Medindo a cultura

Medir a cultura humana é um trabalho investigativo e desafiador, como um caso de Sherlock Holmes.

Digamos que você estivesse andando por aí quando, do nada, surgisse de supetão um jornalista meio maluco com uma câmera lhe pedindo para definir em poucos segundos a palavra cultura. Realmente, definir cultura em poucas palavras não é nada fácil, uma vez que é um termo que se refere a tantas coisas ao mesmo tempo.

Segundo o dicionário Michaelis de Língua Portuguesa, cultura é nada menos que um “conjunto de conhecimentos, costumes, crenças e padrões de comportamento, adquiridos e transmitidos socialmente, que caracterizam um grupo social”. Isso significa que até mesmo aquele seu filme favorito faz parte de uma tendência cultural (que, neste caso, é o cinema). O filme Star Wars: Uma Nova Esperança, de 1977, por exemplo, foi um dos maiores recordes de bilheteria da história do cinema, e até hoje continua atraindo muitos admiradores. Mas ao longo dos anos, provavelmente houve períodos nos quais este filme fez mais sucesso entre o público do que em outros. Como, então, medir o interesse do público ao longo do tempo?

Star Wars (1977) foi um dos maiores recordes de bilheteria do cinema, e muita gente até hoje se interessa pela saga. Mas como medir esse interesse público ao longo do tempo?

Em 2011, Michel e seus colaboradores decidiram responder à pergunta acima, e para isso realizaram uma série de análises usando livros de diferentes anos, digitalizados pela plataforma Google Books: foram cerca de 5 milhões de obras! Assim, por exemplo, para quantificar o nível de popularidade de cientistas ao longo do tempo, eles avaliaram o número de citações que cada cientista teve nos livros estudados: aquele que apresentou mais citações no decorrer do tempo foi considerado o cientista mais popular — ou, em termos técnicos, foi aquele que apresentou maior visibilidade cultural. Mas as análises não pararam por aí: Michel e seu grupo também analisaram outras tendências culturais, desde áreas da ciência, como biologia e física, até personalidades históricas, como Che Guevara e Marilyn Monroe.

Essa área de pesquisa desenvolvida por Michel e seus colaboradores, que tem o objetivo de compreender quantitativamente aspectos culturais, denomina-se culturomics. Culturomics é uma área de estudo tão abrangente que inclui até a biologia da conservação: em 2016, o professor Richard Ladle e seus colaboradores demonstraram que a pesquisa científica pode muito bem influenciar o interesse público para a conservação da natureza. Um exemplo disso foi um artigo publicado em 2014 visando a conservação do Tolypeutes tricinctus (tatu-bola), um mamífero da caatinga ameaçado de extinção. A publicação deste trabalho, na época em que T. tricinctus foi considerada mascote oficial da COPA do mundo pela FIFA, mobilizou uma campanha que viabilizou a criação de uma Unidade de Conservação para esta espécie.

Se a pesquisa científica pode influenciar o interesse público, o contrário também pode acontecer: em 2014, por exemplo, foi descoberta uma nova espécie de sapo, que recebeu o nome de Dendropsophus ozzyi, em homenagem ao cantor de rock Ozzy Osbourne (dúvidas se o cientista que o batizou não era um biólogo fã de heavy metal?). Será que uma espécie como D. ozzyi atrairá mais cientistas para estudá-la em relação à outras espécies de anfíbios? Podemos ir um pouco além ao tentar entender quais fatores podem motivar pesquisadores a estudar um grupo tão grande como anfíbios, e como a escolha dos cientistas pode influenciar o comportamento da sociedade. As respostas para essas perguntas fazem parte de cenas para um próximo capítulo. Assim que eu concluir a minha dissertação do mestrado, volto aqui para contar para vocês!

Referências

Ladle, R. J., et al. Conservation Culturomics. Concepts and questions, 2016.

Michel, J. B., et al. Quantitative Analysis of Culture Using Millions of Digitized Books. Science, 2011.