Marcos V. C. Vital
May 21 · 5 min read

A primeira parte do meu diário aberto de classe.

Uma legenda pra ninguém se esquecer!

Se você quiser, leia este texto aqui antes, pois nele eu explico a proposta desta série de relatos do que acontece nas minhas aulas de Ecologia para a turma de Licenciatura em Ciências Biológicas na UFAL. Ou, se preferir, deixe pra depois, e fique de boa. ;)


A minha segunda aula na disciplina (a primeira não aparece aqui no diário, foi uma discussão sobre o que é Ecologia, sua abrangência, escalas e outras coisas) teve como tema central Evolução. Para quem ainda não sacou isso, Ecologia e Evolução são como que disciplinas irmãs: é muito difícil entender uma sem a outra. Então tomamos isso como ponto de partida, com um foco especial nos conceitos mais básicos e as confusões mais comuns feitas em cima deles.

Começando pelo o que não funcionou

Na aula anterior eu pedi para a turma ler o capítulo 2 do livro do Townsend et al. Acontece que tivemos uma certa lentidão na comunicação, combinada com poucos exemplares na biblioteca, o que dificultou bastante o acesso da turma ao texto. Então uma parte tinha lido, mas a maioria tinha no máximo dado aquela espiada rápida ou lido um pedacinho. Quando notei isso, decidi tocar a aula sem o capítulo como foco, usando mais os conhecimentos prévio dos alunos mesmo.

Começando a funcionar

O primeiro momento da aula foi um misto de aula expositiva com muitas perguntas e discussão com os alunos. Tive como foco central definir conceitos básicos: evolução biológica, seleção natural, adaptação, deriva genética e mutação. A cada conceito, perguntava o que eles pensavam sobre isso, do que eles se lembravam, etc. Fomos, aos poucos, pegando os conhecimentos deles, usando exemplos e chegando a conceitos claros e diretos, e desfazendo equívocos comuns (como o de evolução biológica como sinônimo de progresso, por exemplo).

A atividade legal

O momento mais divertido, que se relaciona ao título do texto e a foto lá em cima, foi o segundo. Feita a discussão e definidos os conceitos (que deixamos por escrito no quadro, num cantinho), a turma se dividiu em três grupos de 4 ou 5 pessoas. Cada grupo pegou um conceito (usamos os três primeiros: evolução, seleção e adaptação), e eles discutiram o que são as concepções equivocadas que existem em torno deles. A sacada foi essa: no lugar de usarem as definições corretas, a proposta era que eles falassem sobre o que e como entendemos tudo errado em torno destas ideias.

A turma abraçou a ideia com bastante animação, e as discussões dentro dos grupos foram bem animadas. Inicialmente de 15 minutos, mas já com o plano de estender por mais 15: o que fizemos. Ao fim da discussão, cada equipe apresentou, usando o quadro quando queriam, as ideias. Estimulei o uso da criatividade, dizendo que eles poderiam desenhar, representar ou qualquer outra coisa que achassem válido.

Os desenhos, combinados com uma explicação no quadro, foram o formato favorito. As discussões passaram por equívocos comuns como a evolução como uma escada (e a concepção equivocada do homem como tendo evoluído do macaco), a visão de evolução como um processo nos insetos com metamorfose (ou nos pokemon!) e a falha em perceber o conceito de adaptação como algo que sempre deve ser considerado relativo, com pontos de comparação para que possa fazer sentido.

E aí, em um momento muito bacana, uma das equipes resgatou aquela velha história das girafas usadas para se explicar “Lamarckismo” no ensino médio, usando o exemplo para falar do equívoco que relaciona os processos evolutivos e o surgimento de novas características a uma necessidade dos organismos.

As girafas tinham nome! Gretchen, Britney, Juntos… e Shallow Now! :D

Os desenhos das girafas foram bem esquemáticos (são os traços ali, com letras em cima). Mas, para que ninguém fosse capaz de esquecer o exemplo, as girafas tinham nomes! ;)

Encerramento, um pouco do que há por trás

A aula tomou o tempo quase completo, e achei bastante proveitosa. Os alunos se interessaram, participaram com afinco, e pareciam contentes com o resultado final (e eu também!). Aproveitei para conversar com eles sobre o blog, e as postagens que eu farei — e pedir permissão para o uso das fotos.

O principal pano de fundo aqui é o uso de metodologias ativas de ensino e aprendizagem. Tanto a minha experiência prática quanto a literatura científica (veja este artigo aqui, por exemplo) sugerem que envolver os alunos em atividades práticas aumenta a capacidade de aprendizado e a eficiência de compreensão do conteúdo. Como eu comentei no texto anterior, esta é uma aula longa, das 13:30 às 17:00, e tentar preencher isso com aula exclusivamente expositiva seria uma receita para dar errado.

No fim, o que eu usei foi um método extremamente simples, mas que pareceu bem eficaz (apesar de eu não ter medido sua eficiência de maneira formal, e estar usado apenas a experiência prática e o bom e velho “feeling” de professor), o que me deixou bem feliz.

E agora?

Semana que vem temos aula de novo! Teremos uma introdução aos primeiros conteúdos de Ecologia, e á estou bolando outra atividade, um pouco diferente desta. E para o semestre, já tenho várias coisas em mente, que serão organizadas, aplicadas e depois relatadas por aqui. :)

E vocês, o que acharam disso, ou mesmo da ideia geral? Sugestões, indicações e críticas são muito bem vindas. Relatos de experiências que vocês possam ter tido (como professores ou como alunos), também! Então usem o espaço à vontade para discutir, beleza?

Abraços, e até a próxima aula!

Hipótese Nula

Um blog marginalmente significativo

Marcos V. C. Vital

Written by

Prof. da UFAL, coordenador do LEQ, apaixonado por ensino e por ciência!

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