars. Lucas achou bastante interessante como as histórias de heróis da Antiguidade (como Hércules, Buda e até mesmo Jesus Cristo) têm a ver com as histórias de personagens atuais, seja na literatura, no cinema, nos quadrinhos, ou em outras mídias.

De acordo com a teoria formulada por Campbell, todo herói segue um caminho, que possui mais ou menos os mesmos tipos de obstáculos, algo que ele chamou de Jornada do Herói. Neste outro texto daqui, o biólogo Marco Mello fez uma comparação fantástica entre a Jornada do Herói e a Jornada do Cientista (sim, todo cientista tem uma jornada!). Ele explicou como a carreira acadêmica (graduação, pós-graduação, vida profissional) se encaixam no percurso descrito por Campbell. Mas aqui neste nosso pequeno texto vamos refletir somente alguns aspectos da graduação, tomando como modelo a Jornada do Herói (para um aprofundamento maior sobre o tema, recomendo a leitura do texto do Marco!).

1. O chamado para a aventura (a aventura está prestes a começar!)

É quando você, simples graduando, acabou de ingressar na vida acadêmica; tudo parece muito tranquilo (apesar das disciplinas e provas) até que surge repentinamente o auxílio sobrenatural, que nada mais é que um mentor que lhe apresenta uma aventura acadêmica inesperada; ou seja, seu orientador. No entanto, nem sempre esse chamado para a aventura surge de maneira tão repentina assim: eu, por exemplo, antes de conhecer o laboratório que faço parte hoje (lá no segundo período), fiz uma breve excursão em outros laboratórios do meu curso, até finalmente topar com aquele que mais me identifiquei, ou seja, o Laboratório de Ecologia Quantitativa.

Se o seu orientador for muito legal, ele, com certeza, tem um pouco do coração de Obi-Wan :)

2. Passagem pelo limiar

Aqui você ainda é um padawan, mas menos noob do que na etapa anterior. Esse é um momento importante, onde geralmente passamos do mundo natural (nossa zona de conforto) para o mundo sobrenatural (ou mágico). Até então, você era um simples voluntário em algum laboratório, talvez até já tenha tido um primeiro contato com alguns artigos científicos; mas agora já está na hora de assumir responsabilidades um pouco maiores, como, por exemplo, entrar em uma iniciação científica. Você deve, então, ter um pouco mais de autonomia para conduzir o projeto que o seu orientador lhe entregou.

3. Um caminho cheio de provas

Pois é, nem tudo é um mar de flores na vida de um iniciante na Ciência. Se até então você achava que as provas e seminários das disciplinas eram muito, aqui começam as provas de verdade: você precisa encarar as metas e prazos de seu projeto, os relatórios de estágios, monitorias e PIBICs, os resumos de congressos, entre outros compromissos. É aqui também onde muitos (olha eu aí!) descobrem seu incrível dom para a procrastinação.

Típico estudante hobbit prestes a submeter o relatório do PIBIC no último dia da prorrogação

4. Morte

Isso mesmo, padawan, nada de moleza por aqui: cientista que é cientista deve doar a vida. Coisas comuns nesta fase são xícaras de café, análises de madrugada, e olheiras (isso geralmente acontece na reta final do TCC). Mas isso não significa que você não possa descansar às vezes, afinal, não somos robôs, não é mesmo?

5. Retorno

E claro, depois do TCC, o jovem cientista consegue renascer das cinzas! Ele realmente precisa renascer, pois, apesar da Jornada do Graduando terminar por aqui, isso não significa que ele já seja um Cavaleiro Jedi: o ciclo do super cientista terá continuidade no mestrado, doutorado, e, principalmente, na vida profissional.


Se você quiser se aprofundar mais na jornada do cientista pelo mundo acadêmico, recomendo novamente este ótimo texto que o Marco Melo escreveu em seu blog de divulgação científica (lá tem muitos outros textos legais também!). E se ficou com vontade de conhecer a obra de Joseph Campbell, recomendo também este excelente vídeo daqui:

Hipótese Nula

Um blog marginalmente significativo

Thanks to Gracielle Higino and Marcos V. C. Vital

Arthur Filipe

Written by

Biólogo e divulgador científico

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